quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Preconceito de classe média

Este texto foi escrito em maio de 2006. Após receber um e-mail absurdo, com todos estes preconceitos típicos da classe média contra os pobres, me explodi nessas palavras. Mas nada disso mudou. Aliás, parece que piora. Aparentemente, a classe média simplesmente nem quer mais ver os pobres. Ao vê-los pedindo dinheiro no trânsito, ou em seus carros velhos, ou em lugares públicos que inevitavelmente vão, o brasileiro mais abastado pensa: "que chato". Por isso, vai aqui um outro texto chato:

Suponhamos que você nasça num barraco, com pai desconhecido e mãe adolescente, na periferia de uma grande cidade. Suponhamos que você consiga sobreviver, de alguma maneira, apesar das milhões de doenças que causam o ainda alto índice de mortalidade infantil do Brasil. Suponhamos, então, que você não possa estudar, porque tem de ajudar a família a catar lixo para vender para reciclagem. Suponhamos que, milagrosamente, você não seja cooptado pelo tráfico nem consuma drogas. Suponhamos que sua família perca o barraco numa ação judicial a favor dos verdadeiros proprietários da terra, que a compraram anos antes. Suponhamos que façam uma fábrica lá. Você não consegue trabalhar na fábrica, porque não tem educação formal. Suponhamos que sua mãe morra cedo. Suponhamos que você vá pra debaixo da ponte e morra assassinado. Suponhamos que ninguém note, não saia nos jornais, porque ninguém liga para morte de pobre.

Suponhamos, agora, que você nasça num bairro de classe média. Que seus pais tenham condições de te sustentar para você não precisar trabalhar. Suponhamos que, então, você passe numa universidade pública gratuita, paga por impostos de todos. Ou não passe e pague caro por uma particular. Suponhamos que continue sem trabalhar, porque não precisa, e continue estudando. Depois de anos, suponhamos que consiga um emprego bom e forneça o mesmo padrão de vida a seus filhos.

Agora, suponhamos que as pessoas da situação 2 culpem as pessoas da situação 1, a grande maioria da população, por sua miséria. E que digam, inclusive, que eles não têm nada porque não trabalham. Suponhamos que as pessoas da situação 2 achem que as pessoas da situação 1 sejam aproveitadores que pretendem roubar o fruto de seu suado trabalho. Imagine que porcaria de país seria esse.

Bem-vindo ao Brasil.

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