quarta-feira, 30 de março de 2011

Para nunca completar

À Pilar da minha vida.
Escrever devaneios. Ver notícia boa no jornal. Caminhar na praia. Dirigir na estrada. Sentir o cheiro de mato depois da chuva. Ouvir música bonita no escuro. Chorar no cinema com medo de alguém perceber. Ler um poema maravilhoso pela primeira vez. Lembrar de um sonho bom. Dormir muito cansado. Dormir na beira da praia. Ventinho bem fresco no calor. Mergulhar e boiar nas águas do mar. Ter aquele breve, aquele brevíssimo momento em que se tem a sensação de plenitude. Dar e ganhar presentes. Casa nova. Água e tudo que tem a ver com água (bebê-la, afundar nela). Dançar como se ninguém estivesse assistindo, ou pular enlouquecidamente por não saber dançar. Não levar absolutamente nada (muito menos eu mesmo) a sério. Subir em árvores. Deitar no colo de alguém querido. Receber carinho. Sorrir do nada ao lembrar uma coisa boa que aconteceu em tempos imemorais. Passear e pensar na vida. Jogar sinuca e boliche. Suar muito depois de praticar algum esporte. Correr. Nadar. Andar de bicicleta. Comer com muita fome. Qualquer comida que chegue e deixe com água na boca. Comida caseira (ainda mais a comida da mamãe ou da vovó). Ir a bistrôs e trattorias. Explorar padarias. Bruschettas. Azeite, manteiga, manjericão, pimenta, curry. Tomate cereja. Penne, fetuccine, pizza e lasanha. Filé mignon alto e ao ponto francês (ou argentino). Estrogonofe. Feijoada. Guacamole. Comer frutos do mar na beira da praia. Madeleines e financiers. Torta de chocolate. Sorvetes da Haagen Dazs (especialmente o de cheesecake de morango). Chocolates suíços e belgas. Baklava. Alfajor. Bolo saindo do forno. Frutas como amora, morango, manga, goiaba, siriguela. Salada de frutas. Banana com canela e chocolate, banana frita com açúcar, banana. Limonada suíça, suco de laranja, de acerola e de manga. Vinhos espanhóis, chilenos, australianos, sul-africanos, espanhóis, italianos. Cerveja, principalmente Heineken e Paulaner. Café espresso quentinho (especialmente pela manhã, quando faz um friozinho, e com um cigarro). Pão de queijo quentinho e fresquinho. A mulher, meu deus, a mulher. A mulher e a alma feminina e tudo o que ela mostra e o que ela oculta. E, no capítulo do corpo feminino, os lábios carnudos, os olhos com cílios longos, os seios, as pernas, a barriga, a bunda, os pelos, o nariz, o umbigo, os ossos do quadril proeminentes. Estar apaixonado. Sentir o olor do campo. Aromas cítricos e amadeirados. Chance, da Chanel. Acqua de Giò feminino. 212. Cheiro de solventes e inalantes (já me vi tantas vezes cheirando cola pelas rodoviárias). Cheiro de bebê. Assistir a aulas que dão vontade de sair correndo para começar a ler 50 livros antes da próxima. Matar aulas. Terminar o dia de trabalho com a sensação do dever cumprido. Ter um dia bom no trabalho. Matar um dia de trabalho. Retirar nacos de gelo do congelador de geladeiras antigas daquelas que precisavam ser descongeladas sempre. Cortar um item de uma lista de coisas a fazer. Cortar o cabelo. Andar pelado pela casa. Deparar-me comigo mesmo no espelho e constatar que está tudo muito bem. “Sejam bem vindos ao voo...”. “No fígado está tudo bem”. “É benigno”. “Exatamente o que eu pensei”. “Vou gozar de novo”. “...”. Ler tirinhas do Calvin e Hobbes, da Mafalda, do Laerte, do Angeli. Humor negro. Piadas de português e de advogados. Mapas de cidades. Cortinas de linho cru. Tênis Converse All Star. Capas de livro e livros bonitos. Cartazes antigos. Álbuns de fotografias. Dicionários. A textura do veludo, do algodão, da seda. A sensação de deitar em um colchão macio. A arte e as artes. Tentar tocar violão. Cantar, cantar (e desafinar, claro). Ouvir românticos em música erudita (para horror dos que entendem de música muito mais do que eu). Piano e violino. Carmem, de Bizet. Ir a um show da banda de rock que não canso de ouvir naquele exato momento. Ouvir Beatles. Festas com música boa. Restaurantes com música boa. Músicos de rua. Roda de samba. Bossa nova. Chico Buarque. A geração de 1960 da MPB. Ouvir discos antigos de Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Cartola. Cinema, sempre, quase como a satisfação de uma necessidade física. Filmes em preto e branco. Filmes do Kubrick, do Bergman, do Woody Allen. Jean Seberg, Anouk Aimée, Ingrid Bergman, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Isabelle Huppert, Meryl Streep, Juliette Binoche, Irène Jacob, Jodie Foster, Julianne Moore, Naomi Watts, Natalie Portman... e esta ciência de que muitas outras virão. Lembrança daqueles dias em que o cinema salva minha vida, como no dia em que entrei triste e sozinho na sessão noturna para assistir “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” e saí da sala outra pessoa. MOMA, Guggenheim, Museu d’Orsay, National Portrait Gallery, Prado, Hirshhorn. Pinturas de Picasso, Maggritte, Monet, Van Gogh, Rothko. Todas as pinturas do Chagall, especialmente aquelas com pessoas voando. As fotografias do Cartier-Bresson, os livros de fotografia do Sebastião Salgado. Ler a orelha do livro que vou começar a ler. Terminar o livro que estou lendo (e, então, assinar meu nome, colocar a cidade onde estou, a data e a hora exata). Ler na cama. Ler em cafés. Ler em bibliotecas. Ler, simplesmente. Romances do Dostoiévski, do Guimarães Rosa, do García Marquez, do Proust, Thomas Mann, Kafka, Coetzee, Paul Auster, Clarice Lispector. Contos do Tchekov, do Rubem Braga e do Luis Fernando Veríssimo. Machado de Assis, este monstro que nasceu bem aqui. Romances de formação. Um poema que faz chorar. Ler, ler de novo, reler de novo (infinitamente) poemas do Fernando Pessoa e do Carlos Drummond de Andrade (na cama, em cima do tapete, no sofá, na cozinha, no mato e na praia). T. S. Eliot e Vinicius de Moraes. Tragédias gregas. Cartas a jovens escritores. Os escritores russos do século XIX. Freud, Nietzsche, Sartre. Filosofia e psicanálise e história e política. Tentar decifrar alfabetos desconhecidos. Aprender uma língua nova. Ouvir e falar francês. Palavras e frases intraduzíveis para outra língua. Rir de palavras e frases em espanhol, principalmente quando eu tento falar. Tantas palavras, como inefável, nuvem, invisível, amorosamente. Outras engraçadas, como otorrinolaringologista, tatibitate, tucupi, quiproquó. Viajar com amigos. Viajar com namorada. Viajar sozinho. Viajar. O desconhecido (e o medo do desconhecido). Ipanema. A Lagoa Rodrigo de Freitas. Praias do Nordeste do meu país. Praias especificamente da Bahia (no sul da Bahia, então, nem se fala). Tantas e tantas urbes: Paris, Nova York e Chicago, Barcelona, Amsterdã, Atenas, Buenos Aires, Ouro Preto, Salvador, Rio de Janeiro, Goiânia. O interior da Casa Batlò em Barcelona, e o Parc Guel, e a Sagrada Família com seus guindastes (a distribuição da luz de Gaudí). O Fórum Romano. A Esplanada dos Ministérios em Brasília e o interior da catedral da mesma cidade. O jardim do Palácio de Versalhes. O parque de esculturas Vigeland, em Oslo. O Bairro Alto em Lisboa. A pirâmide do Louvre. Descobrir que, na Grécia, metaphora é como se designa transporte público. Comer na Pont des Arts, em Paris, no verão. Pôr-do-sol em Bali. Paisagens com lagos e montanhas. Piscinas naturais no meio do mar. Orquídeas. Árvores muito, muito altas. Pinheiros e álamos. Ipês em flor no meio do cerrado. Pé de jabuticaba carregado. A linha azul claro-escuro entre o céu e o mar. A aurora boreal. A aurora e o pôr-do-sol. O céu estrelado. Conhecer um novo melhor amigo de infância. Rir junto em mesa de bar. Ir a festas de casamento. Receber ligação que estava esperando. Receber ligação de quem não estava esperando e de quem sentia tantas saudades. Ficar sabendo de algum segredo. Contar um segredo. Conversar com os bons e velhos amigos de sempre e rir das histórias do passado (especialmente lembrar pela milésima vez das histórias contadas e recontadas, principalmente das coisas hilárias e surreais que aconteceram todas em um ano, 1998). Conversar com alguém e ver que compreende essa pessoa e que essa pessoa realmente compreende você. Gostar de alguém do jeito que a pessoa é, e saber que a pessoa gosta de você do jeito que você é. Falar o que pensa de verdade sem preocupar. Mãe. Os causos e memórias dos avós, as confusões e as opiniões do papai, as broncas e os conselhos da Raquel, as enrolações e as demonstrações amorosas da Ana. Reuniões de tios e primos nas cidades pequenas dos meus pais. O leite tirado na hora da vaca na fazenda do meu avô materno na minha infância. Pensar na filhinha que ainda não tenho. Sentir um bebê apertando com a mão o meu dedo. Ver uma garotinha com roupa de bailarina. Gente engraçada. Encontrar subitamente e por acaso um amigo de longa data. Ver um casal de velhinhos (e acreditar mais uma vez no amor). Estar apaixonado e pensar nela.  Assistir filmes no domingo à noite com ela, especialmente quando está frio e ficamos juntos embaixo da mesma coberta. Dormir junto. Mãos dadas. Beijo na boca, de-mo-ra-da-men-te. Sexo. Orgasmos. Ouvir “eu te amo” antes de dormir. Seu cheiro (que está no cabelo, na nuca, nos ombros, na barriga...). Seus furinhos nas costas. Amar. Amar mais e ser amado. Viver. Viver ao máximo. Descobrir que para isso é só querer. Saber que esta lista não tem fim. Continuar a expandi-la.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Noturno

Aquela noite estava especialmente estrelada. Uma fraca lua se via bem ao longe, de modo que o céu inteiro parecia aproximar-se do globo para fazer-se mais visível. Astrônomos no deserto do Atacama conseguiam enxergar melhor as cerca de 300 bilhões de estrelas de nossa galáxia. Em algumas partes mais isoladas e em cidades pequenas, crianças faziam reiterados pedidos em silêncio, cada vez que flagravam outro aerólito, isto é, outro meteoro, isto é, outra estrela cadente, sorridentes, com pensamentos maliciosos sobre os presentes que certamente seriam recebidos nos dias seguintes ou até o Natal, sem dúvida. Estas crianças conseguiriam contar, se todas tivessem ido à escola e soubessem contar (o que não é o caso), se todas tivessem tempo para isso, e se a noite não acabasse nunca, quase 5 mil estrelas. Muitas não contavam, naturalmente, não somente por estas limitações, mas porque tinham medo de criar verrugas nas pontas dos dedos. Mas elas viam, as crianças, e isto era o mais importante, um mundo de estrelas, um céu leitoso que dava gosto de ver, ou seja, que deleitava. Era uma noite especial.

Os habitantes das cidades maiores não costumam olhar tanto para o céu, por haver sabidamente muito ao que prestar atenção aos lados, como nessa cidade da história. E se alguns moradores dessa capital sul-americana específica por acaso se distraíssem e de esgar reparassem o firmamento, ficariam imediatamente inteirados da excepcionalidade daquela abóbada, de tão iluminada. Essa mesma cidade teve a bênção de contar, nos últimos anos, com uma administração pública absolutamente engajada na promoção da iluminação para todos. Após licitações diversas (quase todas comprovadamente imparciais), optou-se por luminárias públicas que espalhavam indistintamente a luz (pelo preço, pela empresa escolhida, pelas influências de sempre). A propagação dessa iluminação teve vários efeitos paralelos, em geral aprovados pela população. Tornou o céu cada vez mais vermelho, de modo que se alguém dirigisse por uma estrada poderia notar a aproximação dessa cidade a mais de cem quilômetros de distância, pela mera observação astronômica. Era comum mencionar que o céu era mais bonito e distinto, e que aquilo ainda por cima havia diminuído a violência em várias áreas notoriamente problemáticas. Houve, igualmente, mas isso não foi tão comentado, perda da visibilidade das estrelas. Antes da construção da cidade, podia-se ver mais de 4 mil estrelas do local específico em que o protagonista está agora, uma festa eletrônica perto do centro da cidade. Após a construção da cidade e até mais ou menos 1950, o número de estrelas visíveis a olho nu passou para 2 mil. Com a já citada política intensa de iluminação pública com os postes de iluminação arbitrária, o número passou para exatamente nove estrelas. Os desavisados contavam onze, mas dois eram planetas. Nove estrelas pode não parecer muito, mas naquele céu vermelho naquele ponto específico da saída da festa, as nove estrelas estavam absolutamente cintilantes. Os planetas (talvez seja importante ressaltar), também. Já existem notícias sobre algumas cidades em que não é visível uma estrela sequer, um planeta sequer. Era definitivamente uma noite especial.

São 4 horas e quarenta e sete minutos. C. nota que seu cérebro desacelera entre a pista de dança e a primeira conversa sobre ir embora da festa, porque está tarde e porque é preciso fazer isso ou aquilo amanhã, um amigo está cansado, e outro se envolveu numa discussão desagradável perto do bar e acha que a festa perdeu a graça. A maioria das mulheres já foi embora, inclusive a que C. beijou em algum momento entre a segunda e a terceira idas ao banheiro. A festa era agora preenchida por pessoas que não iriam embora tão cedo por terem tomado comidas infantis (balas, doces, entre outras guloseimas), por terem bebido vodka suficiente para não terem idéia de que a festa está acabando, e por pessoas que simplesmente não desistem nunca. Alguns, dizem, ainda se divertiam. Mas o grosso é formado pelos primeiros casos, e aquela festa era uma festa normal, ordinária mesmo. C. era invadido pelo cheiro sufocante da mistura de suor e cerveja que o chão emanava e constatou ainda que dançar não era mais possível depois que toda a bebida derramada havia secado e formado uma gosma que grudava na sola do pé e que o impedia de sincronizar seus movimentos com os da música. Tudo aquilo no meio do gelo seco e das luzes coloridas (ele tinha nostalgia daquelas festas dos anos 80 em que só havia estroboscópios, mas sabe que aquilo é passado). Um sujeito não parava de esbarrar nele enquanto dançava, apesar de todo o espaço disponível para qualquer tipo de passo naquela hora. Algumas meninas olhavam gargalhando para um rapaz que não era ele, quase afogado na bebida em cima do balcão. Também sorriam para o sujeito espaçoso. Talvez fosse melhor ir embora.

C. fica um pouco para trás na fila do caixa e, definitivamente, tudo adquire uma velocidade bem menor agora. O mundo volta a rodar devagar depois que a música frenética fica um pouco mais distante. O caminho para a saída de boates é sempre negro, que sempre cria tons negros e cinzentos que deprimem e que impedem de acreditar num mundo cor de rosa. As pessoas se vestem de preto, as paredes são negras, isso sem falar na maquiagem carregada e agora desbotada de várias meninas (e alguns meninos) ao meu redor. Pouco antes de chegar ao caixa, uma criatura reclama do valor da conta, disse que bebeu somente duas cervejas (seus olhos cabisbaixos e vermelhos dizem o oposto, sua falta de equilíbrio diz o oposto), e o gerente é chamado para resolver o problema. Uma menina logo atrás não cessa em mexer o cabelo e enfiar suas madeixas na cara de C., que finalmente chega à frente da fila e paga sua conta. Está bêbado, naturalmente.

Sai do bafo quente e impossível da entrada e dá de encontro com os perdidos da noite, as pessoas que não partem quando já foram embora. Os que estão comendo, os que bebem as latas de cerveja mais barata vendida por ambulantes na calçada, aqueles cujo efeito das guloseimas não passou nem vai passar agora, os náufragos da festa, os abandonados na estação, os desesperados e os esperançosos, os que não desistem nunca (persistentes ou obstinados, a depender do ponto de vista), estão todos ali. É comum constatar que o lugar onde em geral não acontece nada é o mesmo onde as pessoas esperam que algo aconteça. Algo que vá redimir a noite, que vá dar algum sentido definitivo aos ensaios que ocorreram desde que saíram de casa. Ou até mesmo desde que acordaram. Desde que nasceram. O encontro. O acontecimento.

C. procurava os amigos quando subitamente uma pancada no lado esquerdo da sua face o faz desviar por vários e vários passos em falso, acompanhado de um grupo que ele não havia distinguido. Algumas gotas de sangue mostravam o caminho da pancada até o lugar onde foi parar, onde a cor vermelha ficou mais volumosa e mais intensa.

*

- Palhaço. Agora vai aprender a não ficar mexendo com mina dos outros.
- Hehehehehe. Mete a mão, bróder. O cara é um babaca. Achou que tinha se dado bem, hehe, agora se fodeu.
- Amor, vamos embora, vamos. Não precisa disso, não devia ter te contado que tinha sentido uma mão na minha bunda.
- Toma, toma, toma. Fica no chão.
- Mete o chute na cara, na cara, porra, agora mete um na barriga. No saco, o veado vai virar mulher. De veado pra mulher é pouco, hahahaha!
- Ai, essa deve ter doído. Olha o sangue na cara, hehehe. Quebra o nariz, quebra o nariz.
- Tá bom, amor. Foi só uma mão na bunda.
- Mulher minha não é vagabunda e não vai pra casa sem apontar o filha da puta que tentou bolinar ela.
- Amor, eu ainda acho que você pegou na bunda de uma mulher do lado. Amor, vamos embora, vamos. Isso está a mesma história de ontem e do fim de semana passado.
- Toma, toma, toma, filha da puta.
- Tá bom, bróder, vai acabar matando o cara e dando problema depois.
- Amor, pensando bem, acho que o menino atrás de mim tinha cabelo loiro.
- Loiro? Peraí, então pode ser aquele panaca ali de verde. Não é? Galera, vamos ali ter uma conversinha com o primo ali.
- Maluco, olha pra trás!
- Caralho, o magrelo conseguiu levantar e dar uma porrada, agora vai morrer.
- Puta que pariu, vem cá, filha da puta! Deita no chão de novo, deita no chão, fica no chão, porra, vai ficar no chão. Murro de veado, dois murros de veado antes de cair no chão e ficar aí pra sempre. Nem doeu, caralho.
- Bem, essas devem ter doído mais.
- Amor, para com isso. Tá pior do que aquele que ficava me encarando ontem. Eu não posso te dizer essas coisas, mesmo.
- Cara invocado. Agora tomou o que merecia.
- Putz, bicho, vamos embora daqui, vamos embora daqui.
- E o loiro, porra?
- Cara, tô vazando, tô me mandando mesmo. Fui. Tchau.
- Deixa o cara aí.
- A polícia acha depois.
- Vamos pro carro.
- Amor, voce tá sujo.
- Cala a boca, vagabunda, toda hora alguém pega em você.
- Desculpa, amor, desculpa.

*

Os palhaços foram embora. Covardes. Basta verem alguma luz vermelha que saem correndo. Estão acostumados a fazer tudo e a nunca sofrer nada. Eu não olhei para mulher alguma, muito menos peguei em alguém, não fiz absolutamente nada, e agora estou estirado no meio da rua com dor demais para tentar sair daqui. Por que isso acontece, meu deus, por quê? Simplesmente tive azar hoje. Não existe previsão astrológica ou deuses que expliquem como essas coisas acontecem com a gente. E como dói. Física e moralmente. Fui humilhado, fui humilhado sem razão alguma. Simplesmente por ser fraco, por estar ali, por ser uma vítima fácil. Não consigo ver ninguém, cadê as pessoas? Talvez eu tenha que tentar andar de novo.

Não consigo. Aliás, nem sei como me levantei e fui para cima do cara, só senti minha perna tremendo e subitamente me levantei, e meti dois murros, e teria distribuído mais, se não estivesse tão fraco e tão bêbado. Nada calculado, algo como um instinto, como a conseqüência do excesso de adrenalina. Coisa de animal, coisa irracional. E me orgulho disso: tudo, menos a razão pura. E descubro assim que não devo morrer como um cachorro se protegendo dos chutes do dono que o maltrata e que ele respeita. Nada de desobediência civil, sou só revolta diante da dor. Talvez por isso eu tenha apanhado, algum olhar orgulhoso de que ele não gostou e quis tirar da minha cara. Nada a ver com a namorada, nada a ver com nada. Também meu revide não tivesse a ver com nada. Sou um joguete do destino, tanto pelo que me acontece como pela maneira como reajo. Eu estava alegre e tranqüilo na hora errada, no meio das pessoas erradas. A culpa, quem sabe, foi minha. Eu devia ter aprendido alguma luta. Babaca mesmo, veado mesmo, filho da puta mesmo.

Nada a fazer senão sentir essa dor nas costelas, essa dor na barriga, na boca, no nariz, no pé, na cabeça (na alma? - quanta frescura eu penso, metafísica de lixo na hora em que a gente precisa de tudo menos de filosofia, ainda mais filosofia barata. Eu devia evitar essas consolações da filosofia barata e dos artigos de analistas ou jornalistas pedantes). Começo a divagar. Vou morrer divagando e olhando para o céu por falta de uma posição melhor. Espero que não tentem deduzir qual foi o meu último pensamento, do qual certamente terei vergonha.

Opa, finalmente algo se mexendo ali. Talvez alguém da festa me tenha visto caído no meio do asfalto. Pode ser, uma pessoa vindo devagar. Ou um cachorro vindo devagar. Uma pessoa. Alguém para me ajudar. Carregando algo. Talvez um gari. Um policial. Um bêbado. Talvez um assaltante.

*

Enquanto via aquela sombra movente, C. percebeu, inesperadamente, uma das nove (que pareciam ser onze) estrelas do céu apagar e desaparecer. Poderia ser essa a razão de seu enorme brilho, era seu momento de supernova, e daqui a pouco tempo poderá haver um buraco negro que puxará tudo que houver de matéria por perto, talvez até alguma estrela menor e pouco distante. C. enxerga o fenômeno e o interpreta como um presságio de algo bom ou ruim. Seja como for, sua interpretação egoísta ignorava o fato de que isso já teria acontecido há milhões de anos e que, portanto, C. olhava antes para um ser já inexistente, já morto muito antes de ele nascer e de ter olhos para ver, morto antes do início da humanidade, morto antes de haver vida e, consequentemente, de haver morte neste mundo. Havia também a possibilidade de que a estrela houvesse sumido pela renovação e fortalecimento da iluminação em um bairro pobre perto do local da festa, onde terá aumentado também a popularidade do prefeito junto à população local. Também poderia ser mera ilusão causada pelo desespero ou pelo desequilíbrio orgânico atual do seu corpo. No entanto, por ser a possibilidade mais otimista e poética (e que ainda agradará aos já mencionados astrônomos no observatório do deserto do Atacama), é preciso que se acredite que C. tenha acabado de presenciar o final de uma supernova. Uma compensação que a imaginação e a arte (além do otimismo e da estupidez) humanas são capazes de prover neste universo aparentemente sem sentido em que C. agora (ou ainda) habita.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Em si

Nem todos os pensamentos correspondem àquela repetida imagem do vento que revira a poeira de uma sala imensa e abandonada. Alguns pensamentos pesam, estão mais para a água (não têm nada de ar) que faz a poeira virar lama e grudar pelo assoalho, passando pelos corredores e pelas escadarias até o limiar da entrada. E quando passa de lá, sai fora do corpo aquela água salgada que cai no assoalho de fora do corpo. Alguns pensamentos pesam. Há momentos, inclusive, em que o peso deles (em que eles pesam tanto) faz ter vontade de existir como mera coisa, como algo que exista somente, sem saber disso, sem qualquer forma de interioridade. Momentos em se quer existir, não se sabe bem como, como uma canção. Uma melodia que se ouvisse por acaso nos momentos em que outras pessoas sentissem este mesmo peso e as fizesse sentir-se (que seja por um momento breve como o de uma canção) mais leves. Ou que as fizesse esquecer. Nessa hora, o medo incessante de não mais existir, de acabar de vez e para sempre, essa vaidade inútil de permanecer, cessa. Fica essa vontade, insisto, de existir somente como invocação para os outros que se sentem como se sente agora a pessoa cujos pensamentos pesam. É preciso ser possível tornar-se vez por outra uma invocação na forma do gosto de manga, do perfume de um chá exótico do oriente antigo, da textura de uma blusa de veludo, de um assobio, de uma fotografia de uma paisagem distante. Ser aquela lembrança inesquecível que você esqueceu e que, no esforço imenso de lembrar, você gargalha por não conseguir.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Manhã

O homem acorda às sete horas da manhã e dirige-se ao banheiro para tomar uma ducha. A mulher dorme na cama por mais 20 minutos, quando finalmente decide pegar suas roupas em seu quarto, na próxima porta. Uma decisão acertada, quartos separados, suas coisas sempre previsivelmente nos lugares adequados. O homem sai do banheiro, cheiro de sabonete com loção pós-barba, refletindo, novamente em seu quarto, sobre a gravata que seus colegas de trabalho verão pendida sobre sua camisa branca. A mulher sai do banheiro já vestida, abre a porta para deixar sair o vapor e começa a maquiar-se, preocupada com o fim próximo do batom de que mais gosta, preocupada sobre a possibilidade de usar a sandália mais bonita num dia provavelmente chuvoso, preocupada com os prazos e as entregas do dia. O homem olha o dia cinza através da janela enquanto seu café esquenta no fogão. Ele pega o corredor em direção à sala para fumar um cigarro na mesa de centro. Ouve passos do casal de vizinhos saindo para levar seus filhos correndo para suas escolas, para depois seguirem para o trabalho. Eles não têm filhos, não sabem mais se querem  ter. A mulher entra na cozinha, pega a salada de frutas e duas torradas, tira uma xícara de café do bule que esfria. O homem pega suas chaves penduradas no corredor, avista a mulher na cozinha e diz “tchau” e desce pelo elevador. A mulher termina de comer suas torradas, calça suas sandálias, desce os dois lances de escada que a separam da garagem, entra no carro e vai para seu escritório. Havia uma chuva monótona caindo sobre o pára-brisa dos dois carros, que seguiam por avenidas paralelas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estas coisas

Estas coisas me definem.
Olhando longe pela janela,
Penso sempre em minha sina
Quando se forem todas elas.

Haverá sentido em falar
De mim como sou (estarei morto?),
Em vez de outro, ignaro
Do ser anterior, agora oco?

Mortas coisas e pessoas,
Morto eu? Falso sobrevivente,
Andando a esmo inutilmente,
Corpo sem mente?

Ser sem nexo,
Renascido das cinzas
Não para ser Fênix
Mas novamente cinzas?

Do que chamar este estranho
Bando de cacos, ator sem roteiro,
Amnésia ambulante,
Sem eira, sem beira e sem paradeiro?

Chamar pelo mesmo nome?
Palavras deslizam entre entes
Díspares ao longo do tempo,
Sem algo que as dome.

Este alter ego nascido
No meio da vida, com peito
E cabeça vazios, exige
Porém algum respeito.

Que ninguém ouse
Desacatar este novo senhor, 
Esta outra coisa
Que logo sou.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

La chica de la noche

Nós nos viamos há vários anos. Às vezes, quando já estavamos juntos, alguém deixava cair uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco fomos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherinha na madrugada. (Gabriel García Márquez - Olhos de Cão Azul)

Não vou fazer uma declaração de amor. O que eu sinto é sobretudo este espanto de entender que meus olhos são olhos transparentes de sentimento quando te vejo. Quando te beijo. Nas noites insones em que conversamos, sua pele clara semeava luz no meio da escuridão, eu me perdia profundamente no seu corpo. Minha vontade era seguir suas veias evidentes e me perder eternamente para não me encontrar nem jamais saber de mim. Ser isto: seu sangue, sua carne. Te habitar.

Nossa vida foi sempre formada por sonhos que não esquecemos ao acordar. Nossa vida nunca teve coerência alguma com nossa vida juntos e nós não ligamos para isso. Você é la chica de la noche, já que eu nunca pude tê-la como belle du jour e penso que talvez seja melhor assim. Nem você pôde me ter como queria. Foi tudo da maneira que são os sonhos, foi tudo fugaz, algo se escorreu entre nossos dedos e não pudemos acreditar.

A vida sonhada é vivida, a vida vivida é sonhada. É preciso convencer a todos que façam de cada história de amor sonhada a história vivida, de cada história vivida o amor sonhado. Assim, em silêncio, porque as palavras sempre foram inúteis e confundem mentes e corações. Convidar a todos que conheçam, ao menos em sonho, a chica que conheci numa noite atormentada e que me fez dormir bem desde então. Os seus cabelos negros sobre os meus cabelos negros se misturam e compõem uma matéria que alguns chamam de sono.

Volte para mim, meu amor. Por favor, me faça dormir de novo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Joaquim não conseguia andar

A mãe de Joaquim já havia tentado de tudo, mas era sempre a mesma coisa. Logo que ele começava a caminhar, desprendia-se do chão e começava a voar. Joaquim, vem pro chão agora. Mamãe está te chamando, Joaquim. Joaquim, por favor. Joaquim, vem cá. As outras mães estavam cada vez mais preocupadas. Duas crianças do prédio já haviam tentado voar como Joaquim. Os vizinhos estavam alarmados. Para segurança de todos, foram instaladas grades em todas as janelas. Não havia como continuar assim. Porém, era só o menino descer para aprender a andar que sempre acontecia o mesma coisa: ele flutuava até a altura dos ramos mais altos das árvores e iniciava diálogos musicais com os passarinhos.

Falar era outro problema. Joaquim tinha, naquela altura, um vocabulário bastante extenso, muito mais vasto do que o das crianças de sua idade. Mas não conseguia falar “eu”. Não entendia seu significado, não conseguia separar entidades. Para ele, parecia que mãe, carrinho, pai, pássaro, árvore, chocalho, assovio, carinho e tudo mais era “nós”. Ele dizia coisas como “nós vamos comer para ter fome”. Era tanta frase contraditória que dava medo. Joaquim, por favor, vem cá. Ele vinha, sempre sorrindo. E voando, claro. “Nós entremeamos, mamãe”. Era tanta palavra difícil, a mãe estava aflita com Joaquim conjugando perfeitamente verbos complicados e não sabendo falar “eu”.

Os vizinhos pensaram em fazer um abaixo-assinado para expulsar Joaquim do condomínio. Contudo, nem havia o que argumentar. Voar não fazia barulho em horários inapropriados. Tampouco havia pagamentos em atraso. Os pais de Joaquim, para complicar, eram uma simpatia só. Eram tão solícitos que ninguém tinha coragem de iniciar uma moção contra a família. E mesmo o menino nunca parava de rir. Os moradores dos andares de cima podiam ouvir até melhor a gargalhada dele do que os que os que viviam mais próximos do chão. Outro problema é que ele costumava apanhar coisas pelo caminho até o alto. Não faz muito tempo, havia entregado um pedaço de nuvem para o pai, coisa que ninguém podia explicar.

Joaquim também não tinha sentidos como as outras pessoas. Ele via música, ouvia carinho, sentia o gosto do amarelo (cor, aliás, que achava meio amarga), cheirava coisas ásperas. Odiava ser encostado pelo dó sustenido, mas depois acabou aprendendo a gostar. Percebia que o dó sustenido era roxo, e ele tinha um pouco de medo daquela cor. Com o tempo, porém, Joaquim foi se acostumando e parando de ter medo das coisas (se é que ele entendia as coisas separadamente, coisa de que todos duvidavam). Joaquim era um menino realmente diferente. Ele gostava de enrolodilhar os dedos em seus cabelos louros por causa da melodia. Joaquim falava línguas que ninguém era capaz de compreender.

Então, resolveram mandar Joaquim para diversos médicos, psicólogos e estudiosos. Começaram a conjecturar que o problema do menino era que ele ainda não conseguira diferenciar-se do resto do mundo. Afinal, ele achava que tudo era “nós”. Era tipo assim: se tudo era “nós”, tudo era uma coisa só e uma coisa bem diferente, que é muita coisa ao mesmo tempo, e aí tudo se confundia demais. Joaquim não tinha desenvolvido  na cabeça o “eu”, ao contrário dos outros meninos, para quem tudo era “eu”. E começaram a tratá-lo.

No começo, Joaquim não entendeu. Com muita insistência, deixou de sorrir por alguns minutos pela primeira vez. Não gostava daquilo. Ficou sério. Com muita, muita, mas muita insistência, passou a falar dele mesmo na terceira pessoa: Joaquim gosta de jogar bola, Joaquim come jabuticaba. Pouco a pouco, conseguiram fazê-lo falar o que queriam. Joaquim passou a conjugar verbos, mas sempre na terceira pessoa. E às vezes regredia para a primeira pessoa do plural. Ninguém entendia aquela resistência enorme do menino. Falavam que Joaquim era ele, Joaquim era ele, Joaquim era ele. E Joaquim dizia “ele”, mas eles não aceitavam. Ele ficou ainda mais confuso. Depois, passaram a dizer que Joaquim era eu, que Joaquim era eu, que Joaquim era eu.

Foi realmente uma luta.

Finalmente, um certo dia, Joaquim disse “eu”, e nunca mais conseguiu voar, para alívio de todos os vizinhos, os médicos e as professoras de sua escolinha.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Primeira entrada em um diário sem assinatura (e também a única: o diário jamais foi continuado)

Foi o frio talvez que me deu a idéia de começar a escrever tudo o que penso, diariamente se possível. No frio, as coisas ficam sempre mais claras. Este sol a pino acompanhado pelo vento frio desta cidade eternamente aberta ao horizonte, essas formas limpas e monótonas, esta sensação de solidão que o estar encoberto de roupas sempre traz, tudo isto parece me obrigar a escrever algo para que eu possa, quem sabe, entender depois. Porque eu nunca entendi o que escrevo. Passa um dia, passa outro, não consigo entender o que cada um deles quer dizer, nem o que o conjunto de todos significa. É tudo simples ou complicado demais para compreender (porque eu acho que a mente humana acredita tanto na profundidade que não consegue entender o que é banal, porque ela não quer aceitar a banalidade).

Está frio e no frio tomo café.

É preciso contar o meu dia. Bem, vamos recordar o meu dia: acordei, tomei café, pensei besteiras, andei no parque rumo ao trabalho, trabalhei (não aconteceu nada de mais, além de um comentário maldoso sobre alguns colegas, que achei desnecessário), encontrei João e Maria para tomar um vinho e comer algo, voltei para casa, assisti a um filme e agora estou escrevendo esse diário antes de desmaiar de vez na cama. Ah, essa cama já foi dividida e agora não é mais. Os filhos já cresceram, não ligam mais. Esse diário é uma receita para adiar a morte.

Este frio está me fazendo mal. E do nada me ocorre de escrever um diário? E eu sou lá Anne Frank? E estou lá à beira da morte? Eu preciso fugir do frio, é isso. Viver. Tomar decisões como nunca mais escrever.

quinta-feira, 4 de março de 2010

The outsider (fragments)


Once upon a time there was a death of a beloved one.

You come into a restaurant and order thai food inside New York. Everybody speaks English but nobody really speaks English. You listen to 546 different accents every minute including yours. And you think you also have an accent in your mother language and people often ask if you are from a specific state in your country. No, you think, you are from a neighbor state. And now you are ordering food in a nice restaurant to run away from the snowstorm that all TV stations are broadcasting. Really far away from all the tropical beaches you kind of miss. It's like you're not really you. It's like watching somebody else moving, talking, having opinions. Do you really think this? Every language you speak, every continent you go, you're somebody else. You think about your loved one and the loved one is the loved one in that language, not your really loved one as a whole. You are fragmented. You read French philosophers in Spanish just because the bookstore in Chile had it and you were there not in France. You have friends in Facebook from Mozambique that you met in the World Social Forum in Nairobi. When you really think about Paul Auster, you think of him speaking French in Paris but somehow living in the same city you are right now, ordering Italian food with his Norwegian wife on 59th. You remember last night, you barely remember last night drinking too much wine with many friends discussing the reason why we are so unsatisfied being that we all are so privileged. You keep travelling from country to country, from language to language, from different parts of your brain to other different parts of your brain. You are, no doubt about it, doing fine. A bookish fellow, a little distant from your acquaintances. Very shy, perhaps, but indeed good at hiding it. Your face in the mirror of an apartment that never made you feel like home, each day more wrinkled behind the smoke of your cigarette. Still trying to quit, for decades you have been trying to quit. You got used to not telling anyone the things that really matter for you. You convinced yourself that they are not important, not profound enough. Your face behind the smoke of your cigarette have tears sometimes. But not very often. It is because of that short story by Dostoyevsky last night, that sonata you were listening too late at night. Not very often.

There are many different ways of being somebody else in the life. Only one of being yourself, but that changes over time. You are running away. You even forget your name sometimes. You are taking another plane to another place and you like it so much. Time is passing, and you value every second. You know you can forget everything. And after a few years, it is going to be so much easier because you have never had a good memory. Going to meetings everyday, talking to people and reading books at night. Oh, you are still young. You dream of finding someone who will complete you and you know that it doesn't make any sense. You know that Aristophanes was wrong, there is not this so called your other half. And you amuse being with different halves with different parts of your personality. You once met someone who changed your life and you are never going to be like you were before. Those light green eyes are in the back of your head. Still. But not very often. Oh, you love to go to Myanmar and see the beaches and forget that once people used to suffer so much there. Sometimes, when you talk about the life you live, you sound very snob to your audience. And you know it and you know also that you despise your life. But they will never know. It is even worse to complain about a life so privileged. And you know (yes, you know a lot) that it is privileged. The problem sometimes is just you. The world has changed, no worries about climate change, no worries about crisis after crisis. Yes, you stopped reading newspaper and prefer to enjoy the smell of blooming flowers after the rain. You enjoy the moment. No Heidegger anymore, not that old urge about the future. No plans at all. All that is important is here and now. You know how to live, finally after years trying to change. No worries about your psychoanalysis therapy, no worries about who you really are. You get lost in the cities and you love when you are unable to understand what people are saying when you take the metro to a unpronounceable station. You wanted to know the world and you are doing it. Your job is not important. Not even yourself is important. You are now in complete harmony with the surroundings. You like to smile at people and expect them to smile back at you. Sometimes it doesn't happen. But not very often. Sometimes you think of yourself and you remember there are reasons for you to be sad. But, oh, those smiles back at you, they are so spontaneous. So beautiful. Not very often.

You now spend a lot of time crying, listening to music, drinking. You are never alone. People say behind your back that you cannot be left alone, and you are not so stupid not to realize it. Oh, my god, oh my god, oh my god. Where are you. You started praying again. You would never pray after your childhood, and now you talk to god every night and every morning. And you refuse to speak your own language. You do not want to be that person that spoke that language. You are not from anywhere. You are never coming back to the places you went to with her. You do not want to be yourself. Sometimes you think of coming back and starting all over again. But not very often. That part of you must die. And you are killing it, like so many others have done before you. There are real tragedies that need to be forgotten, and you have to kill that part of you which lived the tragedy. Desperation is not wanting to be oneself. It is the impossibility of being oneself. Because you do not understand why such unexpected things can happen to those who had a life so uneventful. Oh, and you used to be so happy, you remember that you could not stop laughing. You even remember one day that you thought you were going to die because you could not stop laughing. You smile sometimes remembering that. You feel so light sometimes. There are good things in life. You are reading self-help books now, so pathetic. You read astrology, Buddhism, all kinds of oriental things, to see the beautiful things that you cannot see very often lately. Where is she? You stop crying sometimes. Not very often.

Você está vivendo o momento mais feliz da sua vida e nunca pensou que pudesse ser tão feliz assim. Ri de qualquer coisa, faz planos de se casar, de conhecer toda a família, de ter filhos e parar com aquela coisa egoísta de preservar sua individualidade. Você quer imergir em outra pessoa e não faz a mínima questão de ser qualquer coisa que não seja para ela. E ela ama você de volta e vocês vão ser felizes para sempre. Não existe nada que possa mudar isso. Você vai finalmente se estabelecer e viver o resto da sua vida com a pessoa que você mais amou na sua vida. Chega de viajar, chega de mudar, chega de procurar. Você agora vai ser só você, da forma mais espontânea e simples do mundo. A felicidade é algo simples e duradouro. Nada realmente pode mudar isso, porque isso vem de você. Você tem convicção de que merece essa felicidade e de que nada pode mudar isso. Existem momentos em que finalmente decidimos como será toda nossa vida futura. Você descobriu esse momento. É maravilhoso. Não acontece quase nunca.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um dia

Um dia eu acordei e estava cansado da vida e achava que a tinha desperdiçado com coisas que não tinham nada a ver comigo e que eu devia ter sido mais autêntico e menos preocupado com o que os outros pensavam de mim e deixar meus desejos aflorarem e dar mais de mim para os outros seja bom ou ruim e que agora era tarde demais e que eu havia me perdido e agora não conseguia mais saber quem eu era nem o que queria e que era duro não saber quem se é e por isso eu devia ter feito ioga análise e devia ter sido mais saudável e parar de ouvir as pessoas que têm mais traumas e estão mais perdidas do que eu e diziam ser meus amigos e eu pensei que também estava me sentindo na verdade muito sozinho porque eu nunca conseguia ficar à vontade mesmo entre pessoas conhecidas e que no fundo ninguém nunca tinha me conhecido de verdade e que a culpa era minha já que nem mesmo eu sabia quem eu era e que isso era uma forma de egoísmo e sim era egoísmo e eu era egoísta e por isso me sentia sozinho mas que agora ia ser tudo diferente e eu ia parar de me sentir assim e ia me dar mais para as pessoas e ia parar de me preocupar com o que as outras pessoas pensavam de mim e que eu ainda tinha muito da vida para aproveitar e que só tinha desperdiçado uma pequena parte porque eu era jovem eu era jovem e ainda podia fazer muita coisa e tudo estava bem e eu tinha uma vida tranqüila com emprego casa roupa lavada filmes livros e muita música e amigos de verdade e podia pagar análise ioga academia e que eu ia ser uma pessoa diferente já que eu tinha tomado consciência eu podia ser uma pessoa diferente e todas as coisas do meu apartamento começaram a dançar e a escova de dente cantava músicas felizes com o acompanhamento das latas de lixo das xícaras e copos do lustre do móbile e o vento começou a soprar mais forte tudo dentro do meu apartamento mas aí comecei a pensar que as pessoas não mudam assim tão facilmente só acordando um dia deprimidas e depois ficando felizes em uma hora e que na verdade eu podia acabar repetindo tudo de novo do mesmo jeito que eu tinha feito até então e que eu ia acabar sendo sempre isso sempre isso sempre isso mas aí pensei de novo e lembrei-me que a consciência era o começo da mudança de tudo e que agora eu podia sim sair pra rua e dançar e que os dias ensolarados iriam finalmente acontecer e logo eu abri a porta do meu apartamento e saí todo ensolarado e sorridente para a rua e vi as crianças brincando e os pais felizes nos parques das pessoas saudáveis e aquilo tudo me contagiou de uma forma tão completa que eu pensava que sim que eu iria mudar e que a felicidade estava na esquina e que agora eu só precisava de um cigarro para aproveitar o momento e de preferência uma cervejinha só para conversar com meus amigos de verdade e peguei o rumo do bar mas aí pensei que não era bem assim que eu estava me perdendo de novo e que eu era uma nova pessoa e voltei e quando eu estava chegando ao parque das pessoas felizes começou a chover e eu voltei para o meu apartamento silencioso e ao som da água caindo lá fora resolvi dormir de novo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Princípio do autor (ou "Conto em forma de cebola")

O protagonista da história é um diplomata que escreve textos com pretensão literária na internet. Mora em Brasília. O autor desta história é um arquiteto francês, admirador de Niemeyer. Portanto, a cidade em que se passa a história. Como fala francês, escolhe alguém que provavelmente seja versado em francês. Portanto, a profissão. O autor chama-se Xavier. O personagem, Matheus. A história se passa entre Brasília e Paris. O romance trataria da crise vivida por uma pessoa sem lugar fixo, que se sente fora de lugar em seu próprio país e que busca sua casa em outro lugar. Uma busca provavelmente fadada ao fracasso. Ou ao sucesso, não pela mudança de geografia, mas por alguma descoberta interior, que somente será possível mediante um grande acontecimento a ocorrer no meio da história. O escritor faz um rascunho, com personagens, lugares, diálogos inacabados, ideias pela metade. Não há enredo propriamente dito. O arquiteto-autor está atolado em mil projetos simultâneos por conta das grandes reformas urbanas planejadas pela atual administração francesa, que busca repetir os feitos de Haussmann. Para de escrever e eventualmente esquece o esboço. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o arquiteto, que é personagem de uma história que se passa entre Paris e Brasília. O autor, Matheus, é um diplomata brasileiro que namora uma arquiteta, tenta aprender francês, admira Paris e não tem muito o que fazer nos fins de semana que passa na cidade, a trabalho. Portanto, as cidades em que se passa a história. Portanto, a profissão. O enredo pareceria, de início, tratar de um arquiteto que tenta escrever uma história como passatempo em seus breves períodos de descanso dos inúmeros projetos que o preocupam. Depois, descobre-se que o autor é, na verdade, manipulado por seu próprio personagem, que eventualmente o encontra num café no Boulevard Haussmann. O personagem, aliás, tem o mesmo nome e profissão do autor, embora com personalidade bem diversa do que o autor acredita ter (e que, não obstante, entende). Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o diplomata e o arquiteto, entre Brasília e Paris, alternando-se os papéis de autor e personagem entre um e outro. Trata-se de um esboço de conto de uma autora brasileira, arquiteta modernista apaixonada em Niemeyer e namorada de um diplomata brasileiro que gosta muito de Paris. Daí, as profissões, os gostos, as cidades. A arquiteta modernista faz um conto pós-moderno em que desafia os limites entre realidade e ficção, faz uma narrativa com discurso indireto livre em que nunca se sabe quem fala: se um narrador onisciente ou se um dos personagens-autores. As diferenças entre Paris e Brasília, durante as longas discussões sobre projetos urbanísticos e edifícios, desaparecem em diversas ocasiões. Nota-se o carinho que ela tem pelos personagens, inspirados em pessoas com quem conviveu durante muito tempo. E essa história criada pela arquiteta, nem se sabe dizer se acaba ou não, visto que a própria estrutura é propositalmente a de um conto inacabado. Como um prédio finalizado aberto a novas intervenções. O esboço do conto (que é sua forma definitiva) nunca foi publicado e é esquecido na gaveta de baixo de um armário, enfim abandonado quando ela se muda do apartamento. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o diplomata, o arquiteto francês e a arquiteta brasileira. O autor é um professor universitário deprimido que encontrou um esboço de conto de uma arquiteta brasiliense de nome espanhol, sobre um diplomata brasileiro e um arquiteto francês, na gaveta do armário do quarto do apartamento para o qual se mudou. Ele apaixona-se pela autora e resolve transformá-la, então, na protagonista de um romance que decide escrever. Descobre-se, depois, que o autor é um dos personagens da história, um filósofo que resolve sabotar a relação entre o diplomata e a arquiteta, por meio de cartas escritas a um arquiteto francês admirador de Niemeyer, sob o pseudônimo de um professor universitário. O romance torna-se, no meio da história, epistolar. Mas o diplomata consegue fugir da história escrita por este filósofo, agora transformado em personagem, cujo único trabalho conhecido foi uma tese sobre o fim da utopia modernista por meio da análise de projetos de arquitetura para edifícios a serem construídos em Paris, por meio dos quais Sarkozy busca superar Napoleão III. O diplomata, no entanto, decide não reescrever o esboço de seu romance após seu manuscrito desaparecer no processo de sua remoção para Praga. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com um novo autor, engenheiro em Roterdã que encontra, num navio cheio de contêineres destinados à Europa do Leste, manuscritos em uma língua que não entende. Descobre tratar-se de português e resolve contratar uma brasileira, arquiteta modernista de nome espanhol, para traduzir os escritos para ele. No entanto, um arquiteto francês e um diplomata brasileiro, amigos de longa data de Paris e atualmente radicados em Amsterdã...

E assim indefinidamente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Saiba

- Catarina, minha filha, apesar de você ser só uma menina, tenha dó do seu pai e saiba que não se pode repetir tudo que se ouve por aí. Nada de pudo, mido, pido, despido e impido, cabo, fisso e outras coisas que eu não digo. Não quero saber de nada disso. Soo não soa nada bem e me faz até suar. Fale meço, eu te peço. Ouvo dá dor de ouvido. Fale acodo e será um deus me acuda. Esse mundo está lotado de poluição e violência, televisão, gente sem vivência, barulho, burrice, caretice e comida com prazo de validade vencido. Não vá se perder por aí. Olha, sua mãe já deve ter chegado. Querida, fomos no centro. Preferi fazer compras do que manter o combinado. Fica tranqüila, eu já truxe elas pra dentro. Ouviu bem, Catarina, entendeu tudo?


- De novo, papai, de novo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mudo

Alguém bate à porta insistentemente. Ouço meu nome com um leve desespero no tom de voz. Lembro-me de uma passagem de um livro cujo narrador principal, no momento em que finalmente consegue ficar com sua amante, diz que não tem palavras para descrever aqueles dias felizes. Que não há nada a dizer sobre a felicidade. A escrita nasce de algum mal. Algo parecido às teses sobre a relação da escritura e a doença em Thomas Mann. Escrever é estar doente. Ouço choro ao pé da porta, talvez seja melhor abrir, mas não me levanto.
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Em momentos tempestuosos, tive vontade de escrever infinitas páginas sobre a solidão, o cinismo e a hipocrisia, a incomunicabilidade, o desencontro, o papel do acaso e a falta de sentido da existência. Em momentos tempestuosos. O serviço de meteorologia prevê muito sol nos próximos dias. Escuto passos cada vez mais distantes.


Minha felicidade é uma comunhão com o mundo. Me sinto tão integrado, é como se não fosse eu mesmo mas parte de tudo. Não há autoconsciência, mundo interior. Eu não existo quando sou feliz, mas existo. Meu sorriso é desaparecimento.


Lembro-me então das milhões de teorias escritas sobre o silêncio tão prematuro de Rimbaud, que preferiu o tráfico de armas num continente inóspito. Algo mais tranquilo, mais simples. Le silence éternel de ces spaces infinis m’effraie. Pas le silence intérieur (la paix intérieur). Uma charge engraçada de um escritor com bloqueio criativo que cria um movimento literário fundado no silêncio.


Novamente, batidas e um abre-por-favor-eu-te-peço. Vou abrir a porta, tenho algo a dizer. Algo que justifica meu silêncio nesse tempo em que me perdi. Mas é preciso entender que não abri a porta porque havia uma vida a viver e que, quando vivo, fico muito ocupado e não tenho nada a dizer. Nada importante, pelo menos. E não gosto que me obriguem a nada. Principalmente a declarações solenes. Mas agora eu quero falar. Só preciso lembrar o que acabei de pensar e esqueci. Vou respirar fundo e abrir a porta. Se eu fosse você, deixaria de sorrir ao ouvir que estou me aproximando. O negócio é o seguinte.

sábado, 2 de maio de 2009

Veni Vidi Venezia


(Texto inspirado em fotos de Monique Renne)

Desembarco durante uma manhã ensolarada no aeroporto de Veneza, que na verdade está em Treviso, saindo do voo barato que não condiz com a dignidade que sempre procurei ter. Se bem que, aos 80 anos, não é fácil manter a postura e o andar elegante de antigamente. Veneza, a cidade mais romântica do mundo, repetem sempre. E venho aqui justamente por ter perdido o grande amor da minha vida há poucos meses.

Passearei por Veneza, no entanto, em sua companhia. O meu grande amor era uma improvável mistura de suave areia clara, voluptuosa praga e beira de precipício: precioso achado. Ela partiu tal como viveu: apressadamente. Sequer tive chance de me despedir e utilizarei essa viagem derradeira para que sua memória em mim me acompanhe pelos lugares por que já passei há tantos anos atrás.

Desço do trem e lembro-me que Veneza é uma cidade construída sobre mais de cem ilhas e, naturalmente, isso não poderia resultar num desenho muito lógico. Abro seu mapa e enxergo um quebra-cabeça, um confuso mosaico com um canal em forma de “S” que o atravessa. Talvez a relação com o amor tenha derivado desta desordem, da possibilidade constante de se perder em suas inúmeras ruelas e pequenos canais para nunca mais se achar, da abundância das águas que tanto lembram a fertilidade.

Acho tão interessante conhecer cada rua dessa cidade pequena e infinita e penso ser uma pena que quase todos os turistas acabem seguindo apenas as placas insistentes indicando a Praça de São Marcos e a Ponte de Rialto. Algo como ocorre no Louvre, com seus corredores lotados em direção à Monalisa e à Vênus de Milo. Recuso-me a seguir o roteiro pré-fabricado e atravesso a cidade e converso por horas com meu amor perdido. Namoramos pelas ruazinhas, nos perdemos, nos achamos. Muitos amantes devem ter feito o mesmo, vivido sentimentos parecidos ouvindo os gondoleiros que passavam cantando canções de amor em italiano. Passando entre casas amontoadas, com tijolos à mostra para demonstrar que a delicadeza pode conviver com uma leve decadência. Passando por escadas cujo final parece convidar-me a abandonar a terra e viver nas águas.

E é somente dessas ruazinhas que se pode observar os venezianos. Há tantos velhinhos que nos sentimos, meu amor e eu, em casa. Quase todos já passaram pela maior parte da vida: os artesãos, os passantes, os donos das lojas de souvenirs e dos restaurantes e dos cafés e das maravilhosas sorveterias italianas, os cabeleireiros e seus clientes e até os mendigos. Os venezianos combinam com Veneza, com sua arquitetura e com sua longa história. Andam sem pressa, levemente inclinados, com suas sacolas de compras de pequenos mercados espalhados por entre as casas. E seguem sua vida nessas ruazinhas como se os turistas fossem um detalhe, uma parte da paisagem. Um detalhe marcante para os que passam por lá pela primeira vez: os venezianos expõem sua intimidade por meio dos inúmeros varais suspensos nas ruas com suas roupas e artigos mais pessoais. Eis que temos acesso a suas vestimentas, a possíveis manchas de amor na roupa de cama e aos restos de alimentos sobre toalhas de mesa. Os venezianos recusam-se a abrir a cozinha de seus restaurantes após a hora costumeira do almoço. Não ligam se perdem o dinheiro de milhões de turistas esfomeados: a vida segue segundo o hábito, não segundo o tempo do dinheiro que prevalece em praticamente todo o mundo. Eu, que não consigo seguir horários quando estou de férias, passei fome. Mas pude usar isso para tomar mais um sorvete na tarde quente de verão.

Os venezianos têm o orgulho típico de quem passou por um tempo grandioso e se negam a fazer concessões ao presente. Passo por uma loja com miniaturas de gôndolas, todas com uma plaquinha escrita “Venezia”. Pergunto se há alguma escrita “Italia” e o dono da loja se irrita e tenta me esclarecer que Veneza não faz parte da Itália. Refere-se, aliás, à “República de Veneza”, que deixou de existir antes mesmo da unificação italiana, já que a cidade perdeu sua independência com a invasão de Napoleão de 1797. Logo após um século de ascensão e durante o qual foi considerada a cidade mais refinada da Europa. A invasão como um trauma, um recalque na mente de cada veneziano. A República de Veneza está viva no imaginário de cada um de seus cidadãos como se os últimos 200 anos não tivessem acontecido.

O carnaval é um exemplo: foi interrompido em 1797, esse ano trágico, e retomado em 1980. Os venezianos usam, durante o carnaval, vestimentas típicas de seu saudoso século XVIII. Parte deles vive de fazer máscaras e roupas para que turistas encenem, inadvertidamente, a idade de ouro da cidade durante dez dias. Sempre a ideia do carnaval como suspensão da realidade: no Brasil, é ignorada a distribuição injusta da renda e, em Veneza, o fim de sua independência. Passeando pela cidade, tive a impressão de que cada veneziano tem uma vida individual que reflete a história de todos os moradores que vieram antes dele.

Resolvo pagar muito caro para passear de gôndola pelos canais e me sinto mais romântico do que nunca. O gondoleiro canta uma canção em italiano que não compreendo mas que parece relatar toda história de amor que tive na vida. Engraçado como ainda me emociono com os clichês de turistas: gôndolas em Veneza me deixam todo sentimental. Esqueço meu corpo e parece que só minha alma flutua pelas águas e observa os passantes que sorriem quando ouvem o gondoleiro cantar. Abaixo da Ponte dos Suspiros, esqueço de tudo.

Chego na Praça de São Marcos e fico impressionado por ver um espaço tão amplo e grandioso após percorrer por tanto tempo lugares estreitos. O campanário se destaca atrás de tantos pombos e turistas. Inicialmente, observo o movimento. Turistas tentam alimentar pombos com alpiste vendido por espertos ambulantes e, antes mesmo que se possa distribuir o alimento, turistas são atacados por pombos. Muitos estão completamente cobertos e assustados. Eram tantos pombos que pensaram em promover uma carnificina. Venceu a opção humanitária da distribuição de anticoncepcionais. Fumo um cigarro, sinto o meu antigo amor e comento que deveriam prender os vendedores de alpiste e milho.

“Le plus élégant salon d’Europe”. Meus olhos viram tanta coisa na vida, talvez tanto quanto o que Napoleão tivesse visto até então, e ainda assim são pequenos pra ver o lugar onde ainda há mais voz humana do que o som dos automóveis e dos alarmes. E o campanário, visto do fundo, é simples e grandioso no meio do espaço vazio. Fumo outro cigarro na escadaria ao lado da praça para observar mais uma vez a piazza, rio das crianças fugindo dos pombos e não sei se respiro mal de emoção ou de velhice.

Sou só mais um a passar por aqui. Antes de mim, quantos artesãos, mendigos, príncipes, viajantes, piratas, donzelas, ladrões, apaixonados, turistas, desiludidos, pintores, apátridas, poetas, virgens, músicos, moribundos e crianças estiveram aqui? Quantas pessoas antes de mim contemplaram, tiraram fotos, observaram passantes, imaginaram quadros, correram, gargalharam, fecharam os olhos, fizeram planos e notas, choraram? Quantos mais virão?

Anoiteço sobre a Ponte Rialto e vejo o Grande Canal por onde vaporettos ainda passam, como passam táxis o dia todo pela avenida principal de qualquer grande cidade. Estrelas acima e abaixo de mim cintilam todas juntas em estranha harmonia. Um dia em Veneza é tudo do que precisávamos, meu amor. Mas vejo que você despede-se de mim quando deveríamos agora nos beijar. A noite abraça a pessoa desconcertada.

Veneza é uma cidade de frágil equilíbrio. Construída sobre uma mistura de água doce e salgada, é ameaçada constantemente por marés que vêm do Adriático entre o outono e a primavera. Seus prédios, no entanto, foram construídos sobre pilares de madeira. A madeira, na ausência de oxigênio, ao invés de apodrecer, petrificou até atingir consistência de pedra com o fluxo da água rica em minerais. A maior parte desses pilares segue intacta após séculos submersos.

Algo em mim amanhece. Minha voz rouca, meus dentes manchados, minha respiração falha e minhas pernas trêmulas, meus olhos embaçados, meus ralos cabelos, minha solidão, minha falta de memória e minha saudade subitamente desvanecem. A própria lembrança de que vim morrer numa cidade que se recusa a morrer consegue me horripilar. Estrelas mantêm seu sinuoso e eterno cintilar. Algo em mim permanece. Algo de que não posso me desvencilhar. Minha precária existência parece durar um instante que se petrifica: Pilar de Veneza.