Everything is pretty much the same as it has always been.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Descolorido
Everything is pretty much the same as it has always been.
domingo, 26 de junho de 2011
Circuito fechado
quarta-feira, 30 de março de 2011
Para nunca completar
segunda-feira, 14 de março de 2011
Noturno
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Em si
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Manhã
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Estas coisas
terça-feira, 5 de outubro de 2010
La chica de la noche
Nós nos viamos há vários anos. Às vezes, quando já estavamos juntos, alguém deixava cair uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco fomos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherinha na madrugada. (Gabriel García Márquez - Olhos de Cão Azul)
Não vou fazer uma declaração de amor. O que eu sinto é sobretudo este espanto de entender que meus olhos são olhos transparentes de sentimento quando te vejo. Quando te beijo. Nas noites insones em que conversamos, sua pele clara semeava luz no meio da escuridão, eu me perdia profundamente no seu corpo. Minha vontade era seguir suas veias evidentes e me perder eternamente para não me encontrar nem jamais saber de mim. Ser isto: seu sangue, sua carne. Te habitar.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Joaquim não conseguia andar
Falar era outro problema. Joaquim tinha, naquela altura, um vocabulário bastante extenso, muito mais vasto do que o das crianças de sua idade. Mas não conseguia falar “eu”. Não entendia seu significado, não conseguia separar entidades. Para ele, parecia que mãe, carrinho, pai, pássaro, árvore, chocalho, assovio, carinho e tudo mais era “nós”. Ele dizia coisas como “nós vamos comer para ter fome”. Era tanta frase contraditória que dava medo. Joaquim, por favor, vem cá. Ele vinha, sempre sorrindo. E voando, claro. “Nós entremeamos, mamãe”. Era tanta palavra difícil, a mãe estava aflita com Joaquim conjugando perfeitamente verbos complicados e não sabendo falar “eu”.
Os vizinhos pensaram em fazer um abaixo-assinado para expulsar Joaquim do condomínio. Contudo, nem havia o que argumentar. Voar não fazia barulho em horários inapropriados. Tampouco havia pagamentos em atraso. Os pais de Joaquim, para complicar, eram uma simpatia só. Eram tão solícitos que ninguém tinha coragem de iniciar uma moção contra a família. E mesmo o menino nunca parava de rir. Os moradores dos andares de cima podiam ouvir até melhor a gargalhada dele do que os que os que viviam mais próximos do chão. Outro problema é que ele costumava apanhar coisas pelo caminho até o alto. Não faz muito tempo, havia entregado um pedaço de nuvem para o pai, coisa que ninguém podia explicar.
Joaquim também não tinha sentidos como as outras pessoas. Ele via música, ouvia carinho, sentia o gosto do amarelo (cor, aliás, que achava meio amarga), cheirava coisas ásperas. Odiava ser encostado pelo dó sustenido, mas depois acabou aprendendo a gostar. Percebia que o dó sustenido era roxo, e ele tinha um pouco de medo daquela cor. Com o tempo, porém, Joaquim foi se acostumando e parando de ter medo das coisas (se é que ele entendia as coisas separadamente, coisa de que todos duvidavam). Joaquim era um menino realmente diferente. Ele gostava de enrolodilhar os dedos em seus cabelos louros por causa da melodia. Joaquim falava línguas que ninguém era capaz de compreender.
Então, resolveram mandar Joaquim para diversos médicos, psicólogos e estudiosos. Começaram a conjecturar que o problema do menino era que ele ainda não conseguira diferenciar-se do resto do mundo. Afinal, ele achava que tudo era “nós”. Era tipo assim: se tudo era “nós”, tudo era uma coisa só e uma coisa bem diferente, que é muita coisa ao mesmo tempo, e aí tudo se confundia demais. Joaquim não tinha desenvolvido na cabeça o “eu”, ao contrário dos outros meninos, para quem tudo era “eu”. E começaram a tratá-lo.
No começo, Joaquim não entendeu. Com muita insistência, deixou de sorrir por alguns minutos pela primeira vez. Não gostava daquilo. Ficou sério. Com muita, muita, mas muita insistência, passou a falar dele mesmo na terceira pessoa: Joaquim gosta de jogar bola, Joaquim come jabuticaba. Pouco a pouco, conseguiram fazê-lo falar o que queriam. Joaquim passou a conjugar verbos, mas sempre na terceira pessoa. E às vezes regredia para a primeira pessoa do plural. Ninguém entendia aquela resistência enorme do menino. Falavam que Joaquim era ele, Joaquim era ele, Joaquim era ele. E Joaquim dizia “ele”, mas eles não aceitavam. Ele ficou ainda mais confuso. Depois, passaram a dizer que Joaquim era eu, que Joaquim era eu, que Joaquim era eu.
Finalmente, um certo dia, Joaquim disse “eu”, e nunca mais conseguiu voar, para alívio de todos os vizinhos, os médicos e as professoras de sua escolinha.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Primeira entrada em um diário sem assinatura (e também a única: o diário jamais foi continuado)
quinta-feira, 4 de março de 2010
The outsider (fragments)
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Um dia
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Princípio do autor (ou "Conto em forma de cebola")
Ou, talvez, continua-se com o arquiteto, que é personagem de uma história que se passa entre Paris e Brasília. O autor, Matheus, é um diplomata brasileiro que namora uma arquiteta, tenta aprender francês, admira Paris e não tem muito o que fazer nos fins de semana que passa na cidade, a trabalho. Portanto, as cidades em que se passa a história. Portanto, a profissão. O enredo pareceria, de início, tratar de um arquiteto que tenta escrever uma história como passatempo em seus breves períodos de descanso dos inúmeros projetos que o preocupam. Depois, descobre-se que o autor é, na verdade, manipulado por seu próprio personagem, que eventualmente o encontra num café no Boulevard Haussmann. O personagem, aliás, tem o mesmo nome e profissão do autor, embora com personalidade bem diversa do que o autor acredita ter (e que, não obstante, entende). Fim da história.
Ou, talvez, continua-se com o diplomata e o arquiteto, entre Brasília e Paris, alternando-se os papéis de autor e personagem entre um e outro. Trata-se de um esboço de conto de uma autora brasileira, arquiteta modernista apaixonada em Niemeyer e namorada de um diplomata brasileiro que gosta muito de Paris. Daí, as profissões, os gostos, as cidades. A arquiteta modernista faz um conto pós-moderno em que desafia os limites entre realidade e ficção, faz uma narrativa com discurso indireto livre em que nunca se sabe quem fala: se um narrador onisciente ou se um dos personagens-autores. As diferenças entre Paris e Brasília, durante as longas discussões sobre projetos urbanísticos e edifícios, desaparecem em diversas ocasiões. Nota-se o carinho que ela tem pelos personagens, inspirados em pessoas com quem conviveu durante muito tempo. E essa história criada pela arquiteta, nem se sabe dizer se acaba ou não, visto que a própria estrutura é propositalmente a de um conto inacabado. Como um prédio finalizado aberto a novas intervenções. O esboço do conto (que é sua forma definitiva) nunca foi publicado e é esquecido na gaveta de baixo de um armário, enfim abandonado quando ela se muda do apartamento. Fim da história.
Ou, talvez, continua-se com o diplomata, o arquiteto francês e a arquiteta brasileira. O autor é um professor universitário deprimido que encontrou um esboço de conto de uma arquiteta brasiliense de nome espanhol, sobre um diplomata brasileiro e um arquiteto francês, na gaveta do armário do quarto do apartamento para o qual se mudou. Ele apaixona-se pela autora e resolve transformá-la, então, na protagonista de um romance que decide escrever. Descobre-se, depois, que o autor é um dos personagens da história, um filósofo que resolve sabotar a relação entre o diplomata e a arquiteta, por meio de cartas escritas a um arquiteto francês admirador de Niemeyer, sob o pseudônimo de um professor universitário. O romance torna-se, no meio da história, epistolar. Mas o diplomata consegue fugir da história escrita por este filósofo, agora transformado em personagem, cujo único trabalho conhecido foi uma tese sobre o fim da utopia modernista por meio da análise de projetos de arquitetura para edifícios a serem construídos em Paris, por meio dos quais Sarkozy busca superar Napoleão III. O diplomata, no entanto, decide não reescrever o esboço de seu romance após seu manuscrito desaparecer no processo de sua remoção para Praga. Fim da história.
Ou, talvez, continua-se com um novo autor, engenheiro em Roterdã que encontra, num navio cheio de contêineres destinados à Europa do Leste, manuscritos em uma língua que não entende. Descobre tratar-se de português e resolve contratar uma brasileira, arquiteta modernista de nome espanhol, para traduzir os escritos para ele. No entanto, um arquiteto francês e um diplomata brasileiro, amigos de longa data de Paris e atualmente radicados em Amsterdã...
E assim indefinidamente.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Saiba
- Catarina, minha filha, apesar de você ser só uma menina, tenha dó do seu pai e saiba que não se pode repetir tudo que se ouve por aí. Nada de pudo, mido, pido, despido e impido, cabo, fisso e outras coisas que eu não digo. Não quero saber de nada disso. Soo não soa nada bem e me faz até suar. Fale meço, eu te peço. Ouvo dá dor de ouvido. Fale acodo e será um deus me acuda. Esse mundo está lotado de poluição e violência, televisão, gente sem vivência, barulho, burrice, caretice e comida com prazo de validade vencido. Não vá se perder por aí. Olha, sua mãe já deve ter chegado. Querida, fomos no centro. Preferi fazer compras do que manter o combinado. Fica tranqüila, eu já truxe elas pra dentro. Ouviu bem, Catarina, entendeu tudo?
- De novo, papai, de novo.

