segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ano Novo

Como prometido a D.


31.12.2011
Será hoje. Quando der meia-noite. Talvez pouco depois. Vou entrar no novo ano com estilo. Com roupas novas para a ocasião. Gastei um dinheiro que não poderia gastar, mas agora não importa. Há anos não me sentia tão bonito. E assim vou para o lugar perfeito, o lugar secreto que descobri. Finalmente estarei lá, e não poderia haver lugar melhor. Renovação completa. O sonho de todo ser humano. Tenho esta excelente sensação de antecipação, que sinceramente não esperava. Sou pessimista até no pessimismo. Já conversei com as pessoas que me importam: minha mãe, tio Anselmo, a Livia. Não há mais quase ninguém. Mas não tenho rancor. Disse que iria viajar no Réveillon. Fui sincero, afinal, realmente estava já quase tomando o ônibus quando pus o telefone no gancho. Já me sinto mais leve. Subo, subo, subo, vou flutuar. Esta noite será uma dança no ar. Flutuarei acelerando a 10 metros por segundo ao quadrado. É rápido. Estarei a 1500 quilômetros de onde moro. A 5000 km de onde nasci. Não trouxe absolutamente nada senão a roupa do corpo. Quase nenhum dinheiro. Vou para onde ninguém precisa de dinheiro. Não encontrarão meus pertences. Doei-os a pobres de outras cidades. Ah, o altruísmo de quem não tem nada a perder. Herança nunca foi doação. Não vale nada. Eu sei. Fui mesquinho. O resto joguei no lixo no meio do caminho. Sou livre. Agora sou livre. Nunca mais vão ouvir falar de mim. Sem tristeza. É impossível que achem meu corpo. Nunca vi lugar mais alto. Os peixes devoram o que sobra. Não haverá documentos, não haverá roupas reconhecíveis, minhas digitais estarão carcomidas pela água. Serei parte do mundo. Antes tarde que nunca. Me integrarei. Adeus, semanas inteiras sem pronunciar palavra. Adeus, coração partido e braços vazios. Adeus, lembranças dolorosas. Adeus, futuro perdido. Adeus. Ninguém sentirá minha falta. Muito menos eu.  Vou sair de mim.

03.01.2012
Não consigo parar de pensar nisso. Como pôde alguém ter exatamente a mesma ideia e resolver executá-la no mesmo lugar e na mesma hora? A imagem horrenda de um corpo em direção ao precipício, sumindo no nevoeiro. Sem ruído de queda. Ou talvez eu não estivesse em mim. Mas assisti a tudo. A tudo. Quando me aproximei, já era tarde demais. Talvez até tenha feito porque me viu. Não consegui ver seu rosto. Tinha o cabelo parecido ao meu. Tinha também roupas parecidas às minhas. Peças novas. Pulou antes de mim. E estragou meu próprio plano. Não consegui segui-lo. Preciso descobrir quem era. Não faz sentido, claro, não faz nenhum sentido. Eu também queria fugir anônimo. Mas as pessoas precisam saber. Eu preciso saber porque ele fez isso. Porque desistiu. Se se precipitou. Fui à delegacia e perguntei se havia registro de alguém desaparecido. Nada. Andei pela cidade, todos comemoravam o ano novo. E alguém havia morrido poucas horas antes. Andei atônito pela cidade. Um senhor me acolheu na casa dele quando me encontrou dormindo na praça. Não me lembro como fui parar lá. A noite mais longa e mais breve. Disse que iria pagar a estada. Fui fazer um bico num bar. Recebo em alguns dias. Enquanto isso, faço a investigação. Eu vou saber. Depois, aí sim, também me vou. Exatamente como ele.

12.03.2012
Ainda não consegui descobrir quem era. Lembrei-me que me olhou antes de pular. Me viu e, ainda assim (ou talvez por isso), se jogou. E riu. Acho que ele riu. Não sei dizer. Acho que sim. Talvez estivesse feliz por sua resolução. Talvez estivesse rindo de meu desconcerto. Agora é tarde demais. A Ângela me disse que registraram a ocorrência de um desaparecido. Não parece ser ele. Ela está desconfiando de eu puxar tanto papo perguntando se não há pessoas desaparecidas por aqui. Às vezes, pergunto também sobre objetos extraviados. Finjo que sou curioso. Um colecionador de coisas e pessoas perdidas. Mas ela já notou que tem algo por trás.

21.06.2012
Liguei para minha mãe. O Francisco acabou me convencendo. Esse negócio de ficar conversando toda noite a noite toda com o Francisco acaba me fazendo agir de maneiras muito inesperadas. No entanto, ele tinha razão. Uma coisa era eu ter morrido e minha mãe ter esperanças de eu estar vivo. Outra é eu estar vivo e minha mãe temer que eu esteja morto. Liguei. Ela chorou um pouco. Ficou tranquila quando eu disse que tinha refeito minha vida em outro lugar e que era melhor que ela não soubesse onde eu estava. Eu disse que ligaria de vez em quando. Pedi-lhe que avisasse ao tio Anselmo. Com a Lívia não falo mais. A Lívia foi a pior melhor coisa que podia ter acontecido. Agora é passado. Ângela me ligou. Vou encontrar-me com ela no bar onde trabalhava. Continuo sem descobrir nada sobre o suicida. Já viajei para todas as cidades vizinhas. Pelo menos há gente que me ajuda nisso na delegacia, além da Ângela. O Francisco e a Silvia sempre estão de olho nos jornais. Uma hora encontro algo.

31.08.2012
A Ângela me confirmou que está mesmo grávida. Disse que vai ter o filho. Eu não tive coragem de propor nada que contradissesse isso. Ela é minha melhor amiga. Hoje encontrei um anúncio de jornal promissor sobre a minha busca. Viajo amanhã. Depois penso em que fazer.

09.09.2012
Estou juntando dinheiro. Meu emprego está melhor, ganho mais do que ganhava antes de vir aqui. Tive que visitar minha mãe para pegar a segunda via do meu diploma universitário. Ela ficou contente. Francisco está feliz, Anselmo está feliz. Todos comemoram minha anunciada paternidade. Estou começando a gostar da ideia.

21.10.2012
Estou apaixonado pela Silvia. Não posso negar. O sol brilha mais no cabelo dela do que no de qualquer outra pessoa. Estou perdido. Preciso conversar com alguém sobre isso. Que estado lamentável. Estou perdido. Extasiado. Perdido para além ou aquém da razão.

11.11.2012
Onze meses e nada. Tenho andado muito ocupado juntando dinheiro para o nascimento da Gabriela. Ângela decidiu que estamos melhores como amigos. Podemos compartilhar a guarda, caso eu mude de ideia. Francisco me olha às vezes com medo, pensando que o Ano Novo está chegando.  Nunca contei nada à Ângela, quero preservá-la de qualquer desgosto, ainda mais neste momento importante. Ela está uma grávida linda. Espero que a Gabriela seja a cara dela. Bonita. Sempre me senti feio. Mas eu sou pouco importante aqui. Aliás, não importo mais. Importa apenas que a Gabriela seja feliz.


31.12.2012
Falta pouco para a meia-noite. Tento recordar o que aconteceu há exatamente um ano atrás. Meus sentidos me enganavam. Trêmulo como alguém prestes a morrer. Imaginação? Minha memória é de mim próprio caindo. Ou não. Não consigo me lembrar do rosto dele. Tentei descer ali, ninguém tem coragem de entrar na corredeira para procurar algo que nunca pude dizer o que era. Basta. Francisco parou de desconfiar de que eu possa fazer algo nesta passagem de ano. Sinto que 2013 será o meu ano. Um minuto para os fogos de artifício e as taças de champagne.

5 comentários:

Carolina Pelegrini disse...

Muito bom Matheus! Lembrou a Longa queda do Nick Hornby!!
Beijos!

impressoesdavidalafora disse...

Muito triste, mas gostei!!!

juracema Camapum Barrroso disse...


Matheus,vc escreve como se estivesse conversando com alguém a sua frente, e com muita simplicidade,é prazeirosa a leitura. "Ano Novo" é um dos textos (crônica) que mais gostei. Essa vontade de sucumbir e de se encontrar,é um pouco de todo mundo.Muito legal! Continue escrevendo (se quiser) porque eu quero ler. Muito bom !

RAFA disse...

Muito bom. Um quê de Camus, um quê de realismo fantástico latino-americano, uma pitada de Hemingway. Você tem estilo!

Rodrigo disse...

Gostei, de novo...