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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estas coisas

Estas coisas me definem.
Olhando longe pela janela,
Penso sempre em minha sina
Quando se forem todas elas.

Haverá sentido em falar
De mim como sou (estarei morto?),
Em vez de outro, ignaro
Do ser anterior, agora oco?

Mortas coisas e pessoas,
Morto eu? Falso sobrevivente,
Andando a esmo inutilmente,
Corpo sem mente?

Ser sem nexo,
Renascido das cinzas
Não para ser Fênix
Mas novamente cinzas?

Do que chamar este estranho
Bando de cacos, ator sem roteiro,
Amnésia ambulante,
Sem eira, sem beira e sem paradeiro?

Chamar pelo mesmo nome?
Palavras deslizam entre entes
Díspares ao longo do tempo,
Sem algo que as dome.

Este alter ego nascido
No meio da vida, com peito
E cabeça vazios, exige
Porém algum respeito.

Que ninguém ouse
Desacatar este novo senhor, 
Esta outra coisa
Que logo sou.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

La chica de la noche

Nós nos viamos há vários anos. Às vezes, quando já estavamos juntos, alguém deixava cair uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco fomos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherinha na madrugada. (Gabriel García Márquez - Olhos de Cão Azul)

Não vou fazer uma declaração de amor. O que eu sinto é sobretudo este espanto de entender que meus olhos são olhos transparentes de sentimento quando te vejo. Quando te beijo. Nas noites insones em que conversamos, sua pele clara semeava luz no meio da escuridão, eu me perdia profundamente no seu corpo. Minha vontade era seguir suas veias evidentes e me perder eternamente para não me encontrar nem jamais saber de mim. Ser isto: seu sangue, sua carne. Te habitar.

Nossa vida foi sempre formada por sonhos que não esquecemos ao acordar. Nossa vida nunca teve coerência alguma com nossa vida juntos e nós não ligamos para isso. Você é la chica de la noche, já que eu nunca pude tê-la como belle du jour e penso que talvez seja melhor assim. Nem você pôde me ter como queria. Foi tudo da maneira que são os sonhos, foi tudo fugaz, algo se escorreu entre nossos dedos e não pudemos acreditar.

A vida sonhada é vivida, a vida vivida é sonhada. É preciso convencer a todos que façam de cada história de amor sonhada a história vivida, de cada história vivida o amor sonhado. Assim, em silêncio, porque as palavras sempre foram inúteis e confundem mentes e corações. Convidar a todos que conheçam, ao menos em sonho, a chica que conheci numa noite atormentada e que me fez dormir bem desde então. Os seus cabelos negros sobre os meus cabelos negros se misturam e compõem uma matéria que alguns chamam de sono.

Volte para mim, meu amor. Por favor, me faça dormir de novo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Jornada

Primeiro café.
Precisa ler, precisa
virar página, superar,
esquecer essa
mulher.

Segundo café.
Não consegue ler, tenta
ouvir música, abafar
coração e falta
de fé.

Terceiro café.
Volta a rotina, trabalho
em dois turnos, estudo
de noite, o que mais se
Quiser.

Quarto café.
Evita o rumor de
não mais poder ser
o que você
é.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Fio

Um fio de cabelo
é bem pequeno.
Pode variar
de alguns centésimos de milímetros
até 0,03 milímetros.

Um fio de cabelo
é bem colorido.
Pode variar,
de acordo com a quantidade de melanina,
de bem louros até muito pretos.

Um ser humano
possui muitos fios de cabelo:
pode variar de 100 a 150 mil.
Caem, cada dia,
cerca de 100 fios.

Saía para o trabalho
que provê o pão
de cada dia
com meu terno e
minha gravata

e entro no carro
e dirijo em meio à multidão
de pessoas, algumas
com pressa, outras
nem tanto.

Chego na repartição
atrasado, trabalho
acumulado sobre a
mesa, sento-me em
minha cadeira

e, da maneira
mais imprevista,
encontro um fio
de cabelo em
minha gravata.

Mais fino, mais claro,
mais longo, não era meu:
era seu.
Parte do seu corpo em
minha roupa.

Era mínimo,
quase imperceptível.
Um oceano
pode nascer de
um fio de cabelo.

sábado, 3 de maio de 2008

Farol

Estando em meio ao mar deserto
E ondulante, o incerto náufrago,
Ofegante, do inferno azul avista
Um farol, que dista dele
Muito pouco.

Com farol em proa,
Remos cansados
No remanso consolam-se
Em antever,
Em vez de temer,
Um fim.

Escalando o insulado edifício,
Construção mágica, paredes
Flácidas formam ecos
Trágicos a ouvidos
Antes moucos.

O farol, agora via-se,
Iluminava toda direção e
havia uma voz a dizer:
"Do caminho importa o que
Dele se fez". Dúbia
Reverberação.

Em sua embarcação de volta,
O olhar enevoado duvida do outrora
Límpido farol, e o determinado
Náufrago some na imensidão
Sem fim.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Distinção

Há uma diferença
Entre omitir e contar.
Entre falar e conversar.
Entre sorrir e chorar.
Entre viver e durar.

Diferença entre
Nós e laços
Laços e casos
Casos e acasos.

Há uma diferença entre
Entre na minha vida
E aguarde na sala.

Uma divergência.
Uma insistência.
Há uma diferença

Entre eu
E você

meu amor.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Viagens, Alain de Botton, Paloma, Fernando Pessoa

Amanhã, começo uma viagem relativamente longa. Vou ver paisagens que nunca vi antes, fazer coisas que nunca antes havia feito, falar outras línguas, falar português, vou cantar, ficar silencioso em alguns caminhos. Vou me sentir tímido, vou me jogar em situações, misturar-me ao todo. Durante viagens, é assim. A gente aprende mais, lê mais (no meu caso), diverte-se mais. Enfim, é impressionante a viagem. Estou lendo, agora, um livro de Alain de Botton, em inglês, The Art of Travel, que fala coisas interessantíssimas, e que merece ser lido. Agora, depois de conversar com a Paloma, que pensa outras coisas interessantíssimas, posto aqui um poema a que sempre retorno, de um poeta a que sempre todos retornam: Fernando Pessoa. Quem não leu Fernando Pessoa está tendo defeito de formação, ainda mais porque ele se contradiz o tempo todo, e a formação precisa de contradições, negações, paradoxos. E, nesse tempo de tantas dúvidas, é melhor ter orgulho de nossos erros do que viver em culpa. Enfim, Lisbon Revisited.

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ¬
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância¬,

Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Súbito

É um dia.
Melhor: é um momento.
A fantasia
(num momento!)
expira.

Você, aí,
(nesse exato momento)
é livre.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Numa noite parisiense...

Eu estava em Paris, em fevereiro deste ano, num quarto de hotel, com preguiça de sair, com ressaca. E é nesses momentos em que eu sinto como a poesia é importante na minha vida. Eu, como sempre, já havia gastado todo o dinheiro que não tinha em livros, e um deles era uma antologia de poemas franceses do século XX. Quando li esse poema do Blaise Cendrars, naquela noite, não sei bem a razão, chorei. Eu achei maravilhoso. Logo depois, gastei mais do meu limite do crédito do banco com sua obra completa. Eu realmente o recomendo. Simplesmente maravilhoso...

Quand tu aimes il faut partir
Quitte ta femme quitte ton enfant
Quitte ton ami quitte ton amie
Quitte ton amante quitte ton amant
Quand tu aimes il faut partir

Le monde est plein de nègres et de négresses
Des femmes des hommes des hommes des femmes
Regarde les beaux magasins
Ce fiacre cet homme cette femme ce fiacre
Et toutes les belles marchandises

II y a l'air il y a le vent
Les montagnes l'eau le ciel la terre
Les enfants les animaux
Les plantes et le charbon de terre

Apprends à vendre à acheter à revendre
Donne prends donne prends

Quand tu aimes il faut savoir
Chanter courir manger boire
Siffler
Et apprendre à travailler

Quand tu aimes il faut partir
Ne larmoie pas en souriant
Ne te niche pas entre deux seins
Respire marche pars va-t'en

Je prends mon bain et je regarde
Je vois la bouche que je connais
La main la jambe l'œil
Je prends mon bain et je regarde

Le monde entier est toujours là
La vie pleine de choses surprenantes
Je sors de la pharmacie
Je descends juste de la bascule
Je pèse mes 80 kilos
Je t'aime

(Blaise Cendrars)