quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Manhã

O homem acorda às sete horas da manhã e dirige-se ao banheiro para tomar uma ducha. A mulher dorme na cama por mais 20 minutos, quando finalmente decide pegar suas roupas em seu quarto, na próxima porta. Uma decisão acertada, quartos separados, suas coisas sempre previsivelmente nos lugares adequados. O homem sai do banheiro, cheiro de sabonete com loção pós-barba, refletindo, novamente em seu quarto, sobre a gravata que seus colegas de trabalho verão pendida sobre sua camisa branca. A mulher sai do banheiro já vestida, abre a porta para deixar sair o vapor e começa a maquiar-se, preocupada com o fim próximo do batom de que mais gosta, preocupada sobre a possibilidade de usar a sandália mais bonita num dia provavelmente chuvoso, preocupada com os prazos e as entregas do dia. O homem olha o dia cinza através da janela enquanto seu café esquenta no fogão. Ele pega o corredor em direção à sala para fumar um cigarro na mesa de centro. Ouve passos do casal de vizinhos saindo para levar seus filhos correndo para suas escolas, para depois seguirem para o trabalho. Eles não têm filhos, não sabem mais se querem  ter. A mulher entra na cozinha, pega a salada de frutas e duas torradas, tira uma xícara de café do bule que esfria. O homem pega suas chaves penduradas no corredor, avista a mulher na cozinha e diz “tchau” e desce pelo elevador. A mulher termina de comer suas torradas, calça suas sandálias, desce os dois lances de escada que a separam da garagem, entra no carro e vai para seu escritório. Havia uma chuva monótona caindo sobre o pára-brisa dos dois carros, que seguiam por avenidas paralelas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estas coisas

Estas coisas me definem.
Olhando longe pela janela,
Penso sempre em minha sina
Quando se forem todas elas.

Haverá sentido em falar
De mim como sou (estarei morto?),
Em vez de outro, ignaro
Do ser anterior, agora oco?

Mortas coisas e pessoas,
Morto eu? Falso sobrevivente,
Andando a esmo inutilmente,
Corpo sem mente?

Ser sem nexo,
Renascido das cinzas
Não para ser Fênix
Mas novamente cinzas?

Do que chamar este estranho
Bando de cacos, ator sem roteiro,
Amnésia ambulante,
Sem eira, sem beira e sem paradeiro?

Chamar pelo mesmo nome?
Palavras deslizam entre entes
Díspares ao longo do tempo,
Sem algo que as dome.

Este alter ego nascido
No meio da vida, com peito
E cabeça vazios, exige
Porém algum respeito.

Que ninguém ouse
Desacatar este novo senhor, 
Esta outra coisa
Que logo sou.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

La chica de la noche

Nós nos viamos há vários anos. Às vezes, quando já estavamos juntos, alguém deixava cair uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco fomos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherinha na madrugada. (Gabriel García Márquez - Olhos de Cão Azul)

Não vou fazer uma declaração de amor. O que eu sinto é sobretudo este espanto de entender que meus olhos são olhos transparentes de sentimento quando te vejo. Quando te beijo. Nas noites insones em que conversamos, sua pele clara semeava luz no meio da escuridão, eu me perdia profundamente no seu corpo. Minha vontade era seguir suas veias evidentes e me perder eternamente para não me encontrar nem jamais saber de mim. Ser isto: seu sangue, sua carne. Te habitar.

Nossa vida foi sempre formada por sonhos que não esquecemos ao acordar. Nossa vida nunca teve coerência alguma com nossa vida juntos e nós não ligamos para isso. Você é la chica de la noche, já que eu nunca pude tê-la como belle du jour e penso que talvez seja melhor assim. Nem você pôde me ter como queria. Foi tudo da maneira que são os sonhos, foi tudo fugaz, algo se escorreu entre nossos dedos e não pudemos acreditar.

A vida sonhada é vivida, a vida vivida é sonhada. É preciso convencer a todos que façam de cada história de amor sonhada a história vivida, de cada história vivida o amor sonhado. Assim, em silêncio, porque as palavras sempre foram inúteis e confundem mentes e corações. Convidar a todos que conheçam, ao menos em sonho, a chica que conheci numa noite atormentada e que me fez dormir bem desde então. Os seus cabelos negros sobre os meus cabelos negros se misturam e compõem uma matéria que alguns chamam de sono.

Volte para mim, meu amor. Por favor, me faça dormir de novo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Joaquim não conseguia andar

A mãe de Joaquim já havia tentado de tudo, mas era sempre a mesma coisa. Logo que ele começava a caminhar, desprendia-se do chão e começava a voar. Joaquim, vem pro chão agora. Mamãe está te chamando, Joaquim. Joaquim, por favor. Joaquim, vem cá. As outras mães estavam cada vez mais preocupadas. Duas crianças do prédio já haviam tentado voar como Joaquim. Os vizinhos estavam alarmados. Para segurança de todos, foram instaladas grades em todas as janelas. Não havia como continuar assim. Porém, era só o menino descer para aprender a andar que sempre acontecia o mesma coisa: ele flutuava até a altura dos ramos mais altos das árvores e iniciava diálogos musicais com os passarinhos.

Falar era outro problema. Joaquim tinha, naquela altura, um vocabulário bastante extenso, muito mais vasto do que o das crianças de sua idade. Mas não conseguia falar “eu”. Não entendia seu significado, não conseguia separar entidades. Para ele, parecia que mãe, carrinho, pai, pássaro, árvore, chocalho, assovio, carinho e tudo mais era “nós”. Ele dizia coisas como “nós vamos comer para ter fome”. Era tanta frase contraditória que dava medo. Joaquim, por favor, vem cá. Ele vinha, sempre sorrindo. E voando, claro. “Nós entremeamos, mamãe”. Era tanta palavra difícil, a mãe estava aflita com Joaquim conjugando perfeitamente verbos complicados e não sabendo falar “eu”.

Os vizinhos pensaram em fazer um abaixo-assinado para expulsar Joaquim do condomínio. Contudo, nem havia o que argumentar. Voar não fazia barulho em horários inapropriados. Tampouco havia pagamentos em atraso. Os pais de Joaquim, para complicar, eram uma simpatia só. Eram tão solícitos que ninguém tinha coragem de iniciar uma moção contra a família. E mesmo o menino nunca parava de rir. Os moradores dos andares de cima podiam ouvir até melhor a gargalhada dele do que os que os que viviam mais próximos do chão. Outro problema é que ele costumava apanhar coisas pelo caminho até o alto. Não faz muito tempo, havia entregado um pedaço de nuvem para o pai, coisa que ninguém podia explicar.

Joaquim também não tinha sentidos como as outras pessoas. Ele via música, ouvia carinho, sentia o gosto do amarelo (cor, aliás, que achava meio amarga), cheirava coisas ásperas. Odiava ser encostado pelo dó sustenido, mas depois acabou aprendendo a gostar. Percebia que o dó sustenido era roxo, e ele tinha um pouco de medo daquela cor. Com o tempo, porém, Joaquim foi se acostumando e parando de ter medo das coisas (se é que ele entendia as coisas separadamente, coisa de que todos duvidavam). Joaquim era um menino realmente diferente. Ele gostava de enrolodilhar os dedos em seus cabelos louros por causa da melodia. Joaquim falava línguas que ninguém era capaz de compreender.

Então, resolveram mandar Joaquim para diversos médicos, psicólogos e estudiosos. Começaram a conjecturar que o problema do menino era que ele ainda não conseguira diferenciar-se do resto do mundo. Afinal, ele achava que tudo era “nós”. Era tipo assim: se tudo era “nós”, tudo era uma coisa só e uma coisa bem diferente, que é muita coisa ao mesmo tempo, e aí tudo se confundia demais. Joaquim não tinha desenvolvido  na cabeça o “eu”, ao contrário dos outros meninos, para quem tudo era “eu”. E começaram a tratá-lo.

No começo, Joaquim não entendeu. Com muita insistência, deixou de sorrir por alguns minutos pela primeira vez. Não gostava daquilo. Ficou sério. Com muita, muita, mas muita insistência, passou a falar dele mesmo na terceira pessoa: Joaquim gosta de jogar bola, Joaquim come jabuticaba. Pouco a pouco, conseguiram fazê-lo falar o que queriam. Joaquim passou a conjugar verbos, mas sempre na terceira pessoa. E às vezes regredia para a primeira pessoa do plural. Ninguém entendia aquela resistência enorme do menino. Falavam que Joaquim era ele, Joaquim era ele, Joaquim era ele. E Joaquim dizia “ele”, mas eles não aceitavam. Ele ficou ainda mais confuso. Depois, passaram a dizer que Joaquim era eu, que Joaquim era eu, que Joaquim era eu.

Foi realmente uma luta.

Finalmente, um certo dia, Joaquim disse “eu”, e nunca mais conseguiu voar, para alívio de todos os vizinhos, os médicos e as professoras de sua escolinha.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Primeira entrada em um diário sem assinatura (e também a única: o diário jamais foi continuado)

Foi o frio talvez que me deu a idéia de começar a escrever tudo o que penso, diariamente se possível. No frio, as coisas ficam sempre mais claras. Este sol a pino acompanhado pelo vento frio desta cidade eternamente aberta ao horizonte, essas formas limpas e monótonas, esta sensação de solidão que o estar encoberto de roupas sempre traz, tudo isto parece me obrigar a escrever algo para que eu possa, quem sabe, entender depois. Porque eu nunca entendi o que escrevo. Passa um dia, passa outro, não consigo entender o que cada um deles quer dizer, nem o que o conjunto de todos significa. É tudo simples ou complicado demais para compreender (porque eu acho que a mente humana acredita tanto na profundidade que não consegue entender o que é banal, porque ela não quer aceitar a banalidade).

Está frio e no frio tomo café.

É preciso contar o meu dia. Bem, vamos recordar o meu dia: acordei, tomei café, pensei besteiras, andei no parque rumo ao trabalho, trabalhei (não aconteceu nada de mais, além de um comentário maldoso sobre alguns colegas, que achei desnecessário), encontrei João e Maria para tomar um vinho e comer algo, voltei para casa, assisti a um filme e agora estou escrevendo esse diário antes de desmaiar de vez na cama. Ah, essa cama já foi dividida e agora não é mais. Os filhos já cresceram, não ligam mais. Esse diário é uma receita para adiar a morte.

Este frio está me fazendo mal. E do nada me ocorre de escrever um diário? E eu sou lá Anne Frank? E estou lá à beira da morte? Eu preciso fugir do frio, é isso. Viver. Tomar decisões como nunca mais escrever.

quinta-feira, 4 de março de 2010

The outsider (fragments)


Once upon a time there was a death of a beloved one.

You come into a restaurant and order thai food inside New York. Everybody speaks English but nobody really speaks English. You listen to 546 different accents every minute including yours. And you think you also have an accent in your mother language and people often ask if you are from a specific state in your country. No, you think, you are from a neighbor state. And now you are ordering food in a nice restaurant to run away from the snowstorm that all TV stations are broadcasting. Really far away from all the tropical beaches you kind of miss. It's like you're not really you. It's like watching somebody else moving, talking, having opinions. Do you really think this? Every language you speak, every continent you go, you're somebody else. You think about your loved one and the loved one is the loved one in that language, not your really loved one as a whole. You are fragmented. You read French philosophers in Spanish just because the bookstore in Chile had it and you were there not in France. You have friends in Facebook from Mozambique that you met in the World Social Forum in Nairobi. When you really think about Paul Auster, you think of him speaking French in Paris but somehow living in the same city you are right now, ordering Italian food with his Norwegian wife on 59th. You remember last night, you barely remember last night drinking too much wine with many friends discussing the reason why we are so unsatisfied being that we all are so privileged. You keep travelling from country to country, from language to language, from different parts of your brain to other different parts of your brain. You are, no doubt about it, doing fine. A bookish fellow, a little distant from your acquaintances. Very shy, perhaps, but indeed good at hiding it. Your face in the mirror of an apartment that never made you feel like home, each day more wrinkled behind the smoke of your cigarette. Still trying to quit, for decades you have been trying to quit. You got used to not telling anyone the things that really matter for you. You convinced yourself that they are not important, not profound enough. Your face behind the smoke of your cigarette have tears sometimes. But not very often. It is because of that short story by Dostoyevsky last night, that sonata you were listening too late at night. Not very often.

There are many different ways of being somebody else in the life. Only one of being yourself, but that changes over time. You are running away. You even forget your name sometimes. You are taking another plane to another place and you like it so much. Time is passing, and you value every second. You know you can forget everything. And after a few years, it is going to be so much easier because you have never had a good memory. Going to meetings everyday, talking to people and reading books at night. Oh, you are still young. You dream of finding someone who will complete you and you know that it doesn't make any sense. You know that Aristophanes was wrong, there is not this so called your other half. And you amuse being with different halves with different parts of your personality. You once met someone who changed your life and you are never going to be like you were before. Those light green eyes are in the back of your head. Still. But not very often. Oh, you love to go to Myanmar and see the beaches and forget that once people used to suffer so much there. Sometimes, when you talk about the life you live, you sound very snob to your audience. And you know it and you know also that you despise your life. But they will never know. It is even worse to complain about a life so privileged. And you know (yes, you know a lot) that it is privileged. The problem sometimes is just you. The world has changed, no worries about climate change, no worries about crisis after crisis. Yes, you stopped reading newspaper and prefer to enjoy the smell of blooming flowers after the rain. You enjoy the moment. No Heidegger anymore, not that old urge about the future. No plans at all. All that is important is here and now. You know how to live, finally after years trying to change. No worries about your psychoanalysis therapy, no worries about who you really are. You get lost in the cities and you love when you are unable to understand what people are saying when you take the metro to a unpronounceable station. You wanted to know the world and you are doing it. Your job is not important. Not even yourself is important. You are now in complete harmony with the surroundings. You like to smile at people and expect them to smile back at you. Sometimes it doesn't happen. But not very often. Sometimes you think of yourself and you remember there are reasons for you to be sad. But, oh, those smiles back at you, they are so spontaneous. So beautiful. Not very often.

You now spend a lot of time crying, listening to music, drinking. You are never alone. People say behind your back that you cannot be left alone, and you are not so stupid not to realize it. Oh, my god, oh my god, oh my god. Where are you. You started praying again. You would never pray after your childhood, and now you talk to god every night and every morning. And you refuse to speak your own language. You do not want to be that person that spoke that language. You are not from anywhere. You are never coming back to the places you went to with her. You do not want to be yourself. Sometimes you think of coming back and starting all over again. But not very often. That part of you must die. And you are killing it, like so many others have done before you. There are real tragedies that need to be forgotten, and you have to kill that part of you which lived the tragedy. Desperation is not wanting to be oneself. It is the impossibility of being oneself. Because you do not understand why such unexpected things can happen to those who had a life so uneventful. Oh, and you used to be so happy, you remember that you could not stop laughing. You even remember one day that you thought you were going to die because you could not stop laughing. You smile sometimes remembering that. You feel so light sometimes. There are good things in life. You are reading self-help books now, so pathetic. You read astrology, Buddhism, all kinds of oriental things, to see the beautiful things that you cannot see very often lately. Where is she? You stop crying sometimes. Not very often.

Você está vivendo o momento mais feliz da sua vida e nunca pensou que pudesse ser tão feliz assim. Ri de qualquer coisa, faz planos de se casar, de conhecer toda a família, de ter filhos e parar com aquela coisa egoísta de preservar sua individualidade. Você quer imergir em outra pessoa e não faz a mínima questão de ser qualquer coisa que não seja para ela. E ela ama você de volta e vocês vão ser felizes para sempre. Não existe nada que possa mudar isso. Você vai finalmente se estabelecer e viver o resto da sua vida com a pessoa que você mais amou na sua vida. Chega de viajar, chega de mudar, chega de procurar. Você agora vai ser só você, da forma mais espontânea e simples do mundo. A felicidade é algo simples e duradouro. Nada realmente pode mudar isso, porque isso vem de você. Você tem convicção de que merece essa felicidade e de que nada pode mudar isso. Existem momentos em que finalmente decidimos como será toda nossa vida futura. Você descobriu esse momento. É maravilhoso. Não acontece quase nunca.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um dia

Um dia eu acordei e estava cansado da vida e achava que a tinha desperdiçado com coisas que não tinham nada a ver comigo e que eu devia ter sido mais autêntico e menos preocupado com o que os outros pensavam de mim e deixar meus desejos aflorarem e dar mais de mim para os outros seja bom ou ruim e que agora era tarde demais e que eu havia me perdido e agora não conseguia mais saber quem eu era nem o que queria e que era duro não saber quem se é e por isso eu devia ter feito ioga análise e devia ter sido mais saudável e parar de ouvir as pessoas que têm mais traumas e estão mais perdidas do que eu e diziam ser meus amigos e eu pensei que também estava me sentindo na verdade muito sozinho porque eu nunca conseguia ficar à vontade mesmo entre pessoas conhecidas e que no fundo ninguém nunca tinha me conhecido de verdade e que a culpa era minha já que nem mesmo eu sabia quem eu era e que isso era uma forma de egoísmo e sim era egoísmo e eu era egoísta e por isso me sentia sozinho mas que agora ia ser tudo diferente e eu ia parar de me sentir assim e ia me dar mais para as pessoas e ia parar de me preocupar com o que as outras pessoas pensavam de mim e que eu ainda tinha muito da vida para aproveitar e que só tinha desperdiçado uma pequena parte porque eu era jovem eu era jovem e ainda podia fazer muita coisa e tudo estava bem e eu tinha uma vida tranqüila com emprego casa roupa lavada filmes livros e muita música e amigos de verdade e podia pagar análise ioga academia e que eu ia ser uma pessoa diferente já que eu tinha tomado consciência eu podia ser uma pessoa diferente e todas as coisas do meu apartamento começaram a dançar e a escova de dente cantava músicas felizes com o acompanhamento das latas de lixo das xícaras e copos do lustre do móbile e o vento começou a soprar mais forte tudo dentro do meu apartamento mas aí comecei a pensar que as pessoas não mudam assim tão facilmente só acordando um dia deprimidas e depois ficando felizes em uma hora e que na verdade eu podia acabar repetindo tudo de novo do mesmo jeito que eu tinha feito até então e que eu ia acabar sendo sempre isso sempre isso sempre isso mas aí pensei de novo e lembrei-me que a consciência era o começo da mudança de tudo e que agora eu podia sim sair pra rua e dançar e que os dias ensolarados iriam finalmente acontecer e logo eu abri a porta do meu apartamento e saí todo ensolarado e sorridente para a rua e vi as crianças brincando e os pais felizes nos parques das pessoas saudáveis e aquilo tudo me contagiou de uma forma tão completa que eu pensava que sim que eu iria mudar e que a felicidade estava na esquina e que agora eu só precisava de um cigarro para aproveitar o momento e de preferência uma cervejinha só para conversar com meus amigos de verdade e peguei o rumo do bar mas aí pensei que não era bem assim que eu estava me perdendo de novo e que eu era uma nova pessoa e voltei e quando eu estava chegando ao parque das pessoas felizes começou a chover e eu voltei para o meu apartamento silencioso e ao som da água caindo lá fora resolvi dormir de novo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Princípio do autor (ou "Conto em forma de cebola")

O protagonista da história é um diplomata que escreve textos com pretensão literária na internet. Mora em Brasília. O autor desta história é um arquiteto francês, admirador de Niemeyer. Portanto, a cidade em que se passa a história. Como fala francês, escolhe alguém que provavelmente seja versado em francês. Portanto, a profissão. O autor chama-se Xavier. O personagem, Matheus. A história se passa entre Brasília e Paris. O romance trataria da crise vivida por uma pessoa sem lugar fixo, que se sente fora de lugar em seu próprio país e que busca sua casa em outro lugar. Uma busca provavelmente fadada ao fracasso. Ou ao sucesso, não pela mudança de geografia, mas por alguma descoberta interior, que somente será possível mediante um grande acontecimento a ocorrer no meio da história. O escritor faz um rascunho, com personagens, lugares, diálogos inacabados, ideias pela metade. Não há enredo propriamente dito. O arquiteto-autor está atolado em mil projetos simultâneos por conta das grandes reformas urbanas planejadas pela atual administração francesa, que busca repetir os feitos de Haussmann. Para de escrever e eventualmente esquece o esboço. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o arquiteto, que é personagem de uma história que se passa entre Paris e Brasília. O autor, Matheus, é um diplomata brasileiro que namora uma arquiteta, tenta aprender francês, admira Paris e não tem muito o que fazer nos fins de semana que passa na cidade, a trabalho. Portanto, as cidades em que se passa a história. Portanto, a profissão. O enredo pareceria, de início, tratar de um arquiteto que tenta escrever uma história como passatempo em seus breves períodos de descanso dos inúmeros projetos que o preocupam. Depois, descobre-se que o autor é, na verdade, manipulado por seu próprio personagem, que eventualmente o encontra num café no Boulevard Haussmann. O personagem, aliás, tem o mesmo nome e profissão do autor, embora com personalidade bem diversa do que o autor acredita ter (e que, não obstante, entende). Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o diplomata e o arquiteto, entre Brasília e Paris, alternando-se os papéis de autor e personagem entre um e outro. Trata-se de um esboço de conto de uma autora brasileira, arquiteta modernista apaixonada em Niemeyer e namorada de um diplomata brasileiro que gosta muito de Paris. Daí, as profissões, os gostos, as cidades. A arquiteta modernista faz um conto pós-moderno em que desafia os limites entre realidade e ficção, faz uma narrativa com discurso indireto livre em que nunca se sabe quem fala: se um narrador onisciente ou se um dos personagens-autores. As diferenças entre Paris e Brasília, durante as longas discussões sobre projetos urbanísticos e edifícios, desaparecem em diversas ocasiões. Nota-se o carinho que ela tem pelos personagens, inspirados em pessoas com quem conviveu durante muito tempo. E essa história criada pela arquiteta, nem se sabe dizer se acaba ou não, visto que a própria estrutura é propositalmente a de um conto inacabado. Como um prédio finalizado aberto a novas intervenções. O esboço do conto (que é sua forma definitiva) nunca foi publicado e é esquecido na gaveta de baixo de um armário, enfim abandonado quando ela se muda do apartamento. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com o diplomata, o arquiteto francês e a arquiteta brasileira. O autor é um professor universitário deprimido que encontrou um esboço de conto de uma arquiteta brasiliense de nome espanhol, sobre um diplomata brasileiro e um arquiteto francês, na gaveta do armário do quarto do apartamento para o qual se mudou. Ele apaixona-se pela autora e resolve transformá-la, então, na protagonista de um romance que decide escrever. Descobre-se, depois, que o autor é um dos personagens da história, um filósofo que resolve sabotar a relação entre o diplomata e a arquiteta, por meio de cartas escritas a um arquiteto francês admirador de Niemeyer, sob o pseudônimo de um professor universitário. O romance torna-se, no meio da história, epistolar. Mas o diplomata consegue fugir da história escrita por este filósofo, agora transformado em personagem, cujo único trabalho conhecido foi uma tese sobre o fim da utopia modernista por meio da análise de projetos de arquitetura para edifícios a serem construídos em Paris, por meio dos quais Sarkozy busca superar Napoleão III. O diplomata, no entanto, decide não reescrever o esboço de seu romance após seu manuscrito desaparecer no processo de sua remoção para Praga. Fim da história.

Ou, talvez, continua-se com um novo autor, engenheiro em Roterdã que encontra, num navio cheio de contêineres destinados à Europa do Leste, manuscritos em uma língua que não entende. Descobre tratar-se de português e resolve contratar uma brasileira, arquiteta modernista de nome espanhol, para traduzir os escritos para ele. No entanto, um arquiteto francês e um diplomata brasileiro, amigos de longa data de Paris e atualmente radicados em Amsterdã...

E assim indefinidamente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Saiba

- Catarina, minha filha, apesar de você ser só uma menina, tenha dó do seu pai e saiba que não se pode repetir tudo que se ouve por aí. Nada de pudo, mido, pido, despido e impido, cabo, fisso e outras coisas que eu não digo. Não quero saber de nada disso. Soo não soa nada bem e me faz até suar. Fale meço, eu te peço. Ouvo dá dor de ouvido. Fale acodo e será um deus me acuda. Esse mundo está lotado de poluição e violência, televisão, gente sem vivência, barulho, burrice, caretice e comida com prazo de validade vencido. Não vá se perder por aí. Olha, sua mãe já deve ter chegado. Querida, fomos no centro. Preferi fazer compras do que manter o combinado. Fica tranqüila, eu já truxe elas pra dentro. Ouviu bem, Catarina, entendeu tudo?


- De novo, papai, de novo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mudo

Alguém bate à porta insistentemente. Ouço meu nome com um leve desespero no tom de voz. Lembro-me de uma passagem de um livro cujo narrador principal, no momento em que finalmente consegue ficar com sua amante, diz que não tem palavras para descrever aqueles dias felizes. Que não há nada a dizer sobre a felicidade. A escrita nasce de algum mal. Algo parecido às teses sobre a relação da escritura e a doença em Thomas Mann. Escrever é estar doente. Ouço choro ao pé da porta, talvez seja melhor abrir, mas não me levanto.
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Em momentos tempestuosos, tive vontade de escrever infinitas páginas sobre a solidão, o cinismo e a hipocrisia, a incomunicabilidade, o desencontro, o papel do acaso e a falta de sentido da existência. Em momentos tempestuosos. O serviço de meteorologia prevê muito sol nos próximos dias. Escuto passos cada vez mais distantes.


Minha felicidade é uma comunhão com o mundo. Me sinto tão integrado, é como se não fosse eu mesmo mas parte de tudo. Não há autoconsciência, mundo interior. Eu não existo quando sou feliz, mas existo. Meu sorriso é desaparecimento.


Lembro-me então das milhões de teorias escritas sobre o silêncio tão prematuro de Rimbaud, que preferiu o tráfico de armas num continente inóspito. Algo mais tranquilo, mais simples. Le silence éternel de ces spaces infinis m’effraie. Pas le silence intérieur (la paix intérieur). Uma charge engraçada de um escritor com bloqueio criativo que cria um movimento literário fundado no silêncio.


Novamente, batidas e um abre-por-favor-eu-te-peço. Vou abrir a porta, tenho algo a dizer. Algo que justifica meu silêncio nesse tempo em que me perdi. Mas é preciso entender que não abri a porta porque havia uma vida a viver e que, quando vivo, fico muito ocupado e não tenho nada a dizer. Nada importante, pelo menos. E não gosto que me obriguem a nada. Principalmente a declarações solenes. Mas agora eu quero falar. Só preciso lembrar o que acabei de pensar e esqueci. Vou respirar fundo e abrir a porta. Se eu fosse você, deixaria de sorrir ao ouvir que estou me aproximando. O negócio é o seguinte.

sábado, 2 de maio de 2009

Veni Vidi Venezia


(Texto inspirado em fotos de Monique Renne)

Desembarco durante uma manhã ensolarada no aeroporto de Veneza, que na verdade está em Treviso, saindo do voo barato que não condiz com a dignidade que sempre procurei ter. Se bem que, aos 80 anos, não é fácil manter a postura e o andar elegante de antigamente. Veneza, a cidade mais romântica do mundo, repetem sempre. E venho aqui justamente por ter perdido o grande amor da minha vida há poucos meses.

Passearei por Veneza, no entanto, em sua companhia. O meu grande amor era uma improvável mistura de suave areia clara, voluptuosa praga e beira de precipício: precioso achado. Ela partiu tal como viveu: apressadamente. Sequer tive chance de me despedir e utilizarei essa viagem derradeira para que sua memória em mim me acompanhe pelos lugares por que já passei há tantos anos atrás.

Desço do trem e lembro-me que Veneza é uma cidade construída sobre mais de cem ilhas e, naturalmente, isso não poderia resultar num desenho muito lógico. Abro seu mapa e enxergo um quebra-cabeça, um confuso mosaico com um canal em forma de “S” que o atravessa. Talvez a relação com o amor tenha derivado desta desordem, da possibilidade constante de se perder em suas inúmeras ruelas e pequenos canais para nunca mais se achar, da abundância das águas que tanto lembram a fertilidade.

Acho tão interessante conhecer cada rua dessa cidade pequena e infinita e penso ser uma pena que quase todos os turistas acabem seguindo apenas as placas insistentes indicando a Praça de São Marcos e a Ponte de Rialto. Algo como ocorre no Louvre, com seus corredores lotados em direção à Monalisa e à Vênus de Milo. Recuso-me a seguir o roteiro pré-fabricado e atravesso a cidade e converso por horas com meu amor perdido. Namoramos pelas ruazinhas, nos perdemos, nos achamos. Muitos amantes devem ter feito o mesmo, vivido sentimentos parecidos ouvindo os gondoleiros que passavam cantando canções de amor em italiano. Passando entre casas amontoadas, com tijolos à mostra para demonstrar que a delicadeza pode conviver com uma leve decadência. Passando por escadas cujo final parece convidar-me a abandonar a terra e viver nas águas.

E é somente dessas ruazinhas que se pode observar os venezianos. Há tantos velhinhos que nos sentimos, meu amor e eu, em casa. Quase todos já passaram pela maior parte da vida: os artesãos, os passantes, os donos das lojas de souvenirs e dos restaurantes e dos cafés e das maravilhosas sorveterias italianas, os cabeleireiros e seus clientes e até os mendigos. Os venezianos combinam com Veneza, com sua arquitetura e com sua longa história. Andam sem pressa, levemente inclinados, com suas sacolas de compras de pequenos mercados espalhados por entre as casas. E seguem sua vida nessas ruazinhas como se os turistas fossem um detalhe, uma parte da paisagem. Um detalhe marcante para os que passam por lá pela primeira vez: os venezianos expõem sua intimidade por meio dos inúmeros varais suspensos nas ruas com suas roupas e artigos mais pessoais. Eis que temos acesso a suas vestimentas, a possíveis manchas de amor na roupa de cama e aos restos de alimentos sobre toalhas de mesa. Os venezianos recusam-se a abrir a cozinha de seus restaurantes após a hora costumeira do almoço. Não ligam se perdem o dinheiro de milhões de turistas esfomeados: a vida segue segundo o hábito, não segundo o tempo do dinheiro que prevalece em praticamente todo o mundo. Eu, que não consigo seguir horários quando estou de férias, passei fome. Mas pude usar isso para tomar mais um sorvete na tarde quente de verão.

Os venezianos têm o orgulho típico de quem passou por um tempo grandioso e se negam a fazer concessões ao presente. Passo por uma loja com miniaturas de gôndolas, todas com uma plaquinha escrita “Venezia”. Pergunto se há alguma escrita “Italia” e o dono da loja se irrita e tenta me esclarecer que Veneza não faz parte da Itália. Refere-se, aliás, à “República de Veneza”, que deixou de existir antes mesmo da unificação italiana, já que a cidade perdeu sua independência com a invasão de Napoleão de 1797. Logo após um século de ascensão e durante o qual foi considerada a cidade mais refinada da Europa. A invasão como um trauma, um recalque na mente de cada veneziano. A República de Veneza está viva no imaginário de cada um de seus cidadãos como se os últimos 200 anos não tivessem acontecido.

O carnaval é um exemplo: foi interrompido em 1797, esse ano trágico, e retomado em 1980. Os venezianos usam, durante o carnaval, vestimentas típicas de seu saudoso século XVIII. Parte deles vive de fazer máscaras e roupas para que turistas encenem, inadvertidamente, a idade de ouro da cidade durante dez dias. Sempre a ideia do carnaval como suspensão da realidade: no Brasil, é ignorada a distribuição injusta da renda e, em Veneza, o fim de sua independência. Passeando pela cidade, tive a impressão de que cada veneziano tem uma vida individual que reflete a história de todos os moradores que vieram antes dele.

Resolvo pagar muito caro para passear de gôndola pelos canais e me sinto mais romântico do que nunca. O gondoleiro canta uma canção em italiano que não compreendo mas que parece relatar toda história de amor que tive na vida. Engraçado como ainda me emociono com os clichês de turistas: gôndolas em Veneza me deixam todo sentimental. Esqueço meu corpo e parece que só minha alma flutua pelas águas e observa os passantes que sorriem quando ouvem o gondoleiro cantar. Abaixo da Ponte dos Suspiros, esqueço de tudo.

Chego na Praça de São Marcos e fico impressionado por ver um espaço tão amplo e grandioso após percorrer por tanto tempo lugares estreitos. O campanário se destaca atrás de tantos pombos e turistas. Inicialmente, observo o movimento. Turistas tentam alimentar pombos com alpiste vendido por espertos ambulantes e, antes mesmo que se possa distribuir o alimento, turistas são atacados por pombos. Muitos estão completamente cobertos e assustados. Eram tantos pombos que pensaram em promover uma carnificina. Venceu a opção humanitária da distribuição de anticoncepcionais. Fumo um cigarro, sinto o meu antigo amor e comento que deveriam prender os vendedores de alpiste e milho.

“Le plus élégant salon d’Europe”. Meus olhos viram tanta coisa na vida, talvez tanto quanto o que Napoleão tivesse visto até então, e ainda assim são pequenos pra ver o lugar onde ainda há mais voz humana do que o som dos automóveis e dos alarmes. E o campanário, visto do fundo, é simples e grandioso no meio do espaço vazio. Fumo outro cigarro na escadaria ao lado da praça para observar mais uma vez a piazza, rio das crianças fugindo dos pombos e não sei se respiro mal de emoção ou de velhice.

Sou só mais um a passar por aqui. Antes de mim, quantos artesãos, mendigos, príncipes, viajantes, piratas, donzelas, ladrões, apaixonados, turistas, desiludidos, pintores, apátridas, poetas, virgens, músicos, moribundos e crianças estiveram aqui? Quantas pessoas antes de mim contemplaram, tiraram fotos, observaram passantes, imaginaram quadros, correram, gargalharam, fecharam os olhos, fizeram planos e notas, choraram? Quantos mais virão?

Anoiteço sobre a Ponte Rialto e vejo o Grande Canal por onde vaporettos ainda passam, como passam táxis o dia todo pela avenida principal de qualquer grande cidade. Estrelas acima e abaixo de mim cintilam todas juntas em estranha harmonia. Um dia em Veneza é tudo do que precisávamos, meu amor. Mas vejo que você despede-se de mim quando deveríamos agora nos beijar. A noite abraça a pessoa desconcertada.

Veneza é uma cidade de frágil equilíbrio. Construída sobre uma mistura de água doce e salgada, é ameaçada constantemente por marés que vêm do Adriático entre o outono e a primavera. Seus prédios, no entanto, foram construídos sobre pilares de madeira. A madeira, na ausência de oxigênio, ao invés de apodrecer, petrificou até atingir consistência de pedra com o fluxo da água rica em minerais. A maior parte desses pilares segue intacta após séculos submersos.

Algo em mim amanhece. Minha voz rouca, meus dentes manchados, minha respiração falha e minhas pernas trêmulas, meus olhos embaçados, meus ralos cabelos, minha solidão, minha falta de memória e minha saudade subitamente desvanecem. A própria lembrança de que vim morrer numa cidade que se recusa a morrer consegue me horripilar. Estrelas mantêm seu sinuoso e eterno cintilar. Algo em mim permanece. Algo de que não posso me desvencilhar. Minha precária existência parece durar um instante que se petrifica: Pilar de Veneza.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Tatuagem

- Bom dia!
- Bom dia. Até que não acordei com ressaca. Queria só tomar um banho antes de sairmos.
- Tá. Acho que é melhor você já levar tudo e deixar no locker da estação central. De lá, fica mais fácil depois ir pro aeroporto.
- Tudo bem.
Engraçado como mal vejo meu corpo quando faz frio. Até estranho ver minha pele de novo. Sempre avalio se estou igual, se ainda tenho o mesmo corpo desde a última vez que o vi. Pele seca, sempre, no inverno. Acho que não estou acostumado. Quem sabe, se eu morasse aqui por anos, minha pele mudaria.

(Um acesso. Meu interior. Como chegar? Se eu cortasse minha pele inteira, veria primeiro fluir sangue e, a seguir, minhas entranhas, meus órgãos, um a um, mostrando suas formas e superfícies meu coração, meu cérebro, fígado, pâncreas, fêmur, masséter, estômago. Assim por diante. Meu corpo׃ eu?).

- We’re leaving! Goodbye!
- Oh, I didn’t know it. Well, t’was very nice to meet you.
- It was very nice to have met you. Hope you enjoyed the party last night. Come back soon?
- Well, hope so. I liked the party very much. So, bye bye!
- Goodbye. Have a nice trip back. You’re going to Geneva, right?
- Yeah. Then I go back to Brazil.
(…)
- Eles são legais, né! O Luke é muito gente boa.
- São, sim. Acho que ele ficou meio perdido ontem. Talvez mais perdido do que eu, que não conhecia ninguém.

(Quem eu realmente sou. Ao proferir a frase, ao proferir qualquer frase, penso imediatamente sobre ela como algo exterior a mim. Passado, não presente. A frase tentou me definir, não define mais. Um eu que não existe mais).

- Você está chateado por causa de ontem?
- Não, nossa, nem me lembrava mais disso. Parece que tá mais frio hoje.
- Eu achei o contrário. Vamos ver se dá pra gente passear um pouco. A gente come num restaurante afegão baratinho, 5 euros e pode comer o que quiser. Depois passeamos um pouco.
- O restaurante é bom? Tipo... é barato e bom?
- Claro, a gente adora.

(Tenho comigo minhas opiniões. E as dou numa série infinita e enjoativa de palavras. E logo após dar essas minhas opiniões, penso: mas é essa a sua opinião? Sou cheio de opiniões sobre minhas opiniões. E opiniões sobre elas, também. Sempre contraditórias. Eu simplesmente não me reconheço).

- O aeroporto é mais distante do que eu me lembrava. É engraçado ver a paisagem pela janela. Sempre acho triste essas árvores sem folhas. Tudo se resume a tons castanhos e cinzas. No Brasil, isso nunca acontece. Por outro lado, no verão europeu, parece haver mais árvores coloridas: vermelho, amarelo, verde, branco. No Brasil, as árvores quase sempre se resumem a vários tons de verde.

(Papel de mim mesmo, representação de mim mesmo. Performance. E um espectador de mim mesmo, lugar privilegiado na platéia vazia e escura de um enorme teatro. Apreciei algumas de minhas pecas, deplorei outras. Vez por outra, não reconheço o protagonista. Tenho a impressão de que não sou o autor das pecas em que o ator atua. Ao tomar consciência disso, revolto-me. Quem são esses eus em mim? Math/eus. O princípio da identidade falhou comigo. Eu = outro= não-eu. E esses “eus” revezam-se tão depressa, não há nada que os controle ou que dê sentido a eles. Isso é outro clichê. Isso já foi dito antes. “A característica da consciência é ser uma descompressão de ser; é impossível com efeito defini-la como coincidência consigo” - Sartre. Eu odeio esse eu comum).
.

- Olha, seu vôo foi cancelado! Oba, você vai ficar mais um dia!
- Nossa, não acredito! Eu tenho de trabalhar amanhã!
- Klfsdmkwfmk afmkpaggfrmo pvgfrmpvg...
- I’m sorry, I don’t speak German.
- Oh. Well, sir, we can put you in another flight to Geneva, with connection in Munich, instead of Zurich.
- Is it today?
- Yes. At 7pm. Would that be ok?
- Sure.
- Can you register the miles on this company?
- TAM, of course. My Brazilian friends always tell me they don’t like TAM.
- Yes, it’s true. A few friends of mine think alike. But it’s the major company, we cannot escape it. Some people are afraid because of a terrible accident.
- Your bording pass, sir.
- Well, I got upgraded. Business class. Thank you. Goodbye.

(E ainda há tantos outros. Serão todos assim? Não posso saber. Os outros existem? Estarão em mim? Sempre que me apaixono, tendo a pensar como a pessoa por quem estou apaixonado. Penso que penso como ela pensa. Ou seja, penso que penso como eu penso que ela pensa. E assim indefinidamente. Se é que realmente pensamos alguma coisa. Sinto-me triste e perdido quando acho que ela pensa diferente de mim. Sinto-me pior, porque eu queria ser sempre como a pessoa por quem estou apaixonado. Eu a quero em mim. Eu = ela? Não, isso é impossível. E nem seria desejável).

- Dá tempo pra gente tomar mais um café. Vamos ali em cima.
- Nossa, um café por 4 euros. Que absurdo!
- Sabia que você ia fazer esse comentário, haha! Em aeroportos, tudo é mais caro.
- Claro, eu sou sem grana, meu filho!
- Eu pago o café.
(...)
- Bem, agora eu vou mesmo. Vou pra área de embarque.
- Tchau. Te amo.
- Eu também. Vou ficar com saudades.

(Se me canso, é o oposto. Penso que penso exatamente o contrário do que penso que ela pensa. Eu sou tão irritante, inclusive para mim. Por outro lado, é por saber que não existe uma pessoa que seja o contrário do que aprecio – ao qual me identifico – é que não consigo odiar ninguém. Não por muito tempo, ao menos).

Olho para trás, ela está chorando. A sentimental da família. Quer dizer, nem é. A família é sentimental, acho. A única que demonstra. A gente sempre discute e, no final, sempre sinto falta dela. Impressionante. Queria ser como ela, no fundo. Demonstrar as coisas que sinto. Eu choro, mas só por dentro. Não posso mais ver a cena. Aceno: “tchau”. Dirijo-me à sala de embarque, já com saudades.

(A mesma coisa com o amor. Sei que só amo totalmente pessoas ideais. Quando confronto a pessoa que amo, dia após dia após dia, percebo que não amo tudo nela. Talvez esse seja o desafio do amor, do amor que quer durar. Ser bom diante do que não se é ou se gosta. Tentar entender o que não é eu. Em nome do que há de bom no amor. Neste amor concreto, claro. O amor platônico é um erro. O amor romântico é um erro. Eu já errei com tanta gente, tanta gente errou comigo. Se é que me amaram. Talvez tenha sido tudo um sonho).

- Do you have a laptop? If so, you have to take it from there.
- I have no laptop here. Do you think I have to take off the watch?
- It’s not necessary. Please remove any metal objects you have in your pockets.
- Ok, thank you.

(O amor concreto é uma aposta. Eu não acredito em “eu”. Se “eu” existe, não o conheço. Esse eu não é alcançável, muito menos definível. A tentativa de teorizar o eu é uma tentativa de controle que não aprecio e ao qual meu eu sempre foge. E teorizar o outro, ainda menos. “Eu amo você”: a frase não tem sujeito nem objeto estáveis. Mas o verbo - esse sentimento – existe: amar é um verbo transitivo de um algo que não é esse algo a outro algo que não é esse algo. Ainda assim, o amor existe. Não sei dizer como, mas já o senti. O amor é a conversão da ignorância em virtude. O amor, realmente, é uma aposta. A gente pode ganhar ou perder. Não importa o resultado, a aposta em si é uma vitória. Quando penso, aqui sozinho no meio de um país estranho, quando penso naquela vez em que você me sorriu, bem pertinho do meu rosto, eu sorrio junto. E você nem está aqui, está tão longe. Você exerce tanto poder sobre mim. Você está em mim. Como? Eu gosto disso).

- Your passport.
- There you go. There’s a revalidation on page 18.
- Revalidation? I’ve never seen something like it…
- Well…
Silêncio. Por alguma razão, ele olha todos os carimbos espalhados pelo passaporte. Lê a extensão da validade do meu passaporte por muito tempo, como se ele fosse revelar-se com o tempo. Olha para o meu rosto. Folheia novamente o passaporte.

(Resolvi converter minha ignorância completa a respeito de mim mesmo e do mundo numa série de apostas - ou seja, de atos. Porque eu sei que, como sofro, outras pessoas também sofrem. Mais a maioria das pessoas tem bem mais motivos – reais - para sofrer do que eu. Muitas vezes, penso que minha situação privilegiada me retira o direito de sofrer. Mas eu sou só um ser humano e não consigo ser sempre o que eu acho que deveria ser. Falho, incompleto. Eu acredito que, diante do sofrimento, que é real - sentimentos são reais -, a falta de fundamento do agir - que é só uma idéia -, que poderia justificar uma ética baseada na inércia, é insignificante. Em respeito aos que sofrem, resolvo tomar posição e agir.)

- Ok.
- Thank you.
Ele liberou porque meu passaporte é oficial. Se fosse o regular, eu provavelmente seria encaminhado ao chefe dele. Se fosse o normal, o desprezado passaporte de país em desenvolvimento seria visto como o documento de um imigrante ilegal. Mas meu passaporte é de categoria superior. É de imigrante ilegal de categoria superior. Ele tem de pensar mais antes de impedir minha passagem.

(Sei que não tenho fundamentos sólidos, além da própria crença de que os outros sentem coisas similares ao que sinto. Estando esses outros aqui ou em outro lugar ou mesmo em mim. Eu posso estar errado em agir, ou agir de modo errado. Quero ser humilde diante disso. Mas algumas vezes me esqueço, por isso já me desculpo. Muitas vezes aferro-me a uma opinião e penso que ela é a melhor. Muitas vezes, sou mesquinho, orgulhoso, arrogante. Ainda que não deixe transparecer. Tenho preconceitos. Em várias ocasiões, como a maioria das pessoas, adoto opiniões pré-fabricadas por ter preguiça de pensar. Por ser muito mais cômodo pensar como todo mundo pensa. Porque as pessoas gostam mais de você quando você pensa como elas. E eu, como todo mundo, também quero ser amado).

Os passageiros ao redor, na classe executiva. Um nerd alemão rico que estuda um livro, aparentemente de física. Uma executiva? Bonita. Um pouco mais velha. Sim, eu quero champagne. Sim, eu quero comida de avião melhor do que a que o pessoal de trás irá comer. Vinho. Eles cancelaram meu vôo. Precisam me compensar, me tratar bem.

(Agir porque quero ter a impressão - mesmo que falsa - de que sou o autor da minha vida. Quero pensar que estou onde estou por causa de minhas escolhas, não pela falta delas. Porque eu também quero ser feliz, eu tenho de escolher coisas concretas que fazem bem para mim. E porque também é preciso, no mínimo, me defender das agressões dos outros. Ontem mesmo, tomei a decisão de não mais conversar com alguém de quem já gostei muito. Descobri que ela zombou de mim por aí. É muito possível que ela seja uma pessoa melhor do que eu. Reconheço que sou ridículo muitas vezes - eu poderia enumerar diversos aspectos ridículos desse meu eu bem mais ridículos do que o que ela lembrou. Do fato de ela poder estar certa, porém, não segue que eu deva conviver com - muito menos admirar - quem esteja me ridicularizando. Porque quem faz isso com uma pessoa o faz com mais. Porque é muito fácil se deixar influenciar por essa atitude. Porque quero ser tratado como ser humano, não como objeto. Porque tenho o direito de escolher).

- Ladies and gentlemen, we just arrived at Munich airport. The local temperature is 7 º C...
Etc, etc, etc.

(Minhas sensações revezam-se mais uma vez. O ser humano - por extensão, eu - não é estável e não é definível. Por não acreditar em essência de ninguém, por não acreditar em almas, penso que o julgamento de um ser humano é uma impossibilidade. Mas o ser humano age. Somente atos podem ser julgados).

Só mais um vôo. Pouco tempo de conexão. Todo mundo lendo na área de embarque. Eu, também. Finalmente, entro no vôo para meu destino. 50 minutos. Tempo para servir outro sanduíche ruim. Pelo menos eu já considero-o minha refeição noturna. Chego.

(Só agora me lembro porque estou pensando essas coisas: por causa da tatuagem que estou pensando em fazer. Tatuagem é algo que vai, por um lado, contra tudo o que pensei hoje. Inscreve um sinal permanente sobre meu corpo - sobre mim - a partir do qual ele pode ser julgado. Não gosto de ser julgado. E a permanência do sinal contrasta com a decadência e envelhecimento do corpo. Pode tornar-se uma ridícula tentativa de juventude num corpo já muito marcado pelo tempo. Mas compensa atormentar-me por um futuro que possa nunca ocorrer? Por outro lado, a idéia da tatuagem é escrever, no original grego, uma frase escrita na entrada de um templo e que mudou bastante a história: conhece-te a ti mesmo - γνῶθι σεαυτόν. Um projeto condenado, de antemão, ao fracasso. E que, não obstante, deve ser sempre empreendido. Um trabalho de Sísifo que se altera a cada vez que o realizamos. Nem sei se a farei. Não sei o que pensarei amanhã. Por isso meu medo de tatuagens. Eu não concordo com o meu eu do passado).

- Thank you very much.
- Thank you, sir. Good night.
- Good night.

(E estes pensamentos de hoje também se perderão. A própria tentativa de me definir parece mais nobre do que sou. Eu simplesmente não me reconheço. Sou cheio de defeitos, não consigo guiar-me pelos ideais que já proferi. Acredito nas coisas concretas, não em idéias ou opiniões. Eu quero voltar às coisas. Dizer uma falha metafísica é dizer nada. Minhas falhas são concretas. Um problema sério com horários, dormindo e acordando tarde, chegando atrasado ou mesmo não indo a eventos a que prometi ir. Eu falo demais. Escrevo demais. Sou ingênuo em relação às pessoas. Faltei a muitas lições de etiqueta à mesa. Aliás, faltei a várias aulas durante minha vida. Começo e não termino tantos livros - minha estante está repleta de livros que não li. Sou irônico em ocasiões inadequadas. Não tenho um milésimo da sensibilidade, inteligência e criatividade de várias pessoas que conheço. Sou preguiçoso. Cometo erros de português e, não obstante, odeio revisar meus textos).

Será que a bagagem chega dessa vez? Sempre tenho dúvidas se o tempo de conexão foi suficiente para que a bagagem seja transferida para o outro avião. Tá demorando... O que tenho mesmo dentro da mala? Pelo menos, é pouca roupa. Não me lembro de nada de valor. Presentes. Ela vai chegar, vai chegar, vai chegar. Ah, finalmente. Já me via reclamando, mais uma vez, da bagagem. Sei o procedimento de memória. Sei o modelo da minha mala de memória. O comprovante da bagagem está no meu bolso.

(Ao menos tenho o conforto de saber que não uso esses defeitos para argumentar que “sou assim”, que as pessoas têm de me aceitar como sou. Tenho enorme dificuldade em mudar, mas ao menos tenho intenções. Não recrimino, além disso, aqueles que esperam – com razão – que eu não vá chegar na hora determinada. Não argumento em contrário. E como poderia, aliás? O único argumento seria fazer o oposto do esperado. Surpreender os outros. Surpreender a mim mesmo).

- Votre passeport.
Silêncio durante um tempo, enquanto ele folheia meu desacreditado passaporte.
- Vous êtes ici à quoi faire?
- J’suis ici à travail, pendant une semaine de plus.
- À travail... Ok.
- Merci. Bonne soirée.
Silêncio.

(Ora, não tenho do que reclamar. Agora mesmo, subitamente, lembrei-me mais uma vez do sorriso dela, penso que gosto de olhar os olhos dela e de fitar os olhos dela, quando estão bem próximos dos meus. Ela é a menina mais linda do mundo. Basta gostar de alguém, é essa impressão. E não muda: tenho certeza de que ela é a menina mais linda do mundo. E tenho um ataque de riso, sozinho aqui no meio do não-lugar que é um aeroporto, e vejo o quanto sou bobo por acreditar em coisas que sei não serem reais. Contente por saber que estou feliz com as coisas tais como estão, que vivo cada vez mais o presente e renuncio a um futuro que possa nunca se concretizar. É preciso gostar do caminho. Penso mais uma vez nos olhos dela, no quanto eu gosto de estar ao lado dela e concluo que, afinal, às vezes é muito bom eu ser eu. Mesmo que isso seja tão instável, que signifique pouco, afinal. E esse sorriso vale esse momento. A felicidade desse momento. Só isso existe. A vida é uma viagem longa para lugar algum. Travessia).

- Bonsoir
-Bonsoir.
- Est-ce que vous pourriez m’informer si les trains vers la gare Cornavin passent encore?
- Oui, jusqu’à minuit. Vous descendez les escaliers au fond et voilà
- D`accord, madame. Merci beaucoup. Bonne soirée!
- Au revoir.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

World Social Forum fiction (I)

Sou faxineiro na Casa das 11 Janelas, em Belém, e gasto meu tempo livre com duas coisas: lendo livros velhos e colecionando coisas interessantes que encontro quando limpo o café. Com o Fórum Social Mundial, minha coleção engordou bastante. Coloco o texto abaixo, última entrada num caderninho preto, porque não consigo lê-lo, minha instrução não permitiu nem mesmo terminar o segundo grau, mas tenho esperança de que alguém veja beleza no que não sou capaz de decifrar. Muita gente veio aqui querendo mudar o mundo, eu só queria mudar um pouquinho de mim mesmo, aprender mais coisas, conseguir conversar com esse pessoal estrangeiro que veio aqui e saber o que eles pensam de nós. Talvez, ao ler isso, alguém possa me dizer mais.
*
I am stuck by the rain in the most wonderful place, right beside you. I write to you as you write something I will never know. You probably wander about past events, distant memories of other people and places. I write about you and dream we are corresponding somehow.

I cannot think of any small solution to hunger and poverty. One billion people starving. Perhaps, 30 billion dollars could solve the problem, but we prefer to spend trillions on arms. The difference between the income of populations in developed and developing countries keeps getting bigger, an international crisis which will probably make it even worse. A food crisis, an environmental crisis, which will be followed by another one. A whole continent left alone: a desert. No one agrees on what to do. Perhaps a conspiracy not to do anything. Just another tragedy. Human misery. Let us go on with our lives.

What could I do? My insignificant NGO about which nobody gives the shit. Try, perhaps, a career in the government. It is not the time to small solutions, to charity. Perhaps I am going back to the time when charity was the only relief to the wretched. An old-fashioned post-modern wannabe. Mistaken.

I like your blue scarf and your peculiar face. Imagine an everlasting future with you, photographs of the family by the fireplace which will never be taken. All the love stories in my head, only. No concrete existence yet experienced.

Eventually the rain will cease, you will follow your way, and I will follow mine. I will forget you, eventually. I live in a world with infinite possibilities and I am always aware of it and I suffer since I cannot live them all, I have one life, everything is continual and cannot bifurcate, cannot multiply. One single thread: my one and only.

Time ought to be lived as simultaneity and as continuity. Then all possibilities would be lived and I would not be only an I but a we. And everything would conspire now for us to live this future that will not happen and I will never say that I never forgot you were wearing a blue scarf the day I met you and I fell in love with you. Time, nevertheless, is useless and only one.
.
As time goes by, the rain softens. Soon you will follow your way, and I will follow mine.
.
Belém, 01/29/2009.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Êxtase (ou o fim do mundo)

Não imaginava que minhas férias culminariam em minha sentença de morte. Estava passeando em Kuta, na ilha de Bali, durante meu terceiro dia de férias. Minha ressaca exigia um banho de mar revigorante, sombra e, quem sabe, alguma diversão. No final da tarde, fui abordado por policiais por alegado comportamento inadequado em local público, com uma turista australiana. Tudo indicava que seria mais um dia normal de férias.

O problema é que resolveram me revistar. Tudo bem, nunca tive problemas em dividir minhas bebidas e dar algum dinheiro a policiais corruptos. Mas a forma com que os seios expostos da australiana agitavam-se pareciam indicar um movimento subversivo, o que fez com que eles decidissem checar minhas coisas. Meu chapéu panamá, que até então vinha me protegendo de forças agressivas, foi responsável pelo começo do fim. Acharam uma pedra compacta de maconha para consumo pessoal, da qual eu esquecera completamente, e, para resumir tudo, cá estou, no final do julgamento, ouvindo minha sentença condenatória por tráfico internacional de drogas. Logo eu, um inofensivo hedonista que nunca causou mal a ninguém, afora uns tapinhas de amor dados e recebidos pela vida. Agora, já saí em jornais, minha mãe sofrida mal consegue conversar com seu filho perdido, o presidente de meu país agora sabe meu nome. Tentaram fazer-me o bem de converter minha sentença de morte em prisão perpétua. Fiquei tocado com a bondade humana.

Logo após a pronúncia da sentença, ocorreu um evento peculiar. A juíza, até então com olhar incriminador em minha direção, começou a afagar os papéis dos autos de maneira curiosa. Parecia estar encantada com a sensação causada quando sentia a folha na ponta dos dedos. As outras pessoas não perceberam: tinham a feição alterada. Maravilhavam-se com as cores nas paredes, todas com pupilas dilatadas. Aquela sensação nova de tato também parecia ter-se apoderado de todos. As pessoas se cheiravam, se tocavam, ouviam sons quase imperceptíveis, lambiam umas às outras. Foi pouco tempo até ninguém mais lembrar-se do motivo pelo qual todos estavam naquela sala, naquele tribunal. Passei à condição de figurante. Nesse momento, as roupas eram tratadas como empecilhos, embora a própria sensação de tirá-las fosse um ato cujo prazer fosse inebriante. Fugi antes que dessem por mim.

A princípio, senti o alívio indescritível de sair da condição de condenado a morte para a de fugitivo da justiça indonésia. Tanto que sequer dei-me ao trabalho de checar o mundo a meu redor. Corri até meu sangue começar a ferver. Cheguei, então, à praia onde havia sido preso, onde tudo havia começado. A turista australiana estava lá, os mesmos seios expostos, o movimento subversivo: a revolução havia chegado. Todos os turistas australianos, alemães, franceses, todos os vendedores de bugigangas, massagistas ambulantes, pessoas de conduta duvidosa, estavam todos nus. Sequer era possível saber o que faziam. Uns rolavam pela areia, outros comiam tudo o que antes era vendido, a imensa maioria não conseguia parar de se tocar. Muitos, talvez a maioria, faziam sexo. Pelo que pude entender, só paravam pelo cansaço e limite dos corpos. Todos estavam exaustos. O orgasmo em si parecia um prenúncio da morte, tal a sua força. Não podiam mais compreender as necessidades corporais, tamanha a ocupação com as sensações.

Era Babilônia, Atlântida, Utopia. O mundo onde sempre quis morar. O ser humano finalmente alcançara o nirvana. O problema é que ninguém parecia dar-se conta disso. Era uma pena todo mundo estar achando tudo tão lindo (era, assim, meio Caetano) e ninguém saber falar nada a respeito. Progressivamente, a situação foi-se revelando. Os sentidos eram tão aguçados que impediam qualquer reflexão. O mundo nunca havia sido tão radicalmente sensual. E isso podia ser visto na televisão, também: imagens de cinegrafistas admirados com a câmera, acariciando lentes, locutoras que declararam jamais posar nuas para revistas masculinas expunham-se despudoradas em transmissões ao vivo para o mundo todo. Programas de fofocas tinham material para milênios, diante das loucuras cometidas. Chefes de cozinha devoravam ingredientes antes do término dos pratos. Pessoas morriam por intoxicação com os mais diversos gases e líquidos. Lojas de perfumes invadidas, restaurantes em situação caótica. Anos de ideologia marxista para ver o mundo capitalista decair com uma simples depuração dos sentidos humanos. A mudança veio não com uma idéia, mas com o apogeu do corpo.

As exclamações por Deus eram expressão sem sentido, nenhum padre anunciava o apocalipse. Batinas somente podiam ser vistas quando se analisava cuidadosamente as roupas espalhadas pelas ruas. Igrejas eram profanadas pelos próprios guardiães. Absolutamente ninguém orava neste momento crucial. Pessoas vilipendiavam anúncios pregando a temperança, o jejum e abstinência sexual. Nunca houve tanta emissão de dióxido e monóxido de carbono: pessoas fumavam tudo o que encontravam, comiam lixo. Grande parte da população morreu vítima de overdose: traficantes, seguidos por policiais, médicos, usuários das mais diversas substâncias.

Tudo era experimentação. Importava sentir tudo de todas as maneiras. Não havia diferença entre prazer e dor, ambos eram o mesmo extremo. Pessoas cortavam-se, mordiam-se. O estupro era uma impossibilidade: embora nem sempre o sexo começasse com o expresso consentimento, era imediatamente aproveitado por todos. Via-se orgias em todas as ruas, em todos os becos, em todas as casas. A orgia era o mundo. Alguns pecados capitais foram elevados a normas pétreas: gula e luxúria. Pena não haver pecado para todos os sentidos. Sempre fui a favor do pecado. O pecado era minha Bíblia, meu Alcorão, minha Torá.

Atividades produtivas foram absolutamente abandonadas. O PIB caiu a zero em questão de horas. Havia somente a destruição das riquezas, sem qualquer reposição. Por alguma maldição divina advinda da minha antiga condição de devasso amador, por alguma inversão calculada, ou talvez por mero acaso, fui destinado a ser mera testemunha dos acontecimentos. O esgotamento causado pelo esforço excessivo na busca de sensações, que por sua vez gastavam mais energia por si só, aliada à falta de comida e impossibilidade de se concentrar em atividades, foi causando a morte de mais e mais pessoas.

Sequer posso dizer que foi o amor que matou as pessoas, embora víssemos palestinos e israelenses ultrapassando suas fronteiras usuais para tocarem-se, assim como migrantes e nativos, ricos e pobres, negros e brancos, velhos e jovens. Era a união universal, o mundo antes da construção da torre de Babel, o fim da propriedade privada dos meios de produção e de reprodução. Mas não era o amor. Era, talvez, o homem elevado à última potência, o além-do-homem de Nietzsche, o herói de Sade. Alguns diziam ver anjos, ver cores que nunca tinham visto antes, auras ao redor dos demais. Sentia-se o odor de coisas dentro da água. Diziam que o próprio derretimento dos quitutes no interior da boca era capaz de causar sensações acima de qualquer coisa jamais imaginada pelo ser humano. Dionísio era o deus supremo de nosso renascimento e de nossas pulsões.

Agora, procuro sobreviventes. Não sei se posso encontrá-los, se existem. Caso alguém escute, por favor venha. Eu preciso de você.