quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mudo

Alguém bate à porta insistentemente. Ouço meu nome com um leve desespero no tom de voz. Lembro-me de uma passagem de um livro cujo narrador principal, no momento em que finalmente consegue ficar com sua amante, diz que não tem palavras para descrever aqueles dias felizes. Que não há nada a dizer sobre a felicidade. A escrita nasce de algum mal. Algo parecido às teses sobre a relação da escritura e a doença em Thomas Mann. Escrever é estar doente. Ouço choro ao pé da porta, talvez seja melhor abrir, mas não me levanto.
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Em momentos tempestuosos, tive vontade de escrever infinitas páginas sobre a solidão, o cinismo e a hipocrisia, a incomunicabilidade, o desencontro, o papel do acaso e a falta de sentido da existência. Em momentos tempestuosos. O serviço de meteorologia prevê muito sol nos próximos dias. Escuto passos cada vez mais distantes.


Minha felicidade é uma comunhão com o mundo. Me sinto tão integrado, é como se não fosse eu mesmo mas parte de tudo. Não há autoconsciência, mundo interior. Eu não existo quando sou feliz, mas existo. Meu sorriso é desaparecimento.


Lembro-me então das milhões de teorias escritas sobre o silêncio tão prematuro de Rimbaud, que preferiu o tráfico de armas num continente inóspito. Algo mais tranquilo, mais simples. Le silence éternel de ces spaces infinis m’effraie. Pas le silence intérieur (la paix intérieur). Uma charge engraçada de um escritor com bloqueio criativo que cria um movimento literário fundado no silêncio.


Novamente, batidas e um abre-por-favor-eu-te-peço. Vou abrir a porta, tenho algo a dizer. Algo que justifica meu silêncio nesse tempo em que me perdi. Mas é preciso entender que não abri a porta porque havia uma vida a viver e que, quando vivo, fico muito ocupado e não tenho nada a dizer. Nada importante, pelo menos. E não gosto que me obriguem a nada. Principalmente a declarações solenes. Mas agora eu quero falar. Só preciso lembrar o que acabei de pensar e esqueci. Vou respirar fundo e abrir a porta. Se eu fosse você, deixaria de sorrir ao ouvir que estou me aproximando. O negócio é o seguinte.

sábado, 2 de maio de 2009

Veni Vidi Venezia


(Texto inspirado em fotos de Monique Renne)

Desembarco durante uma manhã ensolarada no aeroporto de Veneza, que na verdade está em Treviso, saindo do voo barato que não condiz com a dignidade que sempre procurei ter. Se bem que, aos 80 anos, não é fácil manter a postura e o andar elegante de antigamente. Veneza, a cidade mais romântica do mundo, repetem sempre. E venho aqui justamente por ter perdido o grande amor da minha vida há poucos meses.

Passearei por Veneza, no entanto, em sua companhia. O meu grande amor era uma improvável mistura de suave areia clara, voluptuosa praga e beira de precipício: precioso achado. Ela partiu tal como viveu: apressadamente. Sequer tive chance de me despedir e utilizarei essa viagem derradeira para que sua memória em mim me acompanhe pelos lugares por que já passei há tantos anos atrás.

Desço do trem e lembro-me que Veneza é uma cidade construída sobre mais de cem ilhas e, naturalmente, isso não poderia resultar num desenho muito lógico. Abro seu mapa e enxergo um quebra-cabeça, um confuso mosaico com um canal em forma de “S” que o atravessa. Talvez a relação com o amor tenha derivado desta desordem, da possibilidade constante de se perder em suas inúmeras ruelas e pequenos canais para nunca mais se achar, da abundância das águas que tanto lembram a fertilidade.

Acho tão interessante conhecer cada rua dessa cidade pequena e infinita e penso ser uma pena que quase todos os turistas acabem seguindo apenas as placas insistentes indicando a Praça de São Marcos e a Ponte de Rialto. Algo como ocorre no Louvre, com seus corredores lotados em direção à Monalisa e à Vênus de Milo. Recuso-me a seguir o roteiro pré-fabricado e atravesso a cidade e converso por horas com meu amor perdido. Namoramos pelas ruazinhas, nos perdemos, nos achamos. Muitos amantes devem ter feito o mesmo, vivido sentimentos parecidos ouvindo os gondoleiros que passavam cantando canções de amor em italiano. Passando entre casas amontoadas, com tijolos à mostra para demonstrar que a delicadeza pode conviver com uma leve decadência. Passando por escadas cujo final parece convidar-me a abandonar a terra e viver nas águas.

E é somente dessas ruazinhas que se pode observar os venezianos. Há tantos velhinhos que nos sentimos, meu amor e eu, em casa. Quase todos já passaram pela maior parte da vida: os artesãos, os passantes, os donos das lojas de souvenirs e dos restaurantes e dos cafés e das maravilhosas sorveterias italianas, os cabeleireiros e seus clientes e até os mendigos. Os venezianos combinam com Veneza, com sua arquitetura e com sua longa história. Andam sem pressa, levemente inclinados, com suas sacolas de compras de pequenos mercados espalhados por entre as casas. E seguem sua vida nessas ruazinhas como se os turistas fossem um detalhe, uma parte da paisagem. Um detalhe marcante para os que passam por lá pela primeira vez: os venezianos expõem sua intimidade por meio dos inúmeros varais suspensos nas ruas com suas roupas e artigos mais pessoais. Eis que temos acesso a suas vestimentas, a possíveis manchas de amor na roupa de cama e aos restos de alimentos sobre toalhas de mesa. Os venezianos recusam-se a abrir a cozinha de seus restaurantes após a hora costumeira do almoço. Não ligam se perdem o dinheiro de milhões de turistas esfomeados: a vida segue segundo o hábito, não segundo o tempo do dinheiro que prevalece em praticamente todo o mundo. Eu, que não consigo seguir horários quando estou de férias, passei fome. Mas pude usar isso para tomar mais um sorvete na tarde quente de verão.

Os venezianos têm o orgulho típico de quem passou por um tempo grandioso e se negam a fazer concessões ao presente. Passo por uma loja com miniaturas de gôndolas, todas com uma plaquinha escrita “Venezia”. Pergunto se há alguma escrita “Italia” e o dono da loja se irrita e tenta me esclarecer que Veneza não faz parte da Itália. Refere-se, aliás, à “República de Veneza”, que deixou de existir antes mesmo da unificação italiana, já que a cidade perdeu sua independência com a invasão de Napoleão de 1797. Logo após um século de ascensão e durante o qual foi considerada a cidade mais refinada da Europa. A invasão como um trauma, um recalque na mente de cada veneziano. A República de Veneza está viva no imaginário de cada um de seus cidadãos como se os últimos 200 anos não tivessem acontecido.

O carnaval é um exemplo: foi interrompido em 1797, esse ano trágico, e retomado em 1980. Os venezianos usam, durante o carnaval, vestimentas típicas de seu saudoso século XVIII. Parte deles vive de fazer máscaras e roupas para que turistas encenem, inadvertidamente, a idade de ouro da cidade durante dez dias. Sempre a ideia do carnaval como suspensão da realidade: no Brasil, é ignorada a distribuição injusta da renda e, em Veneza, o fim de sua independência. Passeando pela cidade, tive a impressão de que cada veneziano tem uma vida individual que reflete a história de todos os moradores que vieram antes dele.

Resolvo pagar muito caro para passear de gôndola pelos canais e me sinto mais romântico do que nunca. O gondoleiro canta uma canção em italiano que não compreendo mas que parece relatar toda história de amor que tive na vida. Engraçado como ainda me emociono com os clichês de turistas: gôndolas em Veneza me deixam todo sentimental. Esqueço meu corpo e parece que só minha alma flutua pelas águas e observa os passantes que sorriem quando ouvem o gondoleiro cantar. Abaixo da Ponte dos Suspiros, esqueço de tudo.

Chego na Praça de São Marcos e fico impressionado por ver um espaço tão amplo e grandioso após percorrer por tanto tempo lugares estreitos. O campanário se destaca atrás de tantos pombos e turistas. Inicialmente, observo o movimento. Turistas tentam alimentar pombos com alpiste vendido por espertos ambulantes e, antes mesmo que se possa distribuir o alimento, turistas são atacados por pombos. Muitos estão completamente cobertos e assustados. Eram tantos pombos que pensaram em promover uma carnificina. Venceu a opção humanitária da distribuição de anticoncepcionais. Fumo um cigarro, sinto o meu antigo amor e comento que deveriam prender os vendedores de alpiste e milho.

“Le plus élégant salon d’Europe”. Meus olhos viram tanta coisa na vida, talvez tanto quanto o que Napoleão tivesse visto até então, e ainda assim são pequenos pra ver o lugar onde ainda há mais voz humana do que o som dos automóveis e dos alarmes. E o campanário, visto do fundo, é simples e grandioso no meio do espaço vazio. Fumo outro cigarro na escadaria ao lado da praça para observar mais uma vez a piazza, rio das crianças fugindo dos pombos e não sei se respiro mal de emoção ou de velhice.

Sou só mais um a passar por aqui. Antes de mim, quantos artesãos, mendigos, príncipes, viajantes, piratas, donzelas, ladrões, apaixonados, turistas, desiludidos, pintores, apátridas, poetas, virgens, músicos, moribundos e crianças estiveram aqui? Quantas pessoas antes de mim contemplaram, tiraram fotos, observaram passantes, imaginaram quadros, correram, gargalharam, fecharam os olhos, fizeram planos e notas, choraram? Quantos mais virão?

Anoiteço sobre a Ponte Rialto e vejo o Grande Canal por onde vaporettos ainda passam, como passam táxis o dia todo pela avenida principal de qualquer grande cidade. Estrelas acima e abaixo de mim cintilam todas juntas em estranha harmonia. Um dia em Veneza é tudo do que precisávamos, meu amor. Mas vejo que você despede-se de mim quando deveríamos agora nos beijar. A noite abraça a pessoa desconcertada.

Veneza é uma cidade de frágil equilíbrio. Construída sobre uma mistura de água doce e salgada, é ameaçada constantemente por marés que vêm do Adriático entre o outono e a primavera. Seus prédios, no entanto, foram construídos sobre pilares de madeira. A madeira, na ausência de oxigênio, ao invés de apodrecer, petrificou até atingir consistência de pedra com o fluxo da água rica em minerais. A maior parte desses pilares segue intacta após séculos submersos.

Algo em mim amanhece. Minha voz rouca, meus dentes manchados, minha respiração falha e minhas pernas trêmulas, meus olhos embaçados, meus ralos cabelos, minha solidão, minha falta de memória e minha saudade subitamente desvanecem. A própria lembrança de que vim morrer numa cidade que se recusa a morrer consegue me horripilar. Estrelas mantêm seu sinuoso e eterno cintilar. Algo em mim permanece. Algo de que não posso me desvencilhar. Minha precária existência parece durar um instante que se petrifica: Pilar de Veneza.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Tatuagem

- Bom dia!
- Bom dia. Até que não acordei com ressaca. Queria só tomar um banho antes de sairmos.
- Tá. Acho que é melhor você já levar tudo e deixar no locker da estação central. De lá, fica mais fácil depois ir pro aeroporto.
- Tudo bem.
Engraçado como mal vejo meu corpo quando faz frio. Até estranho ver minha pele de novo. Sempre avalio se estou igual, se ainda tenho o mesmo corpo desde a última vez que o vi. Pele seca, sempre, no inverno. Acho que não estou acostumado. Quem sabe, se eu morasse aqui por anos, minha pele mudaria.

(Um acesso. Meu interior. Como chegar? Se eu cortasse minha pele inteira, veria primeiro fluir sangue e, a seguir, minhas entranhas, meus órgãos, um a um, mostrando suas formas e superfícies meu coração, meu cérebro, fígado, pâncreas, fêmur, masséter, estômago. Assim por diante. Meu corpo׃ eu?).

- We’re leaving! Goodbye!
- Oh, I didn’t know it. Well, t’was very nice to meet you.
- It was very nice to have met you. Hope you enjoyed the party last night. Come back soon?
- Well, hope so. I liked the party very much. So, bye bye!
- Goodbye. Have a nice trip back. You’re going to Geneva, right?
- Yeah. Then I go back to Brazil.
(…)
- Eles são legais, né! O Luke é muito gente boa.
- São, sim. Acho que ele ficou meio perdido ontem. Talvez mais perdido do que eu, que não conhecia ninguém.

(Quem eu realmente sou. Ao proferir a frase, ao proferir qualquer frase, penso imediatamente sobre ela como algo exterior a mim. Passado, não presente. A frase tentou me definir, não define mais. Um eu que não existe mais).

- Você está chateado por causa de ontem?
- Não, nossa, nem me lembrava mais disso. Parece que tá mais frio hoje.
- Eu achei o contrário. Vamos ver se dá pra gente passear um pouco. A gente come num restaurante afegão baratinho, 5 euros e pode comer o que quiser. Depois passeamos um pouco.
- O restaurante é bom? Tipo... é barato e bom?
- Claro, a gente adora.

(Tenho comigo minhas opiniões. E as dou numa série infinita e enjoativa de palavras. E logo após dar essas minhas opiniões, penso: mas é essa a sua opinião? Sou cheio de opiniões sobre minhas opiniões. E opiniões sobre elas, também. Sempre contraditórias. Eu simplesmente não me reconheço).

- O aeroporto é mais distante do que eu me lembrava. É engraçado ver a paisagem pela janela. Sempre acho triste essas árvores sem folhas. Tudo se resume a tons castanhos e cinzas. No Brasil, isso nunca acontece. Por outro lado, no verão europeu, parece haver mais árvores coloridas: vermelho, amarelo, verde, branco. No Brasil, as árvores quase sempre se resumem a vários tons de verde.

(Papel de mim mesmo, representação de mim mesmo. Performance. E um espectador de mim mesmo, lugar privilegiado na platéia vazia e escura de um enorme teatro. Apreciei algumas de minhas pecas, deplorei outras. Vez por outra, não reconheço o protagonista. Tenho a impressão de que não sou o autor das pecas em que o ator atua. Ao tomar consciência disso, revolto-me. Quem são esses eus em mim? Math/eus. O princípio da identidade falhou comigo. Eu = outro= não-eu. E esses “eus” revezam-se tão depressa, não há nada que os controle ou que dê sentido a eles. Isso é outro clichê. Isso já foi dito antes. “A característica da consciência é ser uma descompressão de ser; é impossível com efeito defini-la como coincidência consigo” - Sartre. Eu odeio esse eu comum).
.

- Olha, seu vôo foi cancelado! Oba, você vai ficar mais um dia!
- Nossa, não acredito! Eu tenho de trabalhar amanhã!
- Klfsdmkwfmk afmkpaggfrmo pvgfrmpvg...
- I’m sorry, I don’t speak German.
- Oh. Well, sir, we can put you in another flight to Geneva, with connection in Munich, instead of Zurich.
- Is it today?
- Yes. At 7pm. Would that be ok?
- Sure.
- Can you register the miles on this company?
- TAM, of course. My Brazilian friends always tell me they don’t like TAM.
- Yes, it’s true. A few friends of mine think alike. But it’s the major company, we cannot escape it. Some people are afraid because of a terrible accident.
- Your bording pass, sir.
- Well, I got upgraded. Business class. Thank you. Goodbye.

(E ainda há tantos outros. Serão todos assim? Não posso saber. Os outros existem? Estarão em mim? Sempre que me apaixono, tendo a pensar como a pessoa por quem estou apaixonado. Penso que penso como ela pensa. Ou seja, penso que penso como eu penso que ela pensa. E assim indefinidamente. Se é que realmente pensamos alguma coisa. Sinto-me triste e perdido quando acho que ela pensa diferente de mim. Sinto-me pior, porque eu queria ser sempre como a pessoa por quem estou apaixonado. Eu a quero em mim. Eu = ela? Não, isso é impossível. E nem seria desejável).

- Dá tempo pra gente tomar mais um café. Vamos ali em cima.
- Nossa, um café por 4 euros. Que absurdo!
- Sabia que você ia fazer esse comentário, haha! Em aeroportos, tudo é mais caro.
- Claro, eu sou sem grana, meu filho!
- Eu pago o café.
(...)
- Bem, agora eu vou mesmo. Vou pra área de embarque.
- Tchau. Te amo.
- Eu também. Vou ficar com saudades.

(Se me canso, é o oposto. Penso que penso exatamente o contrário do que penso que ela pensa. Eu sou tão irritante, inclusive para mim. Por outro lado, é por saber que não existe uma pessoa que seja o contrário do que aprecio – ao qual me identifico – é que não consigo odiar ninguém. Não por muito tempo, ao menos).

Olho para trás, ela está chorando. A sentimental da família. Quer dizer, nem é. A família é sentimental, acho. A única que demonstra. A gente sempre discute e, no final, sempre sinto falta dela. Impressionante. Queria ser como ela, no fundo. Demonstrar as coisas que sinto. Eu choro, mas só por dentro. Não posso mais ver a cena. Aceno: “tchau”. Dirijo-me à sala de embarque, já com saudades.

(A mesma coisa com o amor. Sei que só amo totalmente pessoas ideais. Quando confronto a pessoa que amo, dia após dia após dia, percebo que não amo tudo nela. Talvez esse seja o desafio do amor, do amor que quer durar. Ser bom diante do que não se é ou se gosta. Tentar entender o que não é eu. Em nome do que há de bom no amor. Neste amor concreto, claro. O amor platônico é um erro. O amor romântico é um erro. Eu já errei com tanta gente, tanta gente errou comigo. Se é que me amaram. Talvez tenha sido tudo um sonho).

- Do you have a laptop? If so, you have to take it from there.
- I have no laptop here. Do you think I have to take off the watch?
- It’s not necessary. Please remove any metal objects you have in your pockets.
- Ok, thank you.

(O amor concreto é uma aposta. Eu não acredito em “eu”. Se “eu” existe, não o conheço. Esse eu não é alcançável, muito menos definível. A tentativa de teorizar o eu é uma tentativa de controle que não aprecio e ao qual meu eu sempre foge. E teorizar o outro, ainda menos. “Eu amo você”: a frase não tem sujeito nem objeto estáveis. Mas o verbo - esse sentimento – existe: amar é um verbo transitivo de um algo que não é esse algo a outro algo que não é esse algo. Ainda assim, o amor existe. Não sei dizer como, mas já o senti. O amor é a conversão da ignorância em virtude. O amor, realmente, é uma aposta. A gente pode ganhar ou perder. Não importa o resultado, a aposta em si é uma vitória. Quando penso, aqui sozinho no meio de um país estranho, quando penso naquela vez em que você me sorriu, bem pertinho do meu rosto, eu sorrio junto. E você nem está aqui, está tão longe. Você exerce tanto poder sobre mim. Você está em mim. Como? Eu gosto disso).

- Your passport.
- There you go. There’s a revalidation on page 18.
- Revalidation? I’ve never seen something like it…
- Well…
Silêncio. Por alguma razão, ele olha todos os carimbos espalhados pelo passaporte. Lê a extensão da validade do meu passaporte por muito tempo, como se ele fosse revelar-se com o tempo. Olha para o meu rosto. Folheia novamente o passaporte.

(Resolvi converter minha ignorância completa a respeito de mim mesmo e do mundo numa série de apostas - ou seja, de atos. Porque eu sei que, como sofro, outras pessoas também sofrem. Mais a maioria das pessoas tem bem mais motivos – reais - para sofrer do que eu. Muitas vezes, penso que minha situação privilegiada me retira o direito de sofrer. Mas eu sou só um ser humano e não consigo ser sempre o que eu acho que deveria ser. Falho, incompleto. Eu acredito que, diante do sofrimento, que é real - sentimentos são reais -, a falta de fundamento do agir - que é só uma idéia -, que poderia justificar uma ética baseada na inércia, é insignificante. Em respeito aos que sofrem, resolvo tomar posição e agir.)

- Ok.
- Thank you.
Ele liberou porque meu passaporte é oficial. Se fosse o regular, eu provavelmente seria encaminhado ao chefe dele. Se fosse o normal, o desprezado passaporte de país em desenvolvimento seria visto como o documento de um imigrante ilegal. Mas meu passaporte é de categoria superior. É de imigrante ilegal de categoria superior. Ele tem de pensar mais antes de impedir minha passagem.

(Sei que não tenho fundamentos sólidos, além da própria crença de que os outros sentem coisas similares ao que sinto. Estando esses outros aqui ou em outro lugar ou mesmo em mim. Eu posso estar errado em agir, ou agir de modo errado. Quero ser humilde diante disso. Mas algumas vezes me esqueço, por isso já me desculpo. Muitas vezes aferro-me a uma opinião e penso que ela é a melhor. Muitas vezes, sou mesquinho, orgulhoso, arrogante. Ainda que não deixe transparecer. Tenho preconceitos. Em várias ocasiões, como a maioria das pessoas, adoto opiniões pré-fabricadas por ter preguiça de pensar. Por ser muito mais cômodo pensar como todo mundo pensa. Porque as pessoas gostam mais de você quando você pensa como elas. E eu, como todo mundo, também quero ser amado).

Os passageiros ao redor, na classe executiva. Um nerd alemão rico que estuda um livro, aparentemente de física. Uma executiva? Bonita. Um pouco mais velha. Sim, eu quero champagne. Sim, eu quero comida de avião melhor do que a que o pessoal de trás irá comer. Vinho. Eles cancelaram meu vôo. Precisam me compensar, me tratar bem.

(Agir porque quero ter a impressão - mesmo que falsa - de que sou o autor da minha vida. Quero pensar que estou onde estou por causa de minhas escolhas, não pela falta delas. Porque eu também quero ser feliz, eu tenho de escolher coisas concretas que fazem bem para mim. E porque também é preciso, no mínimo, me defender das agressões dos outros. Ontem mesmo, tomei a decisão de não mais conversar com alguém de quem já gostei muito. Descobri que ela zombou de mim por aí. É muito possível que ela seja uma pessoa melhor do que eu. Reconheço que sou ridículo muitas vezes - eu poderia enumerar diversos aspectos ridículos desse meu eu bem mais ridículos do que o que ela lembrou. Do fato de ela poder estar certa, porém, não segue que eu deva conviver com - muito menos admirar - quem esteja me ridicularizando. Porque quem faz isso com uma pessoa o faz com mais. Porque é muito fácil se deixar influenciar por essa atitude. Porque quero ser tratado como ser humano, não como objeto. Porque tenho o direito de escolher).

- Ladies and gentlemen, we just arrived at Munich airport. The local temperature is 7 º C...
Etc, etc, etc.

(Minhas sensações revezam-se mais uma vez. O ser humano - por extensão, eu - não é estável e não é definível. Por não acreditar em essência de ninguém, por não acreditar em almas, penso que o julgamento de um ser humano é uma impossibilidade. Mas o ser humano age. Somente atos podem ser julgados).

Só mais um vôo. Pouco tempo de conexão. Todo mundo lendo na área de embarque. Eu, também. Finalmente, entro no vôo para meu destino. 50 minutos. Tempo para servir outro sanduíche ruim. Pelo menos eu já considero-o minha refeição noturna. Chego.

(Só agora me lembro porque estou pensando essas coisas: por causa da tatuagem que estou pensando em fazer. Tatuagem é algo que vai, por um lado, contra tudo o que pensei hoje. Inscreve um sinal permanente sobre meu corpo - sobre mim - a partir do qual ele pode ser julgado. Não gosto de ser julgado. E a permanência do sinal contrasta com a decadência e envelhecimento do corpo. Pode tornar-se uma ridícula tentativa de juventude num corpo já muito marcado pelo tempo. Mas compensa atormentar-me por um futuro que possa nunca ocorrer? Por outro lado, a idéia da tatuagem é escrever, no original grego, uma frase escrita na entrada de um templo e que mudou bastante a história: conhece-te a ti mesmo - γνῶθι σεαυτόν. Um projeto condenado, de antemão, ao fracasso. E que, não obstante, deve ser sempre empreendido. Um trabalho de Sísifo que se altera a cada vez que o realizamos. Nem sei se a farei. Não sei o que pensarei amanhã. Por isso meu medo de tatuagens. Eu não concordo com o meu eu do passado).

- Thank you very much.
- Thank you, sir. Good night.
- Good night.

(E estes pensamentos de hoje também se perderão. A própria tentativa de me definir parece mais nobre do que sou. Eu simplesmente não me reconheço. Sou cheio de defeitos, não consigo guiar-me pelos ideais que já proferi. Acredito nas coisas concretas, não em idéias ou opiniões. Eu quero voltar às coisas. Dizer uma falha metafísica é dizer nada. Minhas falhas são concretas. Um problema sério com horários, dormindo e acordando tarde, chegando atrasado ou mesmo não indo a eventos a que prometi ir. Eu falo demais. Escrevo demais. Sou ingênuo em relação às pessoas. Faltei a muitas lições de etiqueta à mesa. Aliás, faltei a várias aulas durante minha vida. Começo e não termino tantos livros - minha estante está repleta de livros que não li. Sou irônico em ocasiões inadequadas. Não tenho um milésimo da sensibilidade, inteligência e criatividade de várias pessoas que conheço. Sou preguiçoso. Cometo erros de português e, não obstante, odeio revisar meus textos).

Será que a bagagem chega dessa vez? Sempre tenho dúvidas se o tempo de conexão foi suficiente para que a bagagem seja transferida para o outro avião. Tá demorando... O que tenho mesmo dentro da mala? Pelo menos, é pouca roupa. Não me lembro de nada de valor. Presentes. Ela vai chegar, vai chegar, vai chegar. Ah, finalmente. Já me via reclamando, mais uma vez, da bagagem. Sei o procedimento de memória. Sei o modelo da minha mala de memória. O comprovante da bagagem está no meu bolso.

(Ao menos tenho o conforto de saber que não uso esses defeitos para argumentar que “sou assim”, que as pessoas têm de me aceitar como sou. Tenho enorme dificuldade em mudar, mas ao menos tenho intenções. Não recrimino, além disso, aqueles que esperam – com razão – que eu não vá chegar na hora determinada. Não argumento em contrário. E como poderia, aliás? O único argumento seria fazer o oposto do esperado. Surpreender os outros. Surpreender a mim mesmo).

- Votre passeport.
Silêncio durante um tempo, enquanto ele folheia meu desacreditado passaporte.
- Vous êtes ici à quoi faire?
- J’suis ici à travail, pendant une semaine de plus.
- À travail... Ok.
- Merci. Bonne soirée.
Silêncio.

(Ora, não tenho do que reclamar. Agora mesmo, subitamente, lembrei-me mais uma vez do sorriso dela, penso que gosto de olhar os olhos dela e de fitar os olhos dela, quando estão bem próximos dos meus. Ela é a menina mais linda do mundo. Basta gostar de alguém, é essa impressão. E não muda: tenho certeza de que ela é a menina mais linda do mundo. E tenho um ataque de riso, sozinho aqui no meio do não-lugar que é um aeroporto, e vejo o quanto sou bobo por acreditar em coisas que sei não serem reais. Contente por saber que estou feliz com as coisas tais como estão, que vivo cada vez mais o presente e renuncio a um futuro que possa nunca se concretizar. É preciso gostar do caminho. Penso mais uma vez nos olhos dela, no quanto eu gosto de estar ao lado dela e concluo que, afinal, às vezes é muito bom eu ser eu. Mesmo que isso seja tão instável, que signifique pouco, afinal. E esse sorriso vale esse momento. A felicidade desse momento. Só isso existe. A vida é uma viagem longa para lugar algum. Travessia).

- Bonsoir
-Bonsoir.
- Est-ce que vous pourriez m’informer si les trains vers la gare Cornavin passent encore?
- Oui, jusqu’à minuit. Vous descendez les escaliers au fond et voilà
- D`accord, madame. Merci beaucoup. Bonne soirée!
- Au revoir.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

World Social Forum fiction (I)

Sou faxineiro na Casa das 11 Janelas, em Belém, e gasto meu tempo livre com duas coisas: lendo livros velhos e colecionando coisas interessantes que encontro quando limpo o café. Com o Fórum Social Mundial, minha coleção engordou bastante. Coloco o texto abaixo, última entrada num caderninho preto, porque não consigo lê-lo, minha instrução não permitiu nem mesmo terminar o segundo grau, mas tenho esperança de que alguém veja beleza no que não sou capaz de decifrar. Muita gente veio aqui querendo mudar o mundo, eu só queria mudar um pouquinho de mim mesmo, aprender mais coisas, conseguir conversar com esse pessoal estrangeiro que veio aqui e saber o que eles pensam de nós. Talvez, ao ler isso, alguém possa me dizer mais.
*
I am stuck by the rain in the most wonderful place, right beside you. I write to you as you write something I will never know. You probably wander about past events, distant memories of other people and places. I write about you and dream we are corresponding somehow.

I cannot think of any small solution to hunger and poverty. One billion people starving. Perhaps, 30 billion dollars could solve the problem, but we prefer to spend trillions on arms. The difference between the income of populations in developed and developing countries keeps getting bigger, an international crisis which will probably make it even worse. A food crisis, an environmental crisis, which will be followed by another one. A whole continent left alone: a desert. No one agrees on what to do. Perhaps a conspiracy not to do anything. Just another tragedy. Human misery. Let us go on with our lives.

What could I do? My insignificant NGO about which nobody gives the shit. Try, perhaps, a career in the government. It is not the time to small solutions, to charity. Perhaps I am going back to the time when charity was the only relief to the wretched. An old-fashioned post-modern wannabe. Mistaken.

I like your blue scarf and your peculiar face. Imagine an everlasting future with you, photographs of the family by the fireplace which will never be taken. All the love stories in my head, only. No concrete existence yet experienced.

Eventually the rain will cease, you will follow your way, and I will follow mine. I will forget you, eventually. I live in a world with infinite possibilities and I am always aware of it and I suffer since I cannot live them all, I have one life, everything is continual and cannot bifurcate, cannot multiply. One single thread: my one and only.

Time ought to be lived as simultaneity and as continuity. Then all possibilities would be lived and I would not be only an I but a we. And everything would conspire now for us to live this future that will not happen and I will never say that I never forgot you were wearing a blue scarf the day I met you and I fell in love with you. Time, nevertheless, is useless and only one.
.
As time goes by, the rain softens. Soon you will follow your way, and I will follow mine.
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Belém, 01/29/2009.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Êxtase (ou o fim do mundo)

Não imaginava que minhas férias culminariam em minha sentença de morte. Estava passeando em Kuta, na ilha de Bali, durante meu terceiro dia de férias. Minha ressaca exigia um banho de mar revigorante, sombra e, quem sabe, alguma diversão. No final da tarde, fui abordado por policiais por alegado comportamento inadequado em local público, com uma turista australiana. Tudo indicava que seria mais um dia normal de férias.

O problema é que resolveram me revistar. Tudo bem, nunca tive problemas em dividir minhas bebidas e dar algum dinheiro a policiais corruptos. Mas a forma com que os seios expostos da australiana agitavam-se pareciam indicar um movimento subversivo, o que fez com que eles decidissem checar minhas coisas. Meu chapéu panamá, que até então vinha me protegendo de forças agressivas, foi responsável pelo começo do fim. Acharam uma pedra compacta de maconha para consumo pessoal, da qual eu esquecera completamente, e, para resumir tudo, cá estou, no final do julgamento, ouvindo minha sentença condenatória por tráfico internacional de drogas. Logo eu, um inofensivo hedonista que nunca causou mal a ninguém, afora uns tapinhas de amor dados e recebidos pela vida. Agora, já saí em jornais, minha mãe sofrida mal consegue conversar com seu filho perdido, o presidente de meu país agora sabe meu nome. Tentaram fazer-me o bem de converter minha sentença de morte em prisão perpétua. Fiquei tocado com a bondade humana.

Logo após a pronúncia da sentença, ocorreu um evento peculiar. A juíza, até então com olhar incriminador em minha direção, começou a afagar os papéis dos autos de maneira curiosa. Parecia estar encantada com a sensação causada quando sentia a folha na ponta dos dedos. As outras pessoas não perceberam: tinham a feição alterada. Maravilhavam-se com as cores nas paredes, todas com pupilas dilatadas. Aquela sensação nova de tato também parecia ter-se apoderado de todos. As pessoas se cheiravam, se tocavam, ouviam sons quase imperceptíveis, lambiam umas às outras. Foi pouco tempo até ninguém mais lembrar-se do motivo pelo qual todos estavam naquela sala, naquele tribunal. Passei à condição de figurante. Nesse momento, as roupas eram tratadas como empecilhos, embora a própria sensação de tirá-las fosse um ato cujo prazer fosse inebriante. Fugi antes que dessem por mim.

A princípio, senti o alívio indescritível de sair da condição de condenado a morte para a de fugitivo da justiça indonésia. Tanto que sequer dei-me ao trabalho de checar o mundo a meu redor. Corri até meu sangue começar a ferver. Cheguei, então, à praia onde havia sido preso, onde tudo havia começado. A turista australiana estava lá, os mesmos seios expostos, o movimento subversivo: a revolução havia chegado. Todos os turistas australianos, alemães, franceses, todos os vendedores de bugigangas, massagistas ambulantes, pessoas de conduta duvidosa, estavam todos nus. Sequer era possível saber o que faziam. Uns rolavam pela areia, outros comiam tudo o que antes era vendido, a imensa maioria não conseguia parar de se tocar. Muitos, talvez a maioria, faziam sexo. Pelo que pude entender, só paravam pelo cansaço e limite dos corpos. Todos estavam exaustos. O orgasmo em si parecia um prenúncio da morte, tal a sua força. Não podiam mais compreender as necessidades corporais, tamanha a ocupação com as sensações.

Era Babilônia, Atlântida, Utopia. O mundo onde sempre quis morar. O ser humano finalmente alcançara o nirvana. O problema é que ninguém parecia dar-se conta disso. Era uma pena todo mundo estar achando tudo tão lindo (era, assim, meio Caetano) e ninguém saber falar nada a respeito. Progressivamente, a situação foi-se revelando. Os sentidos eram tão aguçados que impediam qualquer reflexão. O mundo nunca havia sido tão radicalmente sensual. E isso podia ser visto na televisão, também: imagens de cinegrafistas admirados com a câmera, acariciando lentes, locutoras que declararam jamais posar nuas para revistas masculinas expunham-se despudoradas em transmissões ao vivo para o mundo todo. Programas de fofocas tinham material para milênios, diante das loucuras cometidas. Chefes de cozinha devoravam ingredientes antes do término dos pratos. Pessoas morriam por intoxicação com os mais diversos gases e líquidos. Lojas de perfumes invadidas, restaurantes em situação caótica. Anos de ideologia marxista para ver o mundo capitalista decair com uma simples depuração dos sentidos humanos. A mudança veio não com uma idéia, mas com o apogeu do corpo.

As exclamações por Deus eram expressão sem sentido, nenhum padre anunciava o apocalipse. Batinas somente podiam ser vistas quando se analisava cuidadosamente as roupas espalhadas pelas ruas. Igrejas eram profanadas pelos próprios guardiães. Absolutamente ninguém orava neste momento crucial. Pessoas vilipendiavam anúncios pregando a temperança, o jejum e abstinência sexual. Nunca houve tanta emissão de dióxido e monóxido de carbono: pessoas fumavam tudo o que encontravam, comiam lixo. Grande parte da população morreu vítima de overdose: traficantes, seguidos por policiais, médicos, usuários das mais diversas substâncias.

Tudo era experimentação. Importava sentir tudo de todas as maneiras. Não havia diferença entre prazer e dor, ambos eram o mesmo extremo. Pessoas cortavam-se, mordiam-se. O estupro era uma impossibilidade: embora nem sempre o sexo começasse com o expresso consentimento, era imediatamente aproveitado por todos. Via-se orgias em todas as ruas, em todos os becos, em todas as casas. A orgia era o mundo. Alguns pecados capitais foram elevados a normas pétreas: gula e luxúria. Pena não haver pecado para todos os sentidos. Sempre fui a favor do pecado. O pecado era minha Bíblia, meu Alcorão, minha Torá.

Atividades produtivas foram absolutamente abandonadas. O PIB caiu a zero em questão de horas. Havia somente a destruição das riquezas, sem qualquer reposição. Por alguma maldição divina advinda da minha antiga condição de devasso amador, por alguma inversão calculada, ou talvez por mero acaso, fui destinado a ser mera testemunha dos acontecimentos. O esgotamento causado pelo esforço excessivo na busca de sensações, que por sua vez gastavam mais energia por si só, aliada à falta de comida e impossibilidade de se concentrar em atividades, foi causando a morte de mais e mais pessoas.

Sequer posso dizer que foi o amor que matou as pessoas, embora víssemos palestinos e israelenses ultrapassando suas fronteiras usuais para tocarem-se, assim como migrantes e nativos, ricos e pobres, negros e brancos, velhos e jovens. Era a união universal, o mundo antes da construção da torre de Babel, o fim da propriedade privada dos meios de produção e de reprodução. Mas não era o amor. Era, talvez, o homem elevado à última potência, o além-do-homem de Nietzsche, o herói de Sade. Alguns diziam ver anjos, ver cores que nunca tinham visto antes, auras ao redor dos demais. Sentia-se o odor de coisas dentro da água. Diziam que o próprio derretimento dos quitutes no interior da boca era capaz de causar sensações acima de qualquer coisa jamais imaginada pelo ser humano. Dionísio era o deus supremo de nosso renascimento e de nossas pulsões.

Agora, procuro sobreviventes. Não sei se posso encontrá-los, se existem. Caso alguém escute, por favor venha. Eu preciso de você.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A criança e o ar


 
A criança, deitada no colo da mãe, respirava e sentia a respiração da mãe. Sob o efeito de um anseio profundo de comunhão, uma vez tendo consciência da respiração de sua mãe, procurava sincronizar a sua à dela.

A criança não conseguia fazê-lo perfeitamente. Segurava o fôlego, mal inspirava, soltava o ar longamente depois, ofegava, ficava sem ar. Apesar da dificuldade, não podia mais respirar livremente. Tinha de respirar com a mãe, no mesmo ritmo, na mesma cadência. Quando conseguia, sentia-se mais ligado a ela. Desconfiava que algo profundo os unia.

A criança, já adulta, não se liberta desta necessidade de comunhão profunda com a pessoa amada. Deitado na cama com a mulher, no silêncio profundo da noite e dos corpos exaustos, ele procura sincronizar, lentamente, sua respiração à dela. Ainda tem a mesma dificuldade: segura o fôlego, mal inspira, solta o ar longamente, ofega, fica sem ar. Todavia, sentia aquele antigo alento quando conseguia, finalmente, sincronizar sua respiração à dela.

A mesma ânsia, a mesma necessidade. A falta de liberdade ligada à consciência de que realmente não é livre, de que não consegue viver, de que não pode respirar longe dela.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Jornada

Primeiro café.
Precisa ler, precisa
virar página, superar,
esquecer essa
mulher.

Segundo café.
Não consegue ler, tenta
ouvir música, abafar
coração e falta
de fé.

Terceiro café.
Volta a rotina, trabalho
em dois turnos, estudo
de noite, o que mais se
Quiser.

Quarto café.
Evita o rumor de
não mais poder ser
o que você
é.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sobre literatura (Discurso a propósito do lançamento de um romance)

Caros senhores, bem-vindos. Fiquei surpreso, a princípio, com o convite deste notável escritor para discursar na celebração do lançamento de seu novo livro. Jamais escrevi obra literária alguma, não sou escritor no sentido mais estrito do termo. Certo é que escrevi alguns livros em minha área, psicologia, que, embora relativamente citados, somente poucos desinformados e amigos generosos leram. Talvez meu amigo escritor pense que, por ter escrito livros sobre a psique humana (ou, alguns diriam, a alma), eu pudesse dizer algo sobre os personagens que povoam suas obras. Infelizmente, a riqueza de possibilidades interpretativas de suas obras me escapa, sou um psicólogo limitado, tive contato somente com as vidas das pessoas que passaram por meu consultório. Cada livro de meu amigo tem mais personagens do que tive a chance de analisar em toda minha vida profissional.

A verdade é que, poucos nesta sala devem saber, tenho a honra de ter acesso a um dos espíritos mais privilegiados da vida cultural de nosso país, sendo eu analista do homenageado. Embora não tenha odireito de dizer pormenores de nossos inúmeros encontros, o fato é que a narrativa de nosso autor sobre sua própria vida configura literatura. A trama tecida dentro do espírito deste homem é grandiosa a tal ponto que muitos psicólogos invejariam a posição que ocupo.

E não é esse o dever do escritor? Transformar tudo em matéria literária? Pois a capacidade de meu companheiro nesta área chega a ser assustadora em alguns momentos. A precisão com que descreve cada detalhe, cada ato, cada acontecimento de sua vida já faz entrever do que será capaz com a pena em seu poder. Caso tivessem acesso ao que ouço e procuro analisar, alguns poderiam compreender melhor sua preferência por longas descrições de cenas, de mínimos atos, que muitas vezes estendem-se por muitas páginas.

Alguns críticos são incapazes de captar a importância que o autor dá a tais descrições e acabam por classificá-las como inúteis e sem propósito na trama e, continuam, dizem que suas obras são menores, já que, sem estes trechos, a trama em si é desvelada como banal.

Embora esteja tão fora de moda nos círculos intelectuais, pode-se traçar um paralelo importante entre a obra e a vida do autor. Não pretendo proceder a isso da maneira que se faz habitualmente, relacionando fatos marcantes de sua vida a temas constantes em sua carreira. Pretendo fazer, diversamente, um paralelo entre seu estilo e a maneira pela qual encara sua própria existência. Alguns dos doutos senhores poderão não perdoar-me por utilizar a psicanálise de maneira tão livre para entender algo de literatura, mas seguirei em meu propósito.

Pois bem, voltando à crítica literária, da qual praticamente nada entendo, pode-se observar, no discurso do escritor sobre sua vida, elementos de seu estilo literário. De fato, pode incomodar a importância significativa que o escritor atribui a acontecimentos sem importância evidente, em suas histórias. No entanto, mal sabe o leitor que o produto final é produto de longa labuta do autor em diminuir e eliminar a maior parte de suas longas descrições. Em meu trabalho analítico, posso garantir que o autor fornece ainda maior riqueza de detalhes em cada um dos episódios que protagoniza. Atribui a cada um dos elementos insignificantes de sua vida uma riqueza de floreios que deixaria a muitos surpreendidos.

Insisto, os livros que escreve são muito contidos em comparação ao que o escritor faz de sua vida. O leitor não tem acesso à importância que nosso escritor dá a cada uma das catástrofes desprezíveis que permeiam sua existência patética, uma tragédia sem o elemento essencial do pathos. O protagonista pensa sempre estar elaborando planos geniais quando, na verdade, não consegue fugir da banalidade de que sofre praticamente todas as suas criações. Daí surge a megalomania que muitos percebem em seus personagens, quase sempre transitando num mundo indiferente a suas ações pretensamente grandiosas. Certos leitores, enganosamente, entenderam haver por trás de suas narrativas fina ironia que, garanto, nunca foi intencional. Somente quem pode ouvir a repetição insistente de narrativas em círculo onde o narrador pensa haver evolução pode compreender que não é essa a intenção do autor, cuja vida é cheia de obstáculos imaginários que não são ultrapassados por sua própria incapacidade de enxergar além dele mesmo. Esta cegueira individualista de que seus personagens também são vítimas.

As análises sobre suposta mímese não são compatíveis com o fato de que não pode haver mímese do nada, do sem assunto, do não-ser. Não se pode falar da representação do vazio, como se pode perceber nas vidas dos personagens, que parecem não ter referencial dentro do próprio mundo imaginário em que vagam. A falta de perspectiva total, aparentemente proposital, não passa da falta de capacidade do próprio autor de unir estruturas e criar um sentido único, como um deus que não consegue entender a falta de sentido de sua existência, que ele imagina ser inauguradora de um novo tempo.

O estilo do escritor, em suma, decorre de seu pensamento, de sua visão de mundo. O modo como descreve e preenche páginas não passa de sintoma disso. Pode-se dizer que houve união, neste caso, entre linguagem e pensamento. Somente um ser tão inconsciente de si poderia ter angústia de ser influenciado por outros, já que revela-se incapaz de enxergar algo além de si mesmo. Doutos literatos aqui presentes, não há que se falar em hermenêutica intertextual, em diálogo algum. Aqui, há só a eterna repetição de monólogos entre personagens e obras que pensam estar falando entre si. Existe aqui, somente, a auto-referência, insistente e sistemática.

Podemos atestar, como outros já fizeram antes de mim, que o autor não consegue escapar de suas experiências na construção de suas obras. Se é que se pode chamar de experiência o eterno orbitar-se ao redor de si próprio. A certeza de que se é o centro do mundo, o próprio sol, de que sua ausência poderia causar um colapso no universo. Essa incapacidade (perdoem-me, mais uma vez, por usar a psicanálise) de ultrapassar a infância e atingir a maturidade, esta falta de consciência de que o mundo é independente do self. Eu tive oportunidade de conferir isso por anos e anos a fio e não posso mais me conter. Por isso não me venham, nobres senhores, argumentar com estéticas da recepção. Catarse, o caralho. Eu... bem... interrompo por aqui. Muito obrigado.

(O palestrante retira-se bruscamente do recinto e não se dispõe a fazer quaisquer esclarecimentos sobre a tese apresentada).

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Coesão

Cada vez menos acredito em palavras. Palavras são ditas ao vento. Ainda mais declarações de sentimentos. Entre atos e palavras, eu fico com os atos. Eu acredito em atos. Muitas palavras não passam de palavras vãs.

Com o aumento do número de pessoas morando sozinhas e o preço dos aluguéis aumentando indefinidamente, o tamanho médio das habitações torna-se cada vez menor. Vai chegar um dia em que todos os espaços serão feitos para conter uma única pessoa, o que impedirá a socialização em ambiente doméstico. Nesse dia, todos nós enviaremos e-mails diários uns aos outros e chamaremos isso de amizade.

As pessoas sempre ouvem seu nome quando, na verdade, outra coisa foi dita. Penso que, no caso dos falantes de português, é a vogal tônica que as pessoas mais ouvem quando são chamadas. No meu caso, sempre acho que estou sendo chamado quando clamam “meu deus”. Isso deve ser um sinal muito grave de egocentrismo e ilusão de poder.

Hoje eu estou de mal de mim.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Fio

Um fio de cabelo
é bem pequeno.
Pode variar
de alguns centésimos de milímetros
até 0,03 milímetros.

Um fio de cabelo
é bem colorido.
Pode variar,
de acordo com a quantidade de melanina,
de bem louros até muito pretos.

Um ser humano
possui muitos fios de cabelo:
pode variar de 100 a 150 mil.
Caem, cada dia,
cerca de 100 fios.

Saía para o trabalho
que provê o pão
de cada dia
com meu terno e
minha gravata

e entro no carro
e dirijo em meio à multidão
de pessoas, algumas
com pressa, outras
nem tanto.

Chego na repartição
atrasado, trabalho
acumulado sobre a
mesa, sento-me em
minha cadeira

e, da maneira
mais imprevista,
encontro um fio
de cabelo em
minha gravata.

Mais fino, mais claro,
mais longo, não era meu:
era seu.
Parte do seu corpo em
minha roupa.

Era mínimo,
quase imperceptível.
Um oceano
pode nascer de
um fio de cabelo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Reality television 2

Eu sempre tive dúvidas em relação a meu namorado. Eu gosto muito dele, ele sempre me fez rir e me sentir mais segura, mas, algumas vezes, acho que ele é muito acomodado: não arruma suas coisas, não toma a iniciativa em relação à vida profissional, não escolhe o que quer fazer. De vez em quando, parece que sou mais mãe dele do que namorada. Meus pais também têm dúvidas se ele é a pessoa certa para mim. Vivem dizendo para ele “tomar um rumo” na vida, que essa história de música não dá futuro, que isso é coisa de adolescente. Ele já tem 28 anos.

Olha, eu não vou dizer que não gosto do meu genro. Só acho que, talvez, nossa filha deva ver outras possibilidades. Desde a primeira vez que o vimos, ele não parecia levar a vida muito a sério. Lembro que estava no sofá e nem se levantou para nos cumprimentar. Que tipo de folgado é esse?, pensei. Mas depois vi que era boa pessoa. Só penso que minha filha merece alguém mais sério, com quem ela possa crescer junto. Não alguém de quem ela tenha de tomar conta. Você sabe, todo pai quer o melhor para a filha.

Olá, começamos agora o programa “Você quer trocar de namorado?”, onde uma pessoa com namorado, que se inscreve no programa, tem a possibilidade de ter um encontro com alguém diferente, para decidir se deve mesmo continuar o relacionamento ou trocar de namorado. Para quem nunca assistiu o programa, o funcionamento é simples: nós acompanharemos o encontro da N. com a pessoa que ela mesma escolheu, o L., com base nos dados que ele nos passou pela internet. Tanto os pais quanto o atual namorado dela, C., também assistirão o encontro, para que possam dar sua opinião sobre o que acontecerá até que os pretendentes se despeçam. Por favor, não saiam daí!

Eu não sou daqueles caras inseguros que ficam com ciúme da namorada. Não sou otário, tenho auto-confiança, saca? Eu gosto da minha namorada e sei que ela gosta de mim, sei que eu sou bem melhor para ela do que qualquer fracassado que tenha enviado os seus dados para um canal de televisão. Um cara desses só pode estar desesperado. Eu não sou assim. Acho que minha namorada só topou fazer o programa por influência, por pressão mesmo, dos pais. E eu dei a maior força. Cada um faz o que quiser, saca, todo mundo é livre para fazer o que quer no mundo de hoje. É por isso que ela gosta de mim, cada um com suas coisas. E eu seguro as pontas: sei que tem muita mulher que me quer por aí, minha namorada também sabe disso. Ela não vai largar um cara como eu por qualquer um. Ao conhecer o cara desesperado, minha namorada vai gostar ainda mais de mim, isso, sim.

Eu tenho 30 anos e, diferente de muitos amigos meus, já tenho uma vida completamente independente dos meus pais. Tenho um trampo legal, provisório mas que dá uma grana boa. Moro com alguns amigos num apartamento bem espaçoso, com quartos individuais. Gosto muito deste esquema: juntamos nossos amigos direto no apartamento, fazemos umas festinhas, conhecemos a galera um do outro e, ao mesmo tempo, temos nossa privacidade, especialmente quando rola mulher no pedaço, isso é essencial. Sou inteligente, gosto de ler, tenho um gosto musical legal, tem muita menina que se apaixona por mim. Resolvi fazer esse programa porque assistia com meus amigos e resolvi me candidatar a ser um dos caras que pega a namorada desses panacas que deixam a namorada sair com outro. Só pode ser provocação! Tenho certeza de que ela vai preferir a mim.

L. chega na casa de N., onde a acompanham os pais e o namorado dela. Olhem como a apresentação é um sucesso. Todos se cumprimentam, podemos ver um sorriso no rosto de N.. Acho que ela ficou feliz com o que viu, vocês não acham? Já o namorado, não sei, não. Mas ele sorri, cumprimenta. Os pais também parecem estar bem satisfeitos. Logo depois, o casal vai para uma das boates mais badaladas da cidade, e L. não é bobo: já tinha feito reserva para a área VIP, e eles sequer têm de passar pela fila. Dá para notar a expressão impressionada e feliz de N., ainda mais quando percebe que ele já conhece o pessoal da casa. A conversa é animada, e já podemos observar a linguagem corporal dos dois. Ela mexe no cabelo sem parar, sempre sorrindo e sem tirar os olhos dele. Não perdem uma só oportunidade de se tocarem, seja nos braços, nas coxas, no cabelo, ainda que de leve. Eu acho que vamos formar um novo casal! L. pede para utilizar o seu direito de 10 minutos longe das câmeras. Quando voltam, os lábios de ambos estão mais vermelhos e dilatados. É isso aí, não há dúvidas: eles beijaram!

Nós gostamos bastante do pretendente de nossa filha (olhando para a mulher em busca de um olhar de aprovação). Ele é mais velho, parece mais experiente e com mais iniciativa. Nas conversas, confesso que ele não me pareceu tão inteligente quanto afirmava, até porque ficou meio confuso quando começaram a falar de alguns assuntos. Mas não há dúvidas de que ele sabe como conquistar: prepara tudo de antemão, veste-se bem, conhece as pessoas. Vamos ver como a noite caminha.

O cara é um babaca. Fica pagando de culto, mas não sabe conversar um minuto sobre coisa alguma. Dá para ver que é um daqueles caras que ficam o dia todo na academia e lêem revistas masculinas para tentar conquistar mulheres. Mas dá para ver que não sabe nada de mulher. Coitado. Não dá para ter certeza de que a N. beijou o cara. Se beijou, foi só para seguir o roteiro do programa. Depois da conversa, da total falta de papos interessantes, deu para ver que ele não tem a mínima chance de ficar com ela no final.

Nem sei se quero namorar a mina, mas já tenho pena do otário do namorado dela, que nem consegue garantir que ela fique só com ele. Claro que eu a beijei. Ela gostou, foi pegação total. Longe das câmeras, ela sabia que o coitado não ia ter de assistir. Foi lá que ela disse que queria continuar o encontro, que estava interessada em ir para outro lugar. Eu sugeri um vinho na minha casa, ela topou. Já sabe onde isso vai dar, né? Eu não deixarei de aproveitar. Cara, a menina é assanhada, estou esperando uma noite bem animada.

A partir da terceira taça de vinho, tivemos de parar a transmissão e colocar uma senha de segurança em sua televisão. Caso você seja o titular da assinatura e tenha mais de 18 anos, basta digitar a senha programada que você poderá continuar a assistir ao programa, que está mais quente do que nunca. Bem, apenas para quem já digitou a senha, passamos à casa onde se encontram os pais e o namorado de N.. Os pais preferiram não assistir à nossa filmagem, a partir do momento em que o casal passou para o quarto de L. Já o namorado disse que não tinha problema algum em assistir ao que já estamos mostrando aos nossos telespectadores. Embora L. tenha se gabado de sua performance sexual, quem parece estar mandando no show é mesmo N. Olha só como ela chega com vontade, não perde um só pedacinho do corpo dele. E, além de acrobata, tem um corpo incrivelmente gostoso. Temos de admitir que assisti-la parece ser melhor do que ver uma cena com Jenna Jameson, olhem como ela se move por cima dele. Como ela utiliza todas as possibilidades de posições, e faz tudo com vontade, olhando sempre nos olhos dele. Um furacão, um furacão do tipo que geme alto. A coisa toda só acaba depois de uma hora e meia, mas ela parecia querer ainda mais. Os lençóis e os corpos estão úmidos, ofegantes. Um de nossos melhores programas, certamente.

Olha só como o cara é ruim de cama. Nem se mexe, uma tristeza. Ela parece estar gostando, mas é para seguir o roteiro, como eu disse. Senão, iriam acusá-la de pudica. Além do mais, tenho certeza de que ela quer aumentar ao máximo a audiência do programa, porque, no fundo, tem vontade de ficar famosa. Eu estou tranqüilo, dei liberdade total para ela fazer o que quisesse. Não sou um namorado ciumento, não sou conservador ou machista. Cara, nossa liberdade é essencial, cada um faz o que achar melhor. Eu parto dessa filosofia. Se ela quiser transar, transa. Mas comigo tem de ser igual. E o cara nem transa bem. Eu dou a ela orgasmos múltiplos diários. Esse cara aí, coitado, se conseguir proporcionar um, já seria um milagre. E esse pau pequeno. O cara é alto e tem pau pequeno, pelo amor de deus! A N. deve ter-se decepcionado. Comigo, é bem diferente. Eu dou exatamente o que esperam de mim, ou mais. Enfim, o cara é mesmo um fanfarrão.

Durante todo o depoimento do namorado, que utiliza detector de mentiras, notamos que seu coração bate descompassadamente e que sua respiração está com arritmia. Vocês acreditam que ele fala a verdade, telespectadores? Eu digo que não. A coisa está muito duvidosa. No mínimo, não gostou do que viu. Neste programa não entra hipocrisia.

Meu namorado me deu liberdade total para eu fazer o que quisesse esta noite, então não pode reclamar. Além do mais, eu queria mesmo aproveitar, não é todo dia que se tem uma chance dessas. O L. é muito bonito, forte, alto, um pouco rústico e tem um quê de cafajeste. Tem aquele ar de confiança e decisão. É o tipo de homem de que uma mulher gosta. Então, por que eu não iria para a cama com ele? Também, eu não poderia escolher entre meu atual namorado e ele sem saber como seria o sexo. Isso é essencial, faz toda a diferença. E aquelas câmeras em cima de mim, aquilo me deu muito tesão. Senti-me uma estrela na cama, pensando em todas as pessoas que poderiam estar me assistindo. Nunca fui tímida, ainda menos nesta situação. Acho que gosto mesmo é de me exibir. Ele poderia ser melhor, mas foi o suficiente. Nossa, ainda estou trêmula.

Eu sei que os casais de hoje em dia são assim. Nós mesmos vivemos a revolução sexual, embora ainda sejamos tímidos diante disso tudo. Mas compreendemos, os jovens estão cheios de energia e vivem num tempo mais liberal. Mas também não pude assistir a tudo, achei melhor ficar ignorante a respeito da parte sexual da vida de nossa filha, embora sempre soubesse que ela não é diferente da maioria do pessoal da sua idade (olha para a esposa, novamente, em busca de um olhar de aprovação). Pelo jeito, ela ficou feliz com o encontro, senão não teria ido à casa do rapaz. Vamos ver o que ela irá decidir.

Cara, você viu como a mulher estava louca para dar para mim? Eu disse que a noite iria ser animada. Eu disse. Também, pô, depois de uma noite com entrada VIP, vinho bom e um beijo bem dado, se a mulher não transasse, estaria desperdiçando um cara foda. Se ela não quisesse, muitas outras querem. O namorado viu? Não deve ter ficado nada feliz, hehe. Ver que a namorada dele estava desesperada para me pegar, e ver tudo o que eu fiz com ela. Só pode ser masoquista. A gente fez de tudo, e eu nem pedi. Ela é que foi mostrando que queria que eu fizesse aquilo ali no final. Putz, nem toda mulher topa fazer aquilo. Cara, tô até cansado. Na pior das hipóteses, tive uma noite gostosa. E ainda sacaneei mais um otário que não consegue prender a própria namorada.

Eu prefiro continuar com meu namorado. Embora ele seja muito criança de vez em quando, nós já nos entendemos bem. Eu gosto dele. O L. é muito interessante, muito sexy, mas nosso papo poderia ter sido melhor. Eu sinto que a gente pode acabar tendo problemas com as diferenças, mais tarde. O sexo foi bom, mas meu namorado já me conhece, sabe os lugares onde mais gosto de ser tocada, o que gosto de fazer, acaba conseguindo me dar muito mais prazer. Mas foi bom ter brincado com uma pessoa com um corpo diferente e com muita vontade de fazer tudo o que fizemos. Adorei me sentir desejada daquele jeito. Acho que uma das melhores coisas, aliás, foi sentir que estava sendo ardentemente desejada. No fundo, talvez, eu quisesse mais isso. Mas meu namorado também me deseja muito, nos damos bem, prefiro continuar como está. Sei que ele vai compreender que o que aconteceu nesta noite não tem nada a ver conosco, com nosso relacionamento. Já conversamos sobre isso antes. Vi que ele confirmou nossas conversas durante o programa. Por isso, somos felizes. Nos conhecemos muito bem e sempre pensamos um no outro.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Diários de Bali: primeiras impressões

No avião para Bangkok, depois de comprar um guia em Frankfurt, começo a ler e, finalmente, passo a saber algo sobre o país para onde estou indo. Estou ao lado de um casal de alemães (mais tarde, fico sabendo que os alemães são os europeus que mais vêm a Bali) bastante simpático. Não falam quase nada de inglês mas sorriem o tempo todo, consomem grande parte do arsenal de bebidas que a Thai Airways fornece e brindam quase sempre; parecem em lua-de-mel, mas seus filhos na fileira de trás e sua idade denunciam que já estão juntos há muitos anos.

Desço em Bangkok, pego o avião para Bali. Começo a pensar, entre turistas malaios e australianos, nos bombardeios de 2002 e 2005. Incrível o número de pessoas indo à ilha, sabendo que foram o alvo dos ataques terroristas: o objetivo. História colonial típica: companhias comerciais, seguidas pelo próprio governo holandês, antes dos japoneses e, finalmente, a volta dos holandeses, que não iriam largar o osso tão facilmente. Esta foi a integração dos países “não-ocidentais” (o que inclui América Latina e África) à sociedade internacional. Porém, no presente eterno em que vivemos, não há espaço mais para discutir estas coisas. A independência, a influência dos comunistas e a Guerra Fria, os anos sob Sukarno, logo os anos sob Suharto, a influência dos militares na política durante longo período, e o “bem-vindo” período democrático. Megawati, islamismo, hinduísmo, sendo o ex-general Susilo o atual presidente.

É o outro lado do mundo. Chego às 14h, horário local, 3h da manhã no Brasil. Entre conexões e horas de vôo, cerca de 30 horas de viagem. Chego no hotel, pensando em cochilar, e durmo por 8 horas, não sei se por causa do cansaço da viagem ou porque eu estaria dormindo no Brasil, embora aqui fosse o meio da tarde. É o outro lado do mundo.

E, ainda assim, é outro mundo. Come-se nodles (come-se nodles em todas as refeições) e batatas no café-da-manhã, tofu, carnes em geral. O vestuário é todo colorido, até mesmo em ambientes mais formais, como no caso da conferência de que participei. Aliás, tudo aqui é mais colorido, mais vivo: a arte, as roupas, os objetos. Observo que o bigode, ao contrário do Brasil, é muito comum por estas bandas. Badmington é, ainda não consigo acreditar, o esporte mais popular do país. Badmington? Really?, eu pergunto. Badmington?

O trânsito é um capítulo a parte. Há mais motos e mototáxis do que a média brasileira. Detalhe: metade deles sem capacete. Outro detalhe: crianças dirigem grande parte das motos. Crianças são colocadas em motos com os pais e, se algum deles está sem capacete, são sempre os filhos. Em Bali é comum ver cigarros de Bali, que me fizeram começar a fumar, e ainda não há a perseguição ao tabaco que se costuma perceber na maioria dos países “ocidentais”: pode-se fumar em praticamente todo lugar. O trânsito é caótico, eu não teria a mínima condição de dirigir por aqui, por mais imprudente que alguns me considerem. Dirige-se do lado esquerdo, como os ingleses, e a buzina é onipresente. Dentro de um táxi, observo o motorista utilizando a buzina de 15 em 15 segundos, e não consigo compreender para quê, para quem está buzinando. Parece um hábito, algo mecânico, embora eu saiba que é algo que me escapa. E qualquer pessoa pode entrar no meio da rua e parar o trânsito, sem grandes reclamações dos motoristas. É o que fazem os funcionários dos hotéis, para chamar táxis ou permitir a saída de algum veículo, ou até mesmo para permitir que os turistas consigam atravessar a rua. Aliás, as ruas são muito estreitas e as calçadas, mais ainda.

Grande parte da minha vida social com os nativos ocorreu dentro de carros, em conversas com os motoristas e guias. O sotaque em inglês é muito diferente daqueles aos quais eu tinha me habituado, e é comum eu pedir para que repitam a frase para que eu consiga entender. Todos trabalham muito (é impressionante o número de estabelecimentos que ficam abertos até tarde da noite, senão 24h) e, não obstante, parecem sempre estar de bom humor. São orientais de pele morena, e tendem a ser mais baixos do que eu. Outro susto: ao tirar foto para minha credencial, a funcionária da conferência, ao ver que teria que ajeitar a câmera, disse-me, com um ar sério, que eu era “alto demais”. Eu quase agradeci o elogio!

O governo não parece ser tão presente na vida das pessoas de Bali. Poucas vezes vejo funcionários governamentais, incluindo a polícia, ou estabelecimentos públicos. A economia, aqui, é toda voltada para o turismo, que representa cerca de 70% da renda local. Assim, quase todas as placas são escritas em inglês, e praticamente todo mundo consegue estabelecer uma conversa, ainda que simples, nesta língua. Assim, todos tentam fazer sua parte para facilitar a vida dos turistas. Há muitas casas de câmbio (não sei se autorizadas; algumas têm escrito “authorized money changer”. Isso quer dizer que as outras não são?), hotéis, spas, caixas automáticos, feiras, vendedores ambulantes, restaurantes para todos os gostos. Os bombardeios foram uma péssima notícia para todo mundo: o movimento turístico é cerca de metade do que era até outubro de 2002. Muita gente, na ocasião, perdeu o emprego, muitos estabelecimentos faliram. Ouvi muitas histórias desse tipo em minhas conversas. Mais uma vez, os estabelecimentos privados fazem sua parte: todos os carros que entram em hotéis têm os porta-malas revistados e um detector é passado na parte de baixo de cada um deles. Em outras palavras, ainda pode-se respirar os ataques por aqui. Os mais jovens brincavam com palavras como “fuck terrorists”. Cheguei a ver camisetas a venda com estes escritos. Um turista ocidental mais inteligente não usaria estas camisetas: poderia parecer arrogância, provocação e, dependendo, até mesmo uma ofensa direta. Mas eu não acredito na inteligência dos turistas.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Querida Sara,

No início, quando vi você começar a sair de casa e fazer amigos, ficava muito feliz de vê-la feliz. Era um entra-e-sai de casa, seus amigos vinham buscá-la para sair à noite, e eu estava contente de ver que você aproveitava a vida. A participação no grupo e seus segredos dissimulados em rosto completamente apaixonado faziam sua pele ficar ainda mais bela. Passei gradualmente a ter menos contato com você. Isso era natural, pensava eu, nenhum pai tem acesso real às vidas de seus filhos adolescentes.

Você chegando cada vez mais tarde, eu dormindo cada vez mais cedo. Imaginava que estava correndo tudo bem na faculdade. Não estava mal, de fato. Você sempre elogiava as aulas de publicidade, gostava dos colegas, trazia alguns em casa. Eu divertia-me com as gírias que surgiam a cada segundo em suas bocas, nas refeições em que partilhávamos a mesa. Finalmente, vieram também os namorados. Você tratava-os com altivez, não sei se isso os agradava, mas o fazia a mim, que ficava certo de que você não se arrastaria facilmente aos pés de qualquer homem. Eu tinha tanto orgulho da sua independência, desta sua altivez.

Houve preocupações. Esbarrões nos móveis madrugada afora, ânsias de vômito, despertar no chão da casa, nos chãos de outras casas, reclamações de vizinhos, enquanto eu viajava. Você, popular, o celular sempre vibrando de amigos, tocando solicitações de presença. E você disse sim a todos, irei, claro, não posso perder, já estou lá. Haja festas para você. Nem havia tantas, e você então as levava para nossa casa, amigos bebendo na sacada. Cartão de crédito cada vez mais alto. Eu faço estágio, pai, posso me virar sozinha. E lá foi você, adiante, cada vez mais longe.

Mudou-se de casa.Visitava pouco, nossas conversas sempre terminavam com você chateada comigo, eu chateado com você. Na mesma cidade, não conseguíamos nos ver muito. Confesso que, muito embora eu manifestasse vontade de te ver mais, estava imerso em outras coisas, e (sou obrigado a dizer) nossas discussões diminuíam um pouco esse desejo de vê-la, pois eu sabia que esses encontros não seriam bons. No fundo, eu tinha saudade de você quando criança. Eu deveria ter vergonha de dizer isso, de manifestar verdades cruéis a você.

Eu vi, porém, que você não era mais criança quando seus hábitos passaram a ser mais claros para mim. Você não estava mais no estágio, e nem haveria razão, pois já havia terminado a faculdade. Não obstante, não parecia estar interessada em emprego algum. Continuou vivendo como adolescente, embora com discurso até mais adulto, talvez, do que o meu. Mais inteligente. Sua vida era noite afora. E foi durante a noite que você afetou todo o meu dia, lenta e dolorosamente.

Seus amigos ligavam pedindo que eu fosse buscá-la nos mais diversos lugares. Depois, a polícia pedia que eu fosse buscá-la na delegacia. Soube que você dormira diversas vezes no carro, nas praças, nas ruas, em casas de pessoas que você não conhecia. Nem sempre havia alguém para buscar, amigo ou namorado para levar para casa ou para algum lugar seguro. A verdade é que não era seguro deixar você sozinha. Eu não sabia disso, digo isso agora, depois de tudo. Quando já é tarde demais.

Quando você sumiu por três dias, eu só fui saber muito depois. Ninguém quis colocar-me a par, acho que faltou coragem. Afinal, todos os que souberam da história eram meio culpados. Eu não sabia que minha família estava desmoronando. Para mim, estava tudo normal. Preferi ignorar. Continuava trabalhando, escrevendo meus artigos eventuais nos periódicos, mantendo relações com o pessoal do gabinete, fazendo a política de todo dia. Até que, um dia, minha rotina foi atropelada por notícias suas. Notícias publicadas nos jornais que costumava ler.

Aquela rotina é passado. As notícias foram multiplicando-se, fui varrido pela verdade e pelo moinho de fofocas que se deu depois. Perdi posição, perdi quase todo o meu dinheiro e propriedades duramente conquistados (tendo eu nascido em casa pobre) em pouquíssimo tempo, para pagar as dívidas que eu não soubera que você tinha acumulado. Meu nome agora é lama. O nome de toda a família. E sequer nos entendemos, você e eu, durante tudo aquilo. Sua postura arrogante, sua suposta independência de tudo o que se falava. Finalmente, não havia diálogo nem coisas sobre as quais lamentar. Tudo havia acabado. Eu reafirmava que ainda amava-a, e tantas vezes pedi para você mudar em nome do amor que eu dizia sentir e que não passava de mentira. Não sabia como você podia ter nascido. Olhava para você e via uma conspiração divina, um carma, punição, flagelo de minha existência. E menti, menti, menti, porque precisava sentir-me como pai, apesar de todos os meus sentimentos negarem isso. Eu odiava você, minha filha.

Ontem, porém, quando a vi de novo, algo em mim virou ao avesso. Você não era a sombra do que já tinha sido. Cabelo raspado, parecia caminhar pela casa de pijama há semanas, como sonâmbula, sem assear-se ou comer direito, e sóbria. Todos os amigos afastados, agora que não havia comemoração alguma de que você participasse. Os amigos que, soube, transavam com você (bêbada) quando bem entendiam, já que você pedia e se despia, que se divertiam com você. Seus namorados que não mais existiam porque você os traiu todos, diversas vezes. Alguns bateram em você. Tantos pegaram dinheiro e coisas emprestadas nunca devolvidas. Menina mimada, catalogavam. Estavam certos.

Olhando para você, outro rosto. Bem mais velha. A falta de lágrimas ao tentar explicar que, realmente, não se lembra de praticamente nada do que fez ou sofreu nos últimos cinco anos. Olha fotos, ouve relatos, lê notícias, não se reconhece. Você estava bêbada, doida, sei lá, os dois, você diz. Sequer sabe o que aconteceu. Está sem rumo. Não consegue arrumar emprego, não estudou muito nos últimos tempos, publicidade decaiu muito, você tenta argumentar. A verdade é que você mal compareceu às aulas da faculdade, não precisava para ser aprovada. Resolvi ficar em casa por enquanto, eu te vejo mentindo. A visita é um suplício para você, sequer consegue olhar-me nos olhos. Só para o tapete manchado de coisas várias e indefiníveis. Você não quer que lhe vejam tão frágil, não quer que tenham pena de você. Porque você sabe que você não merece pena de ninguém. Você não se preocupou, não teve consideração com absolutamente ninguém durante todo esse tempo. Vivia exclusivamente para você e paa ninguém mais. Você não merece pena nem do seu pai. Ainda mais do seu pai, de quem você arruinou a vida. Você sabe que metade dos meus cabelos brancos, das minhas rugas, dos meus olhos cansados, veio de preocupações causadas por você. Você tem vergonha.

Quanto a mim, voltei à condição de criança sem que haja tempo de construir novamente minha identidade. Sua mãe morreu tragicamente, ignorada, enquanto eu trabalhava. Só fui suspender tudo nos últimos dias, para vê-la emagrecer e adquirir manchas na pele. Você, nem isso. Perdi, sem sequer ter consciência, egoisticamente, a única pessoa que me amou de verdade. Dos amigos, sobraram tão poucos. Vagueio pela cidade sem rumo, como alma penada. Não imaginava que minha velhice seria assim. Eu tinha pena de mim mesmo. Um rancor imenso do mundo e, particularmente, de você.

E algo aconteceu desde ontem. Você não tinha esperança de mais nada. Sentia um ódio mortal de si mesma. O seu rancor não era do mundo ou de ninguém, era de você mesma. Você considerava-se desgraçada. Derrotada. E ainda tão jovem, tão jovem. Minha dor adquiriu novas tonalidades, ontem. Eu não tenho condições de assistir ao espetáculo com indiferença. Você desmoronou.

E tudo o que eu havia recusado sentir por você veio, tão inesperadamente. Você ainda tem tempo, minha filha, pode recuperar tudo. Eu sinto que suas provações têm um propósito, e este propósito é bom. Eu quero fazer você ter vontade de colocar uma roupa bonita e sair de casa. Eu quero fazer você ter vontade de amar os outros, de ter uma vida da qual você se orgulhe. Eu sei que isso ainda é possível, para você. Pensa mais um pouco, filha, e veja que não há porque se esconder o resto da vida. As pessoas esquecem, você também pode esquecer. Um dia, isso tudo parecerá só um sonho ruim. Você ainda é tão bela, mesmo com toda a sua tristeza, com toda a sua fragilidade. Você terá sua redenção, e ela virá sub-repticiamente, em pequenos momentos. Basta você recuperar a vontade de viver. Meu rancor de você transformou-se em esperança. Você, filha, é minha esperança de tempos melhores.

Eu nunca soube ou quis ser um bom pai. Eu reconheço que também fui egoísta e que, não fosse eu, as coisas poderiam ser bem diferentes. Eu sei que você não quer ouvir isso, sei que você não concorda. Mas eu também sei, agora, que eu amo você. Eu que pensava que, em minha velhice, isso já não era possível. Você não está sozinha, minha filha. Não enquanto eu estiver vivo. Eu prometo: você ainda há de ser feliz.

Do seu

M.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Interpretação do toque

Eu imaginava que estava fazendo carinho. Não era carinho, ela disse, você aproveitava da minha carência, destruiu-me emocionalmente, tornou-me dependente de você. Mas eu era, eu respondi, eu era dependente de você. Você não era, como todo homem, aliás, eu a vi dizendo. Você nos violenta, com seus falsos atos de carinho e amor, para continuar a viver do mesmo jeito, para depois abandonar-nos, mesmo mantendo tudo aparentemente como estava. Eu fiquei sozinha, solitária. Sozinha, esperando que você viesse tocar-me para recompensar toda essa solidão, longe de tudo e de todos, com exceção de você. Depois, derretia-me com sua violência, com esse seu falso afago que me prendia, que me impedia de seguir minha vida, enquanto você seguia o curso da sua, como se eu não existisse. Anos sendo violada e sem acesso a qualquer coisa sua. Foram esses carinhos eventuais que me fizeram transformar você no centro de minha vida, enquanto eu permaneci na sombra, em algum canto obscuro da sua vida.

Percebi, a partir daquele momento, duas possibilidades de toque: carinho e violência. Concluí, ainda, que o toque, o tocar alguém, pode ser as duas coisas, simultaneamente. Depende do ponto de vista, da pessoa, do momento em que se pensa sobre isso. Todo toque é diálogo, pois envolve dois corpos. O toque é ambíguo, portanto. A violência é, eventualmente, carinhosa, um ato de amor tresloucado. O carinho pode ser o pior ato de violência.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dúvidas

Se uma pessoa está em constante mudança, ela nunca é o que era antes. Logo, numa perspectiva temporal, não existe uma pessoa, mas várias pessoas, com corpo e alma diversos.
Nós nunca conhecemos totalmente alguém, nem mesmo a nós próprios. Portanto, há sempre espaço para o imprevisível. E, se estamos em constante mudança, como parece ser nosso caso, é ainda mais difícil e problemático dizer “eu conheço aquela pessoa” ou até “eu realmente me conheço”.
Apesar das afirmações anteriores, o amor existe. Nós dizemos, constantemente, “eu amo aquela pessoa”. Porém, se nós jamais conhecemos alguém, e se este alguém é sempre outro no tempo, a quem realmente amamos?
Tem gente que ama alguém querendo que ela realize um potencial imaginário, criado pelo amante (“amo porque sei que ele pode ser outra pessoa”). Tem gente que ama porque acha que o amado vai fazê-lo realizar o seu potencial imaginário. Tem gente que cria um sujeito imaginário e o ama. Em geral, a gente faz os dois, simultaneamente.
Mas o amor também muda com o tempo. Ele toma formas diferentes, ele tem graus variados. Ele aumenta, diminui, acaba. Essa variação tem alguma relação com a mudança individual dos amantes-amados? Podemos dizer que paramos de amar porque o amado mudou? Como, se nunca o conhecemos realmente, nem agora nem antes? Será que o amor acaba porque nossa capacidade de vestir o ser amado com a roupa que nos agrada, ou com as diversas roupas que podemos amar, esvai-se? O amor muda porque amante e amado mudam?
Mas o amor também tem contato com a realidade. O amante entende e percebe algo do ser amado: é quando dizemos “compreendo-o” (parcial e episodicamente, ao menos). É quando não mais porque pensávamos “que ela fosse diferente”. O amor tem fantasia vista como realidade. O ser amado tenta mudar para corresponder à fantasia do amante. Por isso, o amor também é, por sua vez, motor de mudança dos amantes-amados. Nós tentamos, ainda, ocultar o que pode não corresponder a estas criações imaginárias. Também podemos ver que os amantes mudam um ao outro, fazendo que com ambos fiquem bem parecidos a olhos de terceiros e deles mesmos.
Se o amor muda, de onde vem a estabilidade do amor? O amor é independente dos sujeitos-objetos do amor? E seu contato com a realidade, como fica? Como o amor dura se tudo muda, inclusive nós próprios?
Cá estão, nossos amigos de longa data. Anos, décadas. Nosso amor romântico pela mesma pessoa, amor longínquo. A gangorra eterna do amor.
Como funciona o amor? Ele pode explodir, como partículas instáveis numa molécula, como bomba atômica? De onde vem toda essa energia, de onde veio o amor? Como se mantém? Para onde ele vai?
O que é isso que chamados de amor?