quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma história equivocada

Não poderia mais haver dúvidas de que Sara estava grávida. Mal rompia o dia, ela acordava mais uma vez enjoada, depois de outra noite com sonhos intranquilos. Há alguns dias, já não pensava em nada além disso. Se houvesse alguém em casa com quem conversar, talvez pudesse esquecer e voltar a viver sua vida, ter assuntos variados como toda a gente. Não era o caso. Não desse dia.

Sara sai da cama preocupada, passa pelo corredor e decide tomar um banho. Há algum tempo, passou a reparar minuciosamente em todas as mudanças que seu corpo tinha sofrido nos últimos três meses. Ao tirar a roupa, verifica novamente em sua nudez que os mamilos estão definitivamente mais escuros e largos do que antes. Apalpa-os. Gostava de sentir seus seios macios contra seus dedos, especialmente enquanto se ensaboava, mas agora sente um pouco de dor quando os aperta com um pouco mais de força. Durante a ducha quente, perde-se uma vez mais em seus pensamentos e torce para que a água leve tudo embora, para que seus devaneios e fixações possam descer com a sujeira pelo ralo. Depois de desligar a ducha, ela sai do box, usa o vaso sanitário para urinar pela segunda vez desde que se deitou na noite anterior e parte para a cozinha, na outra extremidade do corredor.

Abre a geladeira e entrevê a comida deixada pela empregada no dia anterior, que lhe causa um embrulho súbito no estômago. Abre o congelador e acaba optando pelo sorvete que havia comprado na última noite, sem saber por que - não costumava comer doce, inclusive sorvete, desde os dez anos de idade, mais ou menos. Era evidente, não era? Só uma idiota como ela poderia levar tanto tempo para constatar o óbvio. Uma covarde. Só uma panaca completa poderia acreditar que aquelas pequenas manchas de sangue que apareceram irregularmente nos últimos três meses eram iguais às que sempre via desde que tinha onze anos. Três meses. Precisava conversar com alguém.

Eis que o telefone toca. Ela tem certeza de que é Ivan e que vai chorar ao telefone sem razão, mas atende e ouve a voz da mãe. Está tudo bem, sim. Não, não. Vou ficar por aqui hoje. Tenho que terminar alguns expedientes. Claro que sinto saudades de você, mãe, é que ando muito ocupada. Não estou estranha. Está tudo bem entre Ivan e eu, você sempre pergunta isso. Isso e, claro, se eu estou grávida. Se estou? Não, não estou, mãe. Sempre que tinha alterações súbitas de humor ou ia muito ao banheiro, sua mãe oferecia aquele olhar de quem procura enxergar a verdade no fundo dos meus olhos. Se sua mãe fizesse isso hoje, ela certamente se entregaria. Melhor ler um livro, tomar um café, fumar um cigarro. Mentira. Ela não era capaz de concentrar-se em livro algum, tem sentido asco do gosto de café e não tinha a audácia de fumar um cigarro fazia três semanas. Queria o colo da mãe, contar tudo e esperar que ela a consolasse enquanto acariciava seus cabelos longos e castanhos.

Ela liga o computador e comprova que a internet está infestada de páginas que evidenciam, sem nenhum espaço para dúvidas, que Sara está grávida. Algumas parecem ter o seu nome escrito no título, acima dos textos com os sintomas que a faziam sentir como a grávida mais típica que o mundo já conseguiu produzir, um verdadeiro clichê com barriga e pernas doloridas, pronta para irromper na aula de educação sexual da sétima série com olheiras profundíssimas para repreender adolescentes que não utilizam métodos contraceptivos. Como podia ter deixado isso acontecer? Não se lembrava de tomar pílulas todo dia. Droga de aula de educação sexual. Não serviu para nada. Merda.

Por que ela não contava a Ivan? Viviam juntos e eram cordiais um com o outro. Costumavam trocar suas impressões dos respectivos empregos, trocavam confidências e gargalhavam contando anedotas das pessoas que adoravam detestar. Ela o ama e ele a ama. Não consegue pensar na sua vida sem ele. Quanto tempo fazia já que estavam juntos? Quatro anos e oito, quase nove meses. Moravam juntos há um ano e três meses. Seus pais tiveram a Julia com um ano e meio de casados. Por todas as convenções, nada havia de condenável. Ivan vai ficar feliz, não vai? Ele certamente sorriria, diria “estou tão feliz, meu amor”. Com algumas exclamações. E depois o que? Não sabia. Ou talvez dissesse “acho que não era o momento”.  Lhe contaria um segredo. Aquele que jamais teve coragem de revelar. Ia contar o motivo da distância cada vez maior, que se sentia nas conversas cada vez mais monótonas e formalizadas. Nos silêncios cada vez mais longos. Ela não sabia dizer se aqueles silêncios eram um sinal de mais intimidade ou de distanciamento, e concluía que não sabia nada da vida. Ele certamente vai dizer “não estou feliz com você” e vai procurar o endereço de uma clínica de aborto e propor que depois disso devemos nos separar. Vai falar que se sente sozinho. Que “nós não somos mais o que costumávamos ser”. Que ela mudou muito. Ela mudou muito? Ficou velha, seu corpo não é mais tão bonito como quando se conheceram. Ela se divertia andando nua no quarto para que ele a olhasse e pensasse: “ela é linda”. Agora, prefere usar um pijama velho à noite. É cruel saber que ele já não gosta mais tanto do seu corpo quanto gostava no início. Afinal, ele a conheceu quando ela estava no auge de sua autoconfiança, quando via que outros queriam arrancar a sua roupa e vê-la assim pelada pelo quarto como ele sempre podia. Agora coloca roupas para perambular pelo apartamento. Queria ser jovem de novo e era cada dia mais velha.

Ele está sempre viajando a trabalho, sempre longe dela. Quando se conheceram, pensava que ia romper porque não conseguia ficar tão junto quanto ele tinha vontade. Ele queria casar, queria ter filhos, queria já ter netos se pudesse fazê-lo. Era tão seguro das decisões que ela talvez tivesse se casado porque ele tinha tanta certeza que dava para os dois. Ela tinha medo da rotina e depois odiou a rotina que de fato surgiu. Sentiu-se vítima de uma armadilha social. Tinha se casado cedo demais. Tinha vontade de fugir. Provavelmente Ivan, também. Mas ela não queria que ele fugisse. Ele é bonito, é inteligente, é charmoso. Muitas mulheres o cobiçam. Ela ia perde-lo, com certeza. Em contrapartida, às vezes sentia apenas um tédio enorme em sua companhia. Ela não sabe o que quer. Ela odeia não saber o que quer. Ela é uma coitada na vida. Uma imatura. Um caso perdido.

Mas um filho podia mudar tudo isso. Ia ser o fim da rotina. Ele vai parar de viajar a trabalho e vai dizer ao chefe “não posso sair tanto, tenho que cuidar da minha mulher, que está grávida”. E nossas conversas tomarão um novo rumo. Vamos ler livros sobre gravidez e sobre criação de filhos, ele vai admirar cada vez mais meu corpo e suas alterações, todo mundo vai (minha mãe, como vai me idolatrar, e meu pai, quando eu anunciar minha nova condição, os dois sorrirão em estado de graça admirando a minha barriga!). Ela termina de tomar duas taças de sorvete, volta pelo corredor de paredes brancas até o escritório, e tenta imaginar aquele cômodo com a parede azul, ou talvez rosa, coberta de papel de parede ou de adesivos espirituosos para crianças. Como ele - ou ela - vai ser feliz. Não precisam pedir dinheiro emprestado para dar-lhe uma ótima educação. Ela vai ter brinquedos, vai ser a criança mais amada do mundo. Será muito mais alegre do que ela, mais inteligente do que ela, menos panaca do que ela, vai viajar, vai conhecer o mundo todo, vai falar dez línguas, vai tocar seis instrumentos, vai ser linda e vai sempre se lembrar da mãe onde quer que esteja, e vai telefonar sempre para saber como ela vai. E ela será a mãe mais orgulhosa do mundo. Terão uma vida inteira juntas pela frente. E tudo vai começar aqui, neste cômodo. Sara fantasia os brinquedos espalhados pelo chão, a boca de lábios tão vermelhos e macios pedindo chupeta, falando as primeiras palavras - e a primeira palavra será indefectivelmente “mãe”! -, as fraldas estocadas na área de serviço, os contos de fadas antes de dormir. Vai começar o período mais feliz e autêntico da sua vida.

O nascimento de uma criança (“da meu filha!”) é sempre um acontecimento especial. O mundo não será mais o mesmo, será renovado porque haverá um ser (“o meu filho!”) único, diferente de tudo o que a humanidade tinha visto até agora, e por isso é preciso que se deposite todas as esperanças nele. Sua vinda será uma bênção, mudará o mundo mesmo que imperceptivelmente, e a existência dela toda será virada de cabeça pra baixo, e ela vai ser a mãe mais abobalhada do mundo. Será alegre por ter a honra de cuidar de alguém, de colocar todas as suas forças por um ser frágil não poderá se proteger sozinho. Se depender dela, ninguém causará nenhum mal a esse anjinho. Deslumbrava-se pensando nele, ou nela, com dois meses, com seis meses, com dois anos, com dez anos, com quinze anos, com dezoito anos... e se extasiava.

No meio de seu idílio, que deve ter durado algumas horas, seu celular toca. Ela retorna ao quarto e vê o nome do contato piscando na tela: “Dentista”. Decide não atender. Todavia, a chamada tem um efeito perturbador sobre seu estado de espírito. Todas as imagens vividas até aquele momento, os planos para o futuro, o anjinho que acalantará sua alma, são destroçados por aquela chamada do “dentista”, nome que encobria a verdadeira identidade da pessoa no outro lado da linha.

Era André quem tinha acabado de ligar. Não restava mais sombra daquela noite fria, nove meses atrás, em que ela havia conhecido André e iniciado um caso com ele. Uma noite de solidão e desesperança do casamento que acabava no bistrô, sozinha, ao lado de uma mesa com outra pessoa igualmente só. Depois, os dois no carro dele. Os olhos fechados. Lábios úmidos com lábios ardentes que esperavam o beijo. Violento, prolongado, inevitável, desesperado. As mãos passando pelos cabelos, descendo para a cintura, para as pernas. Outras mãos próximas ao beijo, os olhos sempre fechados: uma tentativa cega de tocar o próprio beijo. De senti-lo mais. A respiração profunda e os suspiros desencontrados. E tudo tão frio lá fora. Suas mãos mais frias, ainda. O calor de dentro. A visão embaçada dentro do ambiente com vidros mais embaçados ainda. A petrificação daquele momento. Novos rostos no mesmo beijo. A infelicidade mútua provisoriamente esquecida. O império absoluto e precário do desejo. A ausência do tempo. O mundo inteiro dissolvido. O caos interno. O sonho acordado. A inteira falta de pensamento. A falta da linguagem, dos debates, das discussões. Somente fluidos, pulsações, circulação, carinhos. O estranhamento feliz de perceber que, apesar de achar que o amor estaria enterrado e longe de sua vida por muito tempo, ele voltava assim tão mais inesperadamente, subrepticiamente, do que jamais costumava agora permitir-se pensar. A constatação de que algo profundo emergia e criava algo que iria prolongar-se por muito e muito tempo. A convicção de que era certo, no tempo e no lugar em que inexoravelmente deveria ocorrer. A vontade de explicar o que se passava naquele momento dentro dela. A completa falta de palavras.

Então, em um momento que não consegue precisar, a ilusão se dissolve. Ela acorda do sonho e abre os olhos. A promessa da aventura e do renascimento de sua personalidade submerge com o tempo e com o aparecimento de uma nova rotina. Uma rotina, todavia, marcada por desentendimentos cada vez mais frequentes e por cenas de ciúmes cada vez mais intoleráveis. E os atos de vingança e de rancor que ela jamais pensara poder protagonizar. Aquilo foi tornando-se tão intenso e tão difícil de conter ou ocultar que o afastamento foi inevitável. O casamento de Sara tornou-se, inesperadamente, um refúgio da sua pretensa história de paixão. O contrário do que esperava quando conhecera André e vira nele o refúgio de seu casamento. O segredo perdera sua aura de beleza e adquirira a cor do aborrecimento. O que não impedia certas recaídas como a que o dentista tivera agora, ao ligar para seu celular, provavelmente após ter dormido com alguém para convencer-se de que não precisava dela e para se vingar do fato de que ela nunca considerara seriamente separar-se do marido. Ela própria escolhera uma vida de hipocrisia que prometia a redenção e que agora só inspirava-lhe medo e insegurança. Tinha pena de si mesma e de sua fraqueza. A segurança de Ivan a humilhara, lhe causara aversão ao longo do tempo. Talvez por isso tenha fugido para uma tola fantasia de uma história tórrida que não haviam trazido nenhuma revelação, mas somente a reincidência do seu espírito na busca de algo que ela mesma não sabia dizer o que era. Desejava que aquela sensação incessante de falta a abandonasse de vez, mas sabia, no fundo, que era improvável.

Seu último encontro com o “seu dentista” havia ocorrido há dois meses, e dele não se arrependia tanto. O problema havia sido aquele de exatamente três meses atrás. Era a mancha que pesava sobre todos os seus planos para o futuro. Por isso, ela tentava fugir dessas lembranças. E poderia perfeitamente ignorar André pelo resto de sua existência, e esperar até que aquilo se tornasse um sonho ruim, difícil até de recordar. Mas André podia descobrir sua condição e persegui-la, obrigá-la a revelar o seu segredo e despedaçar tudo o que tinha planejado. E, mesmo que não o fizesse, poderia ela viver com a noção de estar ocultando a verdade de todos (inclusive da própria criança inocente) e fingir que seu marido não criava o filho biológico de outro? E se o menino nascesse loiro como André? Se tivesse aqueles olhos carentes e verdes? Podia tentar mentir, claro, e as pessoas podiam naturalmente enxergar uma semelhança inexistente no rosto do neném com o de Ivan por mera sugestão. Mas iria ela suportar o peso? Iria passar o resto da vida com falsas virtudes estampadas no rosto? Viver uma vida que não era a sua?

Por outro lado, o bebê poderia ser de Ivan. Ela poderia fazer um exame de DNA às escondidas, roubando por exemplo um fio de cabelo do marido no travesseiro, e confirmar uma paternidade legítima. Neste caso, não teria peso de consciência e poderia retornar ao conto de fadas que vivia há pouco. Manter a vida da classe média e mediana que desprezava quando era universitária e que agora abraçava com todo o ser. Ansiava por acreditar, como todos aparentemente acreditavam, no casamento com filhos, no almoço em família e nas conversas sobre o cotidiano de cada um dos comensais. No beijo de boa noite antes de dormir. Quem sabe até nas orações, nas cantigas de ninar, nas reuniões à beira da piscina do quintal com vizinhos e parentes. Mas, para ela, aquilo tudo também era uma mentira. As certezas de Ivan, a segurança de Ivan, a arrogância de Ivan, implicavam para ela uma mente obtusa e um comportamento pusilânime. Como poderia criar um filho com alguém que não mais admirava e que respeitava apenas exteriormente?

Era claro que aquela criança não podia nascer senão depois de uma série de confrontações com que Sara não podia lidar. Caso contasse a verdade, seria repelida pelos que a estimavam, até, ou talvez principalmente, por sua própria família. E teria que criar o filho sozinha. Mesmo que a perdoassem, entendia que não queria estar presa o resto da vida nem com Ivan, nem com André. Ela detestava tudo aquilo, tinha repulsa de si mesma. Uma criança não podia nascer no meio disso, era desumano. Sara não podia conceber que se castigasse alguém inocente pelos seus próprios pecados.

Já era noite quando Sara imergia nestes sentimentos e soluçava no sofá da sala. Tinha pesquisado sobre clínicas clandestinas de aborto e lido as histórias mais horrendas. Além disso, para encontrar uma clínica e torcer pelo melhor, era preciso indagar suas amigas sobre o assunto. Em suma, era indispensável contar a verdade a alguém. E arriscar que a conversa se disseminasse. E, depois das fofocas e das intrigas, quem sabe morrer exangue no banheiro de algum hotel, depois de profanarem o seu útero e darem várias estocadas em seu filho com um pedaço infectado de metal. Expelir os restos do seu crime (do seu anjo) na banheira ou no vaso sanitário.

E depois viver como se nada tivesse acontecido. Continuar mentindo, como já mentia agora. Sob qualquer perspectiva, sofreria uma condenação. Não havia sido capaz de amar sinceramente ninguém, muito menos a si mesma. Escondera de todos e de si mesma os pensamentos mais verdadeiros, muitos dos quais eram os mais belos, e outros, os mais reprováveis, os mais escandalosos. Por dentro dela havia tanta podridão. E agora havia também um bebê que estava se alimentando do lixo que ela carregava em suas entranhas, que estava imundo, sufocando e agonizando dentro dela.

Recorda os sonhos que tem tido. Sonhou diversas vezes que estava em um gramado cheio de crianças, filhas dos adultos que estavam lá (que se alternavam entre amigos, primos, conhecidos ou desconhecidos), brincando em algum parque. Em um dado momento do sonho, descobria que aquelas crianças eram na verdade filhos dela, e se desesperava por estar sendo negligente e por sua ignorância de sua própria condição de mãe. O sonho daquela última noite havia sido distinto. Sonhara que amamentava um bebê e que de seu peito emanava veneno, e que portanto estava assassinando o próprio filho. Não obstante, não parava de amamentá-lo. Permanecia assim, tranquilamente. Por mais que sentisse pavor da ideia, não afastava o filho, que chupava o líquido avidamente, até o momento em que acordava subitamente imersa em suor e em culpa.

Sara, esgotada, dorme no sofá. A tristeza profunda muitas vezes é tão intensa que joga a pessoa na única coisa que pode reparar uma dor espiritual lancinante: o sono. Dormir provê o descanso que possibilita o seguimento da vida, que muitas vezes é insuportável. Ou não, porque neste caso Sara acordou, depois de meia-noite, chorando e soluçando ainda mais forte, sem saber da razão. Olha o relógio. Sente o ar abafado, não consegue respirar e irrompe para a sacada, como que asfixiada. Admira o céu limpo e estrelado. Em seguida, fica um longo tempo com a cabeça virada para o chão, quase que em transe, sem enxergar realmente nada. Quando foca o cimento da calçada, ocorre-lhe então que bastava tirar os pés do chão do apartamento e todo o peso de sua cabeça desapareceria, e ela teria paz. Fica um momento calculando a altura do oitavo andar, sondando se uma queda a mataria instantaneamente. Sobe no parapeito e permanece equilibrando-se por alguns minutos. Não consegue saltar. Suas pernas estão trêmulas. Sente vergonha de não conseguir sequer extinguir a sua dor. Chora de novo sobre o tapete. Caminha para a cozinha em busca de calmantes. Se não houvesse o suficiente para aniquilá-la, ao menos haveria para dormir por horas ou até dias. Puxa uma cadeira da mesa e arrasta-a para apoiar-se e inspecionar as portas do armário.

Então, entre as canecas de chá, encontra uma faca de cortar carne que a empregada havia deixado ali. Tudo adquire um aspecto de inevitabilidade. Parece que toda a sua vida sucedera de modo que chegasse este momento. Não havia mais dúvidas sobre o que fazer. Sara tenta segurar a faca com firmeza, apesar da agitação de seu corpo. Não consegue sequer descer da cadeira onde se apoiou para examinar as prateleiras.  Tem que ser ali mesmo.

Por um brevíssimo momento, Sara tem a sensação de que aquilo não passava de uma crise, pensa em largar a faca e deixá-la cair no chão. Mas ela havia levado uma vida de irresoluções e a oportunidade de redimir-se estava agora em suas mãos. Examina a barriga e posiciona sua ponta na parte inferior do seu ventre. Permite-se um tempo para parar de soluçar. Depois, penetra lentamente a faca, até traspassar completamente o útero e dar o golpe de misericórdia ao inocente que finalmente expiraria dentro de seu organismo seco e inóspito.

Sara sente tonturas, perde o equilíbrio, cai da cadeira e tomba sobre o piso. Somente agora, com a queda, sente dor. Com o corpo todo em frenesi, consegue retirar a faca e supõe enxergar a saída de litros de líquido amniótico com o filho lambuzado, mas o chão vai se cobrindo apenas de um líquido vermelho escuro. Ela escuta um choro de neném, tenta mover-se para niná-lo mas não consegue e, então, suspira pela última vez.

Dias depois, a autópsia do corpo de Sara revela um útero inutilmente perfurado - e completamente vazio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre Andrei, uma casca de banana e um inquérito policial

- Por favor, vocês têm que me ajudar a encontrar meu irmão. Sinto tantas saudades dele. É um menino muito bom. Ele não é doente, ele não é louco. Eu juro. Não está bem, só isso, está um pouco perdido. Eu sei que ele não quis desaparecer. E eu tenho medo, ele não tem condições de ficar tanto tempo sozinho. Alguém pode ter se aproveitado dele. Ele é muito jovem. Ai, meu deus. Tudo bem, tudo bem. Eu vou contar mais ou menos o que aconteceu. Foi uma fatalidade, quer dizer, foi só um acaso. Acho que tudo começou com uma discussão em sala de aula que a diretora depois transmitiu aos nossos pais. Não. Pensando bem, acho que tudo começou um pouco antes. Sim, sim. Me desculpe, é difícil para mim. A diretora chegou um dia na casa dos meus pais e perguntou se meu irmão estava doente. Não, me confundi de novo. Desculpe. Eu ia contar a conversa que tive com ele antes disso. Foi o seguinte: ele me contou que tivera uma estranha e forte sensação pouco depois do almoço. Ele estava andando pela rua quando, de repente, pisou numa casca de banana e por pouco não se espatifou no chão. Disse que, primeiramente, quase morreu de rir da situação. Onde já se viu, na vida real, alguém escorregar numa casca de banana? Isso era coisa de desenho animado, de cartum barato de jornal, de programas de televisão ruins no sábado à noite. E foi então que ele fez uma observação que me intrigou. Agora, depois de tudo o que ocorreu, as coisas se encaixam. Disse que, na sequência, começou a se perguntar se ele não era um personagem de alguma história. Primeiro, começou a imaginar que as inúmeras câmeras de circuito interno na rua poderiam ser, na verdade, uma simples desculpa para que o filmassem continuamente para algum programa de entretenimento para pessoas mais sábias e menos ingênuas do que ele. Mas logo desistiu dessa ideia, depois de perceber que ninguém o olhava de soslaio, que não havia câmeras que o seguiam. Em outras palavras, o mundo era indiferente a ele, e o pensamento que havia tido logo o envergonhou, por ter tido a ingenuidade de se achar especial quando, na verdade, não passava de mais um dos bilhões de habitantes deste mundo. Ele disse, pelo menos, que valeu a risada e que nunca se esqueceria da sensação de ser um personagem de ficção. Disse ainda que sentiu um calafrio quando pensou nisso. Agora, sinceramente, acho que foi bem aí, foi aquela casca de banana jogada por um idiota sem educação, que tem coragem de jogar lixo no meio da rua que fez o meu irmão se perder. As pessoas podiam ter mais noção do que fazem. Há alguns dias atrás, quase pisei sem querer numa barata no meio da calçada, de tantas infestações na rua hoje em dia. E ninguém tem consciência das consequências que isso pode acarretar. Logo os chineses vão começar a catar baratas nas ruas da nossa cidade para cozinharem o jantar. Que nojo.

- Nem sabia que ele era de família rica. Conheci ele na rua. Achei estranho um menino de rua tão branquinho, com rostinho tão saudável, barba rala, morando na rua. Achei que era drogado fugido de casa ou abandonado pela família. Mais um perdido pro crack. Depois descobri que não. Ele ficava morrendo de medo de alguém conhecê-lo, ficava perguntando o tempo todo se as pessoas eram enviados dele. Dele, quem? Do pai? Acho que nem ele sabia responder. Depois que conversava mais, se acalmava. Falava que tinha tido uma revelação. Era gente boa. Isso de ser iluminado, de ter revelação, esse tipo de coisa nem me chamou a atenção, eu tenho muitos conhecidos da rua que falam que são iluminados, que compreendem tudo e que a gente não sabe de nada, que não tem condição de compreender. Mas estão morando na rua que nem eu. Mas, como eu disse, ele nunca ficava no mesmo lugar. Perambulava pela cidade inteira, deve ter passado por todos os bairros que existem aqui. Esse medo dele era mesmo muito forte. Acho que, nessa altura, já deve ter pego um ônibus e deve estar bem longe daqui. Ele tinha uns olhos brilhantes. Morador de rua, em geral, costuma ter os olhos bem perdidos. Ele, não. Ele tinha uns olhos diferentes.

- Sempre soube que esse menino ia se perder. Sempre o achei meio sinistro. Especialmente depois da minha conversa com a sua professora de história. Eu não vi a discussão, mas me senti obrigada a reportar isso aos pais do garoto. Hoje em dia, com esses massacres que a gente vê nas escolas pela televisão, que ficaram tão comuns em outros países, eu me sinto na obrigação de verificar como estão todos os alunos. A nossa escola se preocupa com o bem estar de todos. Eis o ocorrido: a professora de história estava discorrendo sobre religiões e decidiu perguntar, como mote para a aula, a religião dos integrantes da classe. As respostas dos alunos não tinham nada de fora do comum, ela disse. Depois, questionou se havia alguém que não acreditava em deus ou que era agnóstico, e dois estudantes se manifestaram nessa posição. Acho estranho haver jovens assim hoje em dia, mas todos são livres para escolher, especialmente na nossa escola, que é muito liberal, mesmo que isso possa implicar algo ruim depois da vida deles. Pois justamente o Andrei não se enquadrava em nenhuma das perguntas, tinha sido o único a não levantar o dedo em nenhuma das questões. Ela, então, decidiu perguntá-lo que crença professava. Ele respondeu que não acreditava em deus algum, nem que deixava de acreditar. Achava que o problema maior era se nós éramos manipulados. A professora passou a discorrer algo sobre manipulação dos meios de comunicação, mas ele a interrompeu dizendo que não era a isso que se referia. Ele queria saber se nós éramos manipulados por algo acima de nós. Perguntou o que era exatamente destino. Acrescentou que tinha horror a frases como “tudo acontece por uma razão”, “tudo tem um sentido maior”, que nós não estávamos aqui à toa. A aula se perdeu por aí, provavelmente, com todos discutindo ao mesmo tempo se estávamos aqui por acidente ou se havia uma razão por trás de tudo. O debate havia sido arruinado. A professora me contou que o achava interessante, inteligente. Diferente!, ela disse. Eu achei melhor conversar com os pais dele para perguntar se ele estava agindo normalmente fora da escola. Você sabe, esses massacres. Eu me preocupo, eu tenho que me preocupar. Os pais andam processando as escolas, os professores, até mesmo os zeladores. Se a gente toma medidas disciplinares contra os jovens, também entram na justiça pedindo danos morais. Se eles se dispersam, se reprovam em alguma matéria, transferem-no imediatamente para outra escola. E também nos processam, nos denunciam, nos caluniam na internet. Assim, não vejo outra opção a não ser conversar com eles sobre os filhos, antes que venham em cima de nós. Tem pai que nem sabe direito o último corte de cabelo do filho. Os dele até que sabiam, mas não educaram direito. Agora sumiu, quer dizer, ninguém sabe onde está!

- Ele me deu uma dica que mudou minha vida. Eu pedia dinheiro na rua, não conseguia arrumar emprego. Já viu, sargento, com esse meu lábio estragado aqui ninguém quer me empregar. Também não tenho estudo. Pedia esmola na rua e o que eu ganhava quase não dava para comer. Dormia na praça ali no centro, que foi o lugar onde conheci o rapaz. Ao ver meu estado, me deu umas roupas limpas e disse que eu tinha que pedir dinheiro com roupas que me fizessem parecer gente fina e rica, sabe. E eu pensei e falei pra ele: porque iam dar dinheiro para alguém que já parece ter dinheiro, que coisa mais maluca! Ele me respondeu que a lógica era essa, que as pessoas costumam dar dinheiro para pessoas parecidas com ela, do mesmo grupo. Quem pode dar dinheiro tem dinheiro, então tem que parecer que tem dinheiro pra poder ganhar dinheiro deles. Ele me mostrou como era. Durante uma semana, eu  acompanhava ele em semáforos espalhados pela cidade. Ele enchia o cabelo de tinta e de farinha, dizia que precisava de dinheiro por causa de um trote dos calouros da faculdade. E ganhava muito! Fazia mais em uma hora do que eu fazia em um mês! Todo mundo dava dinheiro pensando que ele era um playboyzinho que tinha que arrecadar dinheiro pra pegar suas roupas de volta na universidade com os veteranos. Como eu sou mais velho, passei a vestir uma camisa limpa e ajeitada, uma calça bem passada e dizia que tinham roubado minha carteira e que eu precisava de dinheiro pra tomar um táxi de volta pra casa. Rapaz, comecei a ganhar notas de 20 pra cima. E eu quase nunca ganhava nem moeda de 1! Hoje alugo uma casinha que é uma beleza, e compro muitas roupas ajeitadas pra continuar. Tenho pena dos pedintes normais, que usam uns farrapos de dar dó e ficam o dia todo implorando por umas míseras moedinhas de centavos. Eles não sabem que gente que necessita de verdade não ganha dinheiro por questões ideológicas do povo que tem dinheiro sobrando. Mas isso eu não espalho. O segredo é a alma do meu negócio. Até vou fazer plástica na boca e, espero, ter ainda mais sucesso.

- Sei que outras pessoas devem me julgar mal, mas sempre foi enriquecedor dar aulas ao Andrei. Suponho que a diretora já tenha mencionado o episódio das religiões na aula, já que, da maneira mais inesperada, meu relato a levou a chamar os pais dele ao colégio para esclarecimentos, encontro do qual eu tive que participar. Naquela ocasião, eu já pensava que estavam preocupados por motivos equivocados. A questão central daquela conversa não era se Andrei acreditava em Deus ou se essa eventual dúvida na sua cabeça significava algum estado de espírito depressivo ou, quem sabe, perigoso. O que me chamou a atenção foi que ele manifestou repulsa à ideia de que as pessoas não vivem à toa, que exista um sentido, um propósito maior para tudo isso que chamamos de vida ou de história. Isso eu nunca tinha visto antes em sala de aula. Enfim, notei que ele mudou muito naquele período. Tornou-se mais disperso, olhava para o lado o tempo todo. Para evitar que piorasse seu rendimento, pensei em chamá-lo para conversar durante um recreio, mas deixei isso para lá e agora me arrependo de não ter feito isso. O fato de Andrei ter tomado conhecimento da ida dos pais à escola deve ter precipitado ainda mais suas atitudes posteriores.

- Can you translate that? Oh, you speak English. Yes, he applied for a visa. He was under age, so we told him to ask his parents to sign the forms he had filled in, but he never showed up again. I was told he went to other Embassies as well. That is all am aware of, all I can testify.

- Meus pais vão saber disso? Não? Vocês prometem? Tá bem. Pô, eu matei umas aulas e cheguei a conversar com ele algumas vezes naquele boteco de sinuca da esquina da escola. Ele era até bom de sinuca, mas eu era mais bem treinado. Um dia ele veio com um papo de que estava cansado de aulas e tudo isso, que não queria ser mais como todo mundo. Eu penso a mesma coisa, tá ligado. Esse negócio de ir pra escola, depois trabalhar, casar, ter filhos, netos, só pensar em dinheiro, essa merda toda, não tem nada a ver. Todo mundo igual, todo mundo padronizado. Eu sou diferente, sou original. Sou mais eu. Pior que isso só ser policial pra vigiar se tá todo mundo se comportando direitinho, segundo as regras, tá ligado, sem querer ofender, no maior respeito. Ele disse que ia fugir da própria vida. Achei um papo suicida, daí troquei uma ideia com ele e vi que ele não queria se matar. A gente jogava sinuca, sei lá, eu me lembro disso. Estava tocando Placebo, tinha tudo a ver. Enfim, sei lá. Acho que ele fumava maconha, tá ligado. Eu nunca fumei, nem sei como é.

- Um dia, chegamos em casa. O quarto dele estava praticamente igual. Achávamos que ele tinha saído de casa para ver a namorada. Ele era muito apaixonado. Posteriormente, notamos que ele não voltava, e decidimos ligar para a casa dela. Ela tampouco sabia de nada. Depois de algumas horas ligando para alguns amigos, parentes, sem notícias, nos desesperamos e entramos em contato com vocês, para nos ajudarem. Já faz meses que ele sumiu. Eu não aguento mais isso, eu não entendo como foi acontecer. Eu não entendo, não entendo, de verdade. Ele sempre foi amado pela família. Demos de tudo o que ele podia precisar.

- Ele me disse que não sabia mais se me amava para sempre. Começou a me dizer que não gostava de pensar que tinha nascido para mim. Eu achava que tinha nascido para ele. De verdade. E disse isso a ele e chorava quando ele dizia que ele não tinha nascido para mim. Era tão cruel, eu achava que ele dizia isso de maldade ou só para me testar. Eu acho isso, ainda, que nós estamos predestinados. Eu sinto isso. Sinto que ele se lembra de mim. Mulher sente essas coisas. Mas não sei se vou esperar para sempre.

- Alucinação. Alucinação completa. Ele dizia que a vida o perseguia. Quero dizer, que tipo de conversa é essa? Ele disse que havia um plano de fazer com que todo mundo fosse um personagem de uma história que era escrita, ou pensada, ou imaginada, ou tramada, ou era assistida, sei lá, por alguém e da qual ninguém conseguia escapar. E que ele sentia que algo mais forte do que ele o forçava a voltar a viver a vida de sempre, mas que ele tinha consciência disso e que ia fugir. Que nada na vida dele seria imutável, que nada estava assentado. Que ele era livre, que ele era o autor da vida dele. Se você perguntasse o nome dele, ele alucinava. Começaram a chamá-lo de Noia. Mas, para te falar a verdade, ele não agia tanto como louco. Era só essa ideia fixa que ele tinha. Era uma coisa arraigada bem no fundo dele. Teve um papo de casca de banana, mas não me lembro direito disso. A gente riu muito. A filosofia da banana! Estudava em escola cara, parecia sabido. Mas era bem pirado, sempre preocupado com a possibilidade de alguém estar espiando. Sim, tinha algo a ver com possibilidades, com sorte. Que azar ele teve. Tem lanche aqui? Estou com fome.

- Todo dia a gente conversava até tarde, antes de ele voltar para a casa dele. Ele me deixou um presente pouco antes de sumir, um colar com o símbolo do infinito.

- Andrei? Ele tinha documentos com outro nome, mas a foto confere. Tinha cabelo meio desgrenhado, dizia que iria viajar durante um tempo. Que só voltaria quando tivesse certeza de que tinha realmente escolhido tudo o que tinha acontecido a ele. Era bastante articulado. Impossível cogitar que tivesse fugido de casa ou fosse dado como louco. Eu gostei muito dele, mas nem endereço de e-mail me passou. Fiquei apaixonado, mas ele alegou que só era gay aquela noite, que depois era outra coisa. Fiquei triste. Mas foi sincero. Eu sempre admirei a sinceridade. Ele queria morar numa cidade bem diferente. De preferência, um país diferente. Disse que estava buscando o outro. Não entendi, daí ele me disse que não acreditava na busca de si, que era apenas mais uma prisão. Ele ia buscar o outro. Foi um acontecimento. Ele tinha esses olhos brilhantes e sinceros.  

- Não sei o nome, mas é esse mesmo da foto. Conversamos no bar. Acho que era líder de uma seita na cidade vizinha. Tenho certeza de que foi ele quem roubou minha carteira aquele dia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Asfixilia: modo de usar


Minha relação com objetos como cintos e sacos plásticos nunca foi parecida com a de outras pessoas. Devo dizer que minha peculiaridade começou antes de eu ter acesso a estes perigosos instrumentos. Iniciei minhas atividades com as infinitas possibilidades das mãos. Não, não. Para regredir ainda mais, acho que minha condição foi determinada já durante o parto. Posso dizer que nasci assim.

Agora que estou ofegando novamente no hospital, por ocasião bem diversa, vêm-me à mente diversos momentos disparatados de minha vida.

Eu quase morri quando estava saindo do ventre de minha mãe. Houve um problema pouco antes de eu irromper no mundo e, por alguns momentos, fiquei sem respirar. Foram poucos segundos, mas o suficiente para alarmar os médicos e desesperar minha mãe. Eu parei no meio do caminho, não conseguiam tirar-me de lá e foi exatamente neste momento que o ar parou de entrar em meus pulmões. Me expulsaram com força e conseguiram reviver-me. Logo depois de receber os tapas procedimentais do médico em posição vertical e o beijo amoroso de minha genitora, fui colocado na UTI e, da forma mais torturante, metido dentro de uma incômoda estufa de oxigênio.

Às vezes penso que aquela parada acidental não foi um mero acidente.

Por conta deste percalço, fui tratado com enorme cuidado e o máximo de carinho que meus pais eram capazes de dar. Eu era um milagre, uma dádiva. Era perceptível que vivia o melhor dos mundos quando me comparava ao tratamento das outras crianças do meu bairro, com menos brinquedos e menos atenção.

A vida, porém, não é perfeita, e meus pais foram obrigados, em certo momento, a colocar-me sob os cuidados de uma babá. Ela não me considerava um milagre ou dádiva alguma. No entanto, eu já me havia acostumado àquela vida, visto que era a única que eu conhecia. Minha preceptora havia tido uma vida bem diferente, e eu não a culpo por isso. Foi por conta de encontros fortuitos como este que meu destino foi sendo progressivamente traçado.

Estava brincando com um de meus inúmeros bonecos do exército e joguei alguns deles na direção da janela, simulando uma explosão que definiria o lado vencedor daquela carnificina. Um deles bateu numa jarra cheia de leite sobre a cômoda que, por sua vez, caiu sobre a cama e verteu seu conteúdo também sobre o carpete. Eu sequer dei atenção ao fato e continuei brincando, agora utilizando o leite como leito de um rio onde os mortos esquartejados jaziam. Foi quando a babá entrou e viu o espetáculo.

Ela me repreendeu e começou a limpar, enquanto eu logo voltava a sorrir entretido com a brincadeira. Neste momento, algo dentro dela partiu. Provavelmente, pensou que eu estava rindo dela ou, na melhor das hipóteses, que eu era indiferente ao trabalho que lhe dava diariamente. Foi a gota d’água, a última gota de leite derramado que iria suportar calada. Diante da minha gargalhada com outra explosão sanguinária, resolveu acabar com ela apertando meu pescoço até que eu lhe implorasse para soltar. Ah, se eu pudesse explicar o que senti naquele momento! No entanto, poucos são os bem-aventurados capazes de compreender.

Eu não pedi desculpas. Em vez do que minha benfeitora esperava, eu a olhei fixamente. Profundamente. Ela então cedeu e logo percebi o estranhamento no fundo de seus olhos. Acho que ela também viu algo no fundo dos meus, e teve medo.

Depois daquele episódio, passei a provocá-la de todas as maneiras possíveis. Ela, todavia, nunca mais encostou a mão em mim. Pouco depois foi embora e nunca mais voltou a minha casa. Não me recordo mais se foi demitida pelos meus pais, diante das claras evidências de que eu me tornara mais endemoninhado, ou se ela se demitiu, por não suportar mais os meus jogos infantis.

Desenvolvi uma obsessão, que perdurou por toda a minha adolescência, por mulheres que tinham mãos com dedos longos. Aliás, nunca entendi como podiam estranhar meu fetiche, diante da imensidão de homens com sua insólita devoção aos pés ou aos quadris. Em minha modesta opinião, não há sequer comparação. Mãos são muito mais atraentes do que pés. Portanto, nunca levei a sério que minhas confissões sobre meu grande objeto de desejo fossem recebidas com estranhamento, enquanto os outros esperavam que eu recebesse suas confissões com naturalidade.

Depois de muitas buscas em vão e muitos relacionamentos insignificantes, namorei finalmente uma mulher com dedos longos e fortes, capazes de circunscrever diâmetros consideráveis. Após alguns contatos anódinos, tomei coragem para pedir-lhe no meio do ato que me apertasse o pescoço. Meu pedido pegou-a desprevenida. Sua pele ficou pálida, ficou imóvel, não soube o que falar. Foi quando tomei a sua mão e lhe mostrei como fazer. Ela sorriu. Foi meu momento de glória.

Conheci a felicidade plena por dois anos, cinco meses e catorze dias. Eu andava por aí em estado de nirvana. Era como se tivesse fones de ouvido tocando eternamente a música celestial reservada somente aos anjos. Nada mais me importava. Irritava os outros com aquela cara de adolescente perdidamente apaixonado. Comia pouco. Dormia pouco. Era incapaz de me concentrar em qualquer coisa que não tivesse a ver com minha grande história de amor. Minhas notas na escola nunca foram tão medíocres, sendo que antes eu costumava estar entre os melhores estudantes. Meus pais chegaram a cogitar uma terapia. Embora eu lhes reiterasse constantemente minha alegria, eles temiam que minha enorme dependência tornasse uma eventual separação algo insuportável para mim. E foi.

Quando Beatriz foi embora para outra cidade, com outros homens e outros pescoços, levando o éden consigo, perdi a vontade de respirar. Cada dia parecia durar séculos. Perdi a vontade de sair da cama, de escovar os dentes ou tomar banho, tinha desgosto de sair à rua. Meus pais me colocaram em três terapias diferentes quando me viram perder peso como se tivesse uma doença grave e incurável. Afundei-me nos mais diversos remédios. Alguns com tarjas vermelhas e pretas, outros sem tarjas ou embalagens. Mas eu sabia que droga alguma me curaria daquela falta.  Uma parte de mim havia sido amputada. Sem aviso, sem anestesia, sem substituto possível.

Fui submetido a contínuas lavagens cerebrais e estomacais até conseguir tornar-me um ser humano ordinário, destes que se vê em cada esquina e que sorriem quando se conta uma piada.  Fui tomando fôlego, perdi a forte ansiedade e voltei à vida diária. Logo, conheci uma mulher maravilhosa, em cujas mãos sequer reparei, que me deu a paz de que eu precisava.

Mais tarde e bem menos miserável, já na faculdade de medicina e morando longe de meus pais, uma pesquisa sobre alguns tipos de distúrbios me levou a descobertas vitais. Estava na internet buscando o que havia de mais atual a respeito de algumas compulsões e, acidentalmente, reconheci-me de imediato no relato de um holandês traduzido para o francês. Perdi a respiração. Era como se o mundo se mostrasse subitamente de novo, como se as portas da felicidade se abrissem, depois de tantos anos de negação.

O que as pessoas buscam na arte, na ciência, nos entorpecentes e nas religiões, eu obtive isso tudo e muito mais em simples objetos presentes nas residências mais ordinárias. Não há lugar no mundo contemporâneo em que eu não tenha acesso ao paraíso. As visões inefáveis, as sinfonias de sensações, o êxtase antes reservado aos deuses em suas elevadas montanhas, tudo disponível com o simples uso de cordas comuns, cintos, sacos plásticos, gases ou até aparelhos mais sofisticados, disponíveis em casas especializadas.

Foi nos momentos de isolamento, longe de minha vida pública, em viagens clandestinas, que entendi o casamento de Eros com Tânatos, que tomei a coragem de viver uma vida no limite com vistas a atingir o clímax. Os aventureiros, os destemidos, os praticantes de esportes radicais não obtêm nada perto das emoções que tenho a chance de experimentar. Já tive as visões mais etéreas, já tomei o néctar e comi a ambrosia, fui a lugares que a quase nenhum homem foi dado conhecer.

Admito que é preciso coragem para abandonar o vício medíocre em oxigênio. Mas os benefícios do acúmulo de gás carbônico no cérebro são comprovadamente verificados e praticados desde pelo menos o século XVII. Muito antes da invenção do LSD e das anfetaminas. Os fumantes, os que tiram prazer em dirigir em avenidas movimentadas, os suicidas por enforcamento ou asfixia são para mim covardes que misturaram as coisas, que não conseguiram ir até o fim ou nunca tiveram a ideia óbvia de misturar seus prazeres com o que há de mais absoluto na vida das sensações, ou seja, o orgasmo.

Eu não estou sozinho. Meu amor ao prazer e ao perigo simultâneos é compartilhado provavelmente por milhões de semelhantes no mundo, muitos dos quais ainda temem seguir sua linha do destino. Não tenho a pretensão de esconder que muitos de nós já morremos por passar do limite numa atividade cuja natureza implica estar no limite. Estas mortes, porém, mesmo sendo milhares ao ano, muitas confundidas com suicídio, comprovam a nossa incontestável existência. Apesar disso, sou obrigado pela sociedade, da maneira mais cruel, a manter uma vida hipócrita.

Tenho família, tenho amigos, tenho emprego e uma vida mais do que respeitável. Sou, aliás, um conhecido psiquiatra e já salvei ou viabilizei inúmeras vidas. Os que me rodeiam têm apreço por mim. No entanto, é sozinho em quartos de hotel durante conferências médicas, enquanto me atraso ao próximo compromisso, em momentos de profunda solidão ou de encontros clandestinos, que sigo minha verdadeira vida, com arrebatamentos que quase ninguém sonhou em alcançar, a ponto de perder a consciência ou de não ter a mais remota ideia de quem sou. São minhas petites mortes.

O que os outros conhecem por minha vida é em realidade a minha mortificação, a minha condenação ao degredo, minha post-coital tristesse.

Ontem, com a visão enturvada por uma música com sons de uma pessoa enforcada, tive um acidente. Eu voltava de um lugar comprometedor e talvez seja obrigado a explicar o que estava fazendo. Ou talvez morra aqui mesmo, tal como nasci, torturado por um tubo de oxigênio.

Exijo a dignidade de sobreviver e contar a minha história.

Depois disso, caso eu morra realmente em busca do âmago do meu ser, sei que alguns terão vergonha de mim ou mesmo cuspam sobre meu caixão. Minha mulher e meus filhos sofrerão, embora sejam os que mais tentei proteger, em nome do amor que tenho por eles. Mas não me intimidarei diante das barreiras construídas pelos vulgares. Se posteriormente eu for encontrado com o rosto negro ou azulado numa luxuosa suíte de hotel europeu de cinco estrelas pendurado por um cinto de uma marca luxuosa e caríssima, ou quem sabe no quarto do bordel mais promíscuo da cidade mais sórdida com um saco plástico de padaria ao redor do meu rosto, meu último desejo é que tomem consciência das verdades escritas aqui e gravem na minha lápide o contrário do que reina na atmosfera asséptica dos ressentidos:

Vale a pena.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Coesão 2


Antes, lamentava por não ter dinheiro para comprar todos os livros que lia. Hoje, lamento por saber que compro mais livros do que tenho tempo para ler.

Antes, achava que a arte viria com a maturidade. Hoje, acho que o ímpeto se perdeu em algum momento de minha juventude.

No mundo das redes sociais, todos os homens exibem a felicidade, a força, a sabedoria, a beleza, a coragem, a atitude “cool” que têm diante do mundo. Até mesmo a intolerância é controlada, pois é preciso que o ódio seja ainda capaz de receber alguns apoios. A tristeza, a fragilidade, a ignorância, a feiúra, a hesitação, a vergonha, a caretice quase não existem lá. Quem dera as pessoas fossem de verdade como são no facebook!

Os parques das cidades estão abarrotados de pessoas pregadas em celulares e tabletes eletrônicos. Muitas tiram fotos e enviam notícias de sua diversão em tempo real. É preciso urgentemente levar essas pessoas para passear.

Vive-se uma ditadura da juventude. Nunca foi tão reiterada a afirmação sobre as vantagens de ser “jovem”. Nunca se falou tanto da necessidade de sempre estar em atividade, de “nunca parar”, “nunca desistir”. Nunca as indústrias de dieta, moda e cosméticos faturaram tanto. Nunca se ignorou tanto os mais velhos. Nunca a história foi tão ignorada e o presente, tão eterno. Nunca se meditou tão pouco sobre as fases da vida. Nunca se utilizaram tanto as palavras “frescor” e “novidade”, e suas contrapartes “ultrapassado” e “obsoleto”. Nunca se falou ou se refletiu tão pouco sobre a morte, não a morte dos outros (sempre tão comentada), mas a morte em si. 

Acordei de mal de mim. De novo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O homem da calçada

Um homem está parado na calçada, em pé, contemplando o vazio com uma expressão de desespero. Taciturno, tem o olhar perdido em direção a um ponto muito distante e inexistente.

Ao seu redor, inúmeras pessoas andam apressadamente em múltiplas direções. Alguns trombam com ele, que parece não ver e não sentir absolutamente nada.

Ele espera.

No meio do turbilhão, subitamente surge uma mulher que o fita demoradamente... e para. Para a quatro passos de distância dele.

Ele a vê.

Os dois permanecem assim, encarando-se por alguns minutos, que mais parecem horas, em meio à multidão e seu movimento incessante: entre gravatas, tailleurs, cachorros, jóias, carrinhos de bebê, bicicletas, pombos, luvas, maquiagens, sorvetes, jornais.

Ele se volta para ela.

Ela dá um passo à frente.

Ele dá um passo à frente.

Ela dá outro passo.

Ele, um mais.

Os dois agora estão com os narizes quase encostados, sondando-se fixamente.

Ambos encostam a fronte no ombro um do outro, fecham os olhos e se abraçam. Forte. Cada vez mais forte.

À medida que o abraço torna-se mais apertado e mais cúmplice, o som dos veículos, dos passos rápidos dos pedestres, do ritmo alucinante dos anúncios, das conversas, do vento, de tudo o que desnorteia na rua, enfim, vai diminuindo lentamente, cessando, até transformar-se em silêncio absoluto.

O movimento, em contraste, acelera-se. Os corpos dos dois são empurrados inadvertidamente pela multidão interminável da rua, que finalmente os faz espatifar no cimento da calçada.

Caídos no chão, ainda abraçados, protegem um ao outro. Os transeuntes pisam em seus pés, pernas, costelas, braços, cabelos, tropeçam em suas costas, em suas cabeças. Passam por cima da água entre os espaços dos ladrilhos.

Os dois conseguem, por fim, levantar-se.

Entreolham-se novamente, um frente ao outro, com ambas as mãos dadas.

Sorriem-se.

Um sujeito passa entre os dois e os obriga a soltar-se as mãos.

Ambos contemplam-se novamente, observam suas roupas sujas e amarrotadas, depois verificam a calçada onde estavam há pouco estirados.

O barulho da cidade, agora, é ensurdecedor.

Ela, então, deixa de sorrir, começa a ponderar algo e adquire uma feição séria. Ajeita o vestido e limpa a maquiagem borrada.

Ele a mira com olhar mendigo.

Ela responde: “eu não posso”.

Ele tenta encostar novamente sua mão na dela.

Ela repete: “eu não posso”.

Ele tenta abraçá-la.

Ela repele: “eu não posso”.

Ele volta os olhos à calçada.

Ela mira-o por um tempo, dá-lhe um beijo apressado na fronte e... some na multidão.

O homem fica parado na calçada, em pé, contemplando o vazio com uma expressão de desespero.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Início, meio e fim


H. está no meio de um parque olhando as pessoas tomando sol. Sentado em um banco, entre crianças brincando com babás e casais namorando, começa a escrever em seu caderno azul cheio de rabiscos que carrega dentro da mochila surrada e suja de terra:

“Minhas histórias não começam no meio, ou no fim, ou no início. Minhas histórias, ao contrário do que me ensinaram na escola, não têm início, meio e fim. Em outras palavras, não são histórias no sentido literal. A vida é cheia de histórias, mas nenhuma delas tem início, meio e fim, no sentido literal, porque o início, o meio e o fim sempre poderiam ser alterados. As histórias, os casos, os fatos, todos possuem um contexto que os circunda, ou seja, que poderiam ter começado antes ou terminado depois. E isso muda seu sentido. Por isso, cada um entende ou dá sentido às histórias da maneira que têm capacidade ou vontade para fazê-lo. As minhas, afinal, parecem sempre ter começado depois e terminado antes. Alguma mistura de preguiça, uma mania de episódios, de falas que chamam a atenção ou que ficam na minha cabeça e que as ditam. Isso pode ter a ver, quem sabe, com a minha história, que não sei qual é e que, por isso, não tem fim nem começo, pé nem cabeça.

As histórias estão na rua. Eu, que prefiro o papel, gosto mesmo de palavras, preto no branco, garranchos em cadernos, especialmente aqueles escritos às pressas ou fruto da imaginação de alguém que não sabe o que começou a escrever enquanto não termina. O fim é nada mais que o ponto em que alguém resolve parar de escrever, e isso é absolutamente aleatório. Como a morte. Como a vida. Começa do nada, termina assim sem mais nem menos. No meio, tentamos entender algo, o fio da meada, aquilo que mantém o leitor ali, desesperado para conhecer. Não há fio da meada, há somente a criação. Toda história é movida por algo mais fundo, que circunda o que se entenderá e o que não se poderá compreender. No fundo, bem no fundo, só há o desejo. O desejo que move a vida, que move a escrita, que move a leitura. E eu não sei exatamente o que eu desejo. Eu procuro. Eu procuro, somente. O quê?”.

Vem chegando V., um amigo, com seus cachecóis de sempre mesmo diante do sol. Seu estilo que tanto atrai a atenção, inclusive a de seus próximos. Abraço de amigos que se veem sempre.

- O dia está bonito.
- Queria te contar uma coisa. Uma coisa importante.
- Claro. Diga.
- De vez em quando eu fico pensando...
- Por favor, não venha com depressões hoje. Você pensando sempre dá em besteira! Eu, por exemplo, nunca vou querer ler nada do que você fica escrevendo aí nesse caderno. Não deve haver nada de aproveitável.
- Minha tese. Está me deixando maluco. Fico o dia todo em casa, lendo, escrevendo, não sei onde vai chegar. Acho que não vou conseguir terminar.
- Fica tranquilo, todo mundo que escreve tem essa mesma ideia, mas no final sempre dá certo.
- Não, o problema não é esse. Eu leio algo, e imediatamente depois esqueço o que li. Parece que não consigo me concentrar. Daí, digamos, eu consigo escrever, mas logo depois penso que talvez o que eu escreva não seja o que eu quero para mim, vou ficar preso nisso, numa tese que eu não sei se é verdadeira, por mais que eu consiga, quem sabe, defendê-la bem, e que depois vai me prender não só pela tese defendida como também pelo assunto que ela toca. É aterrorizador. Isso vai acabar definindo minha vida toda. Não sei se estou pronto para isso. Nunca consegui me prender a nada.
- Calma. Se você não quiser mais trabalhar com isso algum dia, você muda. Ninguém está preso a nada. O importante, agora, é terminar. Não fique pensando demais a longo prazo, porque aí não termina nada. Depois, ao menos, você consegue um emprego e consegue trabalhar na área.
- Aí é que está, “na área”. Sei lá se quero trabalhar nesta área!
- Você nunca trabalhou nessa área ou em área alguma e já está com medo? Você também gosta de complicar as coisas. Vou te arrumar um emprego lá no meu escritório como contínuo, e te garanto que você sempre vai mudar de área. Geográfica, topográfica, pelo menos. Nunca vai ficar na sua cadeira. Seu sonho realizado, mudar sempre de cadeira. Não na faculdade, mas na empresa, ao menos. Nenhum compromisso fixo, nenhum pensamento a longo prazo.
- Tudo seu é na brincadeira.
- Pois é exatamente por isso que sou seu melhor amigo. Sou o cara que te livra da sua própria loucura e dos seus problemas imaginários.
- É, isso é verdade. Eu sozinho consigo pensar na mesma coisa por dias a fio.
- Isso porque você acabou de dizer que não consegue se concentrar em nada por muito tempo.
- Só consigo me concentrar nisso, ou seja, na minha falta de concentração. Você entendeu o que eu quero dizer.
- Entender? Eu não entendo ninguém. Mas sempre respondo o que me perguntam.

Chega I., a namorada de V.

- Ois!

Beijo no rosto de H., beijo na boca de V.

- Soube de uma festa legal na casa de M.
- Vamos lá!
- Se eu for, não vou conseguir trabalhar mais hoje nem amanhã, por causa da ressaca.
- Pô, bebe menos que você consegue. Vai te ajudar a sair das suas paranoias e render mais amanhã.
- Vou ficar em casa.
- Você sempre com esse papo, né. Desde que fui apresentada a você, vi que essa sua barba malfeita era mais um indício de uma eterna dúvida interior do que de um estilo. Sempre aí, no meio termo, sem saber se se barbeia sempre ou se deixa crescer de vez. Vamos lá, dessa vez.
- Melhor não.
- Vamos tomar um café, então, que tal?
- Tá bem.
- Ótimo. Vamos lá.

Sentados no café na esquina do parque. Pedem três cafés para uma garçonete com cara de cansaço, mas muito simpática. V., então, declara:

- Enquanto o café não chega, vou ao banheiro. Me dá um beijo que eu vou sentir saudades.

Dá beijo em I, e sai.


- Eu tenho mais saudades de você, te vejo tão pouco.
- Como pode ser que eu goste tanto de você e dele?
- Somos iguais. É uma forma de amor torta que nos une assim.
- O amor deveria ser sincero, aberto, transparente.
- Há milhões de tipos de amor, e a nossa forma de amor é mais uma mistura confusa e inclassificável, mas que não deixa de ser amor. É uma pena e uma bênção que a vida seja maior e mais complicada do que as suas e as minhas ideias sobre ela.
- Eu não sei o que fazer.
- Simples. Não faça nada.

Pés se encostando embaixo da mesa. Pés depois distantes. O café tomado, as risadas, a sensação de contentamento, de estar à vontade.

Mais tarde, no mesmo caderno azul, com a mesma letra apressada:

“Não contei nada do que queria contar. O assunto muda e eu próprio não tenho coragem. E eu só queria perguntar se era errado dar um tempo. Viajar. Sumir para sempre (um pouco). Esperar o tempo passar para ventar em cima de tudo e, quando eu olhar de novo, estar diferente. Senão o mundo, ao menos eu. Nem isso consigo dizer. Preciso me afastar, pensar, pensar, longe de tudo. Ganhar perspectiva. É sempre isto, tudo parece  in-co-mu-ni-cá-vel”.

H. para de escrever e vai tomar banho para ir à festa com V. e I. Conversam, dançam e voltam de manhã para casa. Muitas gargalhadas. H. bebe demais, tem uma ressaca de querer se esconder num quarto escuro. Naquele domingo chuvoso, toma mil cafés, fuma um maço de cigarros e pensa que tem que mudar sua vida.

Na segunda-feira, acorda bem disposto e pensa que está atrasado em todos os prazos possíveis e imagináveis já estabelecidos para terminar sua tese. Passa o dia escrevendo alucinada e concentradamente na biblioteca da universidade, com breves pausas na lanchonete, onde encontra alguns colegas da turma de doutorado. O que havia passado nos dias anteriores era como um filme mudo antigo, com os letreiros passando depois do "the end".