quarta-feira, 13 de março de 2013

Como ser você mesmo agora

Eu sei que você não costuma ler textos com mais de um parágrafo ou, pior, que se estendem por mais de uma página. Eu te entendo. Para ler qualquer coisa até o fim, não consigo deixar de alternar janelas ou abas e seguir por fragmentos. Tudo é entediante. Mas quero te pedir, por favor, que tente ir em frente.

Sabe aquela coisa de “é preciso viver como se não houvesse amanhã”? Aquela coisa repetida eternamente em músicas pop, em poemas sem inspiração, “sinceros”, “confessionais” (argh), aquele clichê ambulante saindo de todas as bocas e (pânico) entrando em nossos ouvidos, diariamente? Aquela coisa hippie do “vamos amar como se o mundo fosse se acabar”, aquela coisa irritante da auto-ajuda, do “poder do agora”, do “viver o momento”, que tem séculos e até agora repetem como se fosse uma novidade? Por mais que eu tenha ânsia de vômito ao afirmar isto, por mais ridículo que isto possa parecer ou soar, a verdade é que estou passando por isto agora. Não terei amanhã.
Você não me conhece. Talvez tenha ouvido falar de mim. Contudo, você é possivelmente a única pessoa que pode realmente entender minha história. Decidi passar este último momento livre escrevendo esta carta para você. Isto é um teste.

Eu tenho um vício hediondo. Tudo o que posto no facebook, no instagram, no twitter ou outras redes sociais é medido pelo número de likes, de shares e de comments. É a única coisa que faz sentido para mim. Certas fotos, certas frases, certos objetos e certas pessoas simplesmente não têm o que é necessário para serem curtidos. E tudo o que não é “curtível” foi sendo eliminado de minha existência: roupas doadas, livros no lixo, músicas deletadas, amigos sem ligações de volta, imagens escondidas no fundo do armário, amores que não são fotogênicos. Se não há reação do público, era chato.

Não foi fácil perceber isso. Quando a gente conta algo para alguém, e aquela pessoa gosta daquilo, aquilo reafirma o nosso gosto. Pensava que tinha uma sensibilidade apurada. Também tinha o fato de que eu descobria as novidades antes da maioria das pessoas. A gente descobre em que lugares procurar. Se a reação àquilo é positiva, adota aquilo como parte de nossa identidade. Do contrário, dispensa e esquece. Se ela fica extremamente popular num segundo momento, a gente despreza igualmente. E parte para a próxima descoberta. Tudo natural.

Eu não nasci assim, nem você. Você devia ser uma pessoa sem graça. Ninguém devia olhar para você. Mas você nunca pensou que este menosprezo fosse justificado. Pressentia que era especial. Sentia que podia usar seu próprio fracasso como ferramenta para o êxito. Só um completo fracassado, um fracassado ressentido, entende a dinâmica da popularidade. Você encontrou eventualmente um lugar a que foi transplantada a dinâmica social: a internet. Eu te entendo.

Existe um lugar onde todos são felizes, habitado por milhões de pessoas do mundo inteiro. A banalidade da coisa, entretanto, não impede que cada habitante deste planeta se sinta especial (único), com sua própria personalidade e características que o tornam diferente, digno de ser amado. Faz-se amigos por lá com uma facilidade impressionante. Amigos ambém únicos. E felizes. Esta moderna Babilônia tem nome: rede social.

É possível contar uma história inteira? Eu vivia em uma cidade pequena. Como em toda cidade pequena, as pessoas todas se conhecem e importunam uns aos outros. Mas eu não tinha muitos amigos. Em outras palavras, eu passava o dia inteiro na frente do computador. Mal conhecia gente, conversava pouco. Achava ruim até sair para a rua. Testemunhar aos demais convivendo em grupos dos quais eu era excluído. Não tinha a mínima ideia do que eles falavam e temia ser ridículo e que zombassem de mim nas minhas costas. Tinha vergonha das minhas roupas. Vergonha do meu corpo. De existir. Eu era triste antes de ser considerado legal.

Só interagia pela internet. Primeiro, pelas salas de bate papo. As pessoas conversavam com quem não conheciam e os papos eram sempre truncados - começavam com um “oi-tudo-bem”, seguiam por um “quem-é-você-de-onde-você-é-o-que-você-faz” e terminavam com um “até-a-próxima” quando não havia próxima vez. Depois, por ferramentas sociais nas quais você adicionava outras pessoas, seus amigos virtuais.

Tudo o que houve antes foi uma preparação para chegar até aqui. Antigamente, era muito pouco sutil. Não penso que a natureza das coisas mudou, mas existe um limite que não pode ser ultrapassado. Aquelas fotos de gente expondo seus corpos em fotos de perfil, a impossibilidade de se escrever coisas privadamente, a sinceridade açucarada causando seguidas ânsias de vômito. Tudo era direto demais, honesto demais. Além disso, não havia câmeras, smartphones, tablets e outros gadgets conectados todos com fio, sem fio, por 3G, por 4G, por 37G. Foi preciso sofisticar tudo. Não era chegado o momento. Já estou me perdendo.

Eu vivia numa cidade pequena e era solitário. Já disse isso antes, né? Vivia na internet. Primeiramente, nos videogames. Depois, os videogames, os celulares, as câmeras, as televisões, tudo conectava-se entre si e com a internet. Um dia, li uma notícia sobre uma rede social nova, diferente do orkut. Era preciso um “convite” para entrar. Como tinha amigos estrangeiros, rapidamente recebi o tal convite. Fui um pioneiro, como você deve ter sido.

Quando começaram a entrar pessoas conhecidas, eu já vivia ali há algum tempo. Pobres diabos... Chegaram com aqueles mesmos hábitos toscos de sempre: fotos em poses patéticas e “sensuais”, frases sobre seus próprios umbigos, constantes elogios mútuos, discussões abertas sobre a vida alheia. Uma lástima. Porém, me adicionaram.

Eu era nerd antes de ser considerado legal (21 likes). Não sei precisar o que ocorreu primeiro, se a remissão dos nerds (dos papéis ridículos em filmes dos anos 80 para o protagonismo “cool” em séries dos anos 90 e 2000), se a disseminação das redes sociais. Foram complementares, de qualquer maneira. Meus amigos passaram a informar-se do que era hype pelo que eu dizia e aparecia em seus respectivos murais (a ideia do feed, aliás, é genial). O problema é que, quando comecei a ditar modas a pessoas que eu via na escola, elas começaram a reparar em mim (no meu eu físico, não-virtual). Isso exigiu mudanças repentinas. Foi preciso adaptar meu perfil offline ao meu perfil online. Passei a vestir roupas que condiziam com minha atitude virtual. Não podia mais falar qualquer coisa, escutar qualquer coisa, comer qualquer coisa, ir a qualquer lugar. Não podia haver contradição. Ao seguir à risca a nutrição “cool”, a ter o corpo “cool”, a praticar somente atividades “cool”, a ir exclusivamente a lugares “cool” e exclusivos, a carregar livros e revistas importadas “cool”, eu me tornei uma pessoa “cool”. Eu era o “cool”.

Passei a ser convidado para festinhas das pessoas da minha classe. Depois, para festinhas de pessoas de fora da minha classe. Depois, para festinhas de pessoas de outras escolas. Festas de pessoas mais novas e mais velhas. Depois, eu próprio passei a dar festinhas e havia passado para o lado das pessoas que diziam quem eram os convidados (isto é, quem era “cool”) e os excluídos ( “not cool”). Eu vejo a contradição. Sei que, como antigo pária social, deveria ter horror a esse tipo de prática, ter calafrios com o atual louvor a camarotes e áreas VIP. Mas não funcionou assim. Era divertido demais fazer listas. Era uma espécie de vingança da minha infância.  

Fui feliz por um tempo. Mas algo passou a me incomodar. Havia um vazio, uma falta que eu não podia explicar. Compreendi que, embora fosse vanguarda na minha cidade, a vanguarda de verdade estava longe dali, nas grandes cidades. E eu morava numa pequena cidade. Era um indie jeca. Não podia seguir assim.

Se você é “cool”, tem que gostar de viajar. Uma pessoa legal não se limita às atividades cotidianas de uma província. Não basta ler websites e revistas da moda. Não basta citar em outras línguas. É preciso acompanhar os acontecimentos in loco. Especialmente quando outras pessoas da sua cidade o faziam com certa frequência.

Então, passei a ir à capital. Eu tinha primos por lá e, progressivamente, fui tendo mais contato com membros das comunidades virtuais que frequentava. Fui me sentindo cada vez mais à vontade, a ponto de sentir-me mais em casa do que me sentia onde vivia. Frequentava shows, festas, saraus, restaurantes, happenings cada vez mais exclusivos.

E o povo da minha cidade natal nem sabia o que era mainstream (naquela época em que mainstream ainda não era tão mainstream).

Quase sem perceber, fui adotando uma vida dupla. Por um lado, eu fazia parte do círculo de produção de eventos e passei a ganhar dinheiro discotecando. Por outro, conseguia arrebanhar muitos “curtidas” sendo sarcástico com um número crescente de características da vida naquela mesma cidade. Como se eu estivesse acima daquilo tudo, quando aquilo era tudo o que eu tinha. Eu era uma fraude. Refugiava-me cada vez mais na capital do estado, passei a viajar com eles para São Paulo e Rio.

“Primeira noite no meu apartamento no Rio” (97 likes). Tudo voltou a ser legal: pessoas, lugares recém-descobertos. Tudo tão como deveria ter sido sempre. Meu instagram começou a ter cada vez mais seguidores, meu número de amigos do facebook triplicou. Percebi que a melhor maneira de acumular amigos é viajar muito. Parar de ver pessoas repetidas, e adicionar todos que conheceu na noite. Deixar de perder tempo. Sua rede vai crescendo. O número de likes em cada atualização aumenta exponencialmente.

Além de ingressar na faculdade (graduação em publicidade), fazia um sem-número de cursos paralelos: fotografia, cinema, discotecagem (acredite: existem cursos para DJs), piano (violão era muito mainstream), tipografia, desenho industrial (design), história da arte, oficinas literárias, de composição musical e de pintura e de qualquer coisa que pudesse estimular minha criatividade, arquitetura, cinema, degustação de vinhos, fabricação de cervejas artesanais, culinária japonesa, gastronomia orgânica. Mal sobrava tempo para dormir (minhas olheiras bombando com minhas roupas negras). Saía cada vez mais, conhecia gente, ficava ou namorava ou tinha rolos ou uma coisa assim do tipo meio complicada.

As coisas acontecem com você e você nem nota quando está acontecendo. Comecei a escutar Radiohead na casa de um amigo, depois tomei contato com Arcade Fire, Cat Power, Animal Collective, Neutral Milk Hotel, Belle & Sebastian, Kings of Convenience, The Strokes. Canções obscuras de Bob Dylan, de Leonard Cohen. As pessoas que eu admirava estavam escutando. Comecei a baixar álbuns avidamente. A ir a festivais de cinema independente (Michel Gondry, Spike Jonze, Wes Anderson, Jim Jarmusch, clássicos redescobertos, documentários obscuros). Seguia para cafés onde comentávamos (meus amigos hipsters e eu) sobre os filmes que estávamos assistindo e as bandas que estávamos escutando. E conferindo, ao mesmo tempo, em websites especializados em nossos celulares e tablets, se havia a aprovação dos críticos cujos blogs acompanhávamos. Havia, claro, alguma competição, mas nada que passasse do ambiente saudável. Estávamos todos tentando descobrir artistas antes que os demais conhecessem e desprezávamos como coisa do século passado alguns artistas de que gostávamos um mês antes mas passavam a ser escutados por pessoas que também desprezávamos. Havia uma vontade genuína e mesmo desesperada de assimilar tudo. Então, depois das audições de álbuns recém-lançados (no antigo formato mp3 e, agora, em vinis de 180 gramas), depois das perambulações em lojas virtuais de ebooks ou sebos onde podíamos comprar livros antigos em raras edições (para ler os mesmos autores: Jack Kerouac, Allen Ginsberg, J. R. Tolkien e, sejamos sinceros, J. K. Rowling), íamos tomar cafés, cervejas artesanais ou vinhos para comentar o que todos nós estávamos escutando, lendo e assistindo. Todos com insights memoráveis e cortantes, entre alguns cigarros de maconha ou tabaco orgânico.

Esta vontade de ser autêntico foi invadindo tudo. Era absolutamente proibido sequer tomar contato com algo que fosse extremamente popular. Tínhamos horror a palavras como “sucesso”, “blockbuster”, “best-seller”, “Oscar”, “disco de ouro” (argh). Um desdém por quem que só acompanhasse programas da televisão aberta, que comesse no McDonalds, que gostasse de “cozinha internacional”, que não assistisse a filmes em preto e branco, que escutasse somente o que tocasse em rádios, que comprasse livros do Paulo Coelho (argh). Nós, que adorávamos a Apple quando simbolizava resistência contra o domínio do Windows, passamos a achar depois que o iPod e o iPhone eram muito mainstream e adotamos celulares com o sistema operacional Android. Alguns eram radicais. Não fôssemos contra a violência, haveria gente capaz de bater em quem não conhecesse Daft Punk ou, pelo amor de deus, que ousasse caminhar na rua calçando Crocs.

Quando fui fazer meu mestrado (requisito indispensável e ademais divertido, por permitir postar constantes reclamações sobre o sofrimento de escrever a dissertação e, depois, a tese), entre Paris e Nova York, já tinha um aspecto irreconhecível. Era magro, tinha barba, gostava de roupas antigas ou camisetas com motivos irônicos, levava óculos de aro grosso, tênis baixos, jeans skinny, tinha um corte de cabelo completamente assimétrico. Praticava ioga, caminhava bastante por parques, meditava. Tornei-me vegetariano (depois, vegano) e passei a comer apenas alimentos orgânicos. Era comum discutir o grau de asco que cada um tinha ao testemunhar alguém mastigando carne na mesma mesa em que ingeríamos um yakisoba orgânico.

Pode parecer superficial, mas havia uma filosofia. Você não é melhor do que nós. Defendemos causas: a sustentabilidade, a diversidade cultural, o fim do consumismo desenfreado. Lemos Nietzsche, Freud, Foucault. Eu estava convicto de que estávamos do lado certo da sociedade e da história.

Talvez, meu incômodo tenha se iniciado com o rumo que nossas conversas foram tomando. Pouco a pouco, todo mundo que eu conhecia passou a comunicar-se por uma única língua: a da ironia (e de seus subprodutos: sarcasmo, desdém, ambiguidade). Mudei-me para a galáxia anti-literal. A ironia contaminou tudo o que tinha a ver conosco: nossas opiniões, roupas, fotos, as conversas por cima das mesas de cafés e de bares, a música, a literatura, a publicidade e até mesmo as tatuagens. A ironia tornou-se regra universal.

A ironia tem a vantagem de permitir que tudo seja levemente engraçado, que tudo seja levemente crítico (e, portanto, levemente inteligente) e, ao mesmo tempo, funciona como escudo contra qualquer crítica. Quando ninguém sabe mais o sentido real de nada, ninguém sabe o que cada um de fato pensa. Tudo é refratário, e tudo é permitido. Pode-se elogiar qualquer coisa (dos Muppets ao suicídio), pode-se falar mal de qualquer coisa (de Gandhi aos Beatles). O que importa é somente manter a estabilidade das referências. Aliás, quanto mais referências, melhor. Daí, basta elaborar alguma frase com efeito. Passamos a ter um riso eterno no canto dos lábios.

Por isso me dói escrever esta carta. Uma carta de verdade não permite uma ironia generalizada, não me permite saber como você vai reagir a ela (não tem como você “curti-la” e eu receber uma notificação). Parece uma foto que só pode ser vista depois de revelado o negativo.

O mecanismo da ironia é simples e imperioso. É preciso ironizar o que parece estar por cima. Todo o hype deve ser objeto de sarcasmo depois de um certo (e cada vez mais curto) tempo. Não há nada mais eficiente que atacar o que ainda é idolatrado pela maioria, profanar os templos dos old-fashioned (“this is so last week”) e considerar cool o que ninguém conhece. Porém, depois de envolver em ironia tudo o que era da minha cidade de origem e das posteriores, depois destruir em sarcasmos antigos amigos e novos inimigos, depois de tornar dúbio qualquer obra de arte de que tinha gostado no mês anterior, não sobrou quase nada a ser desprezado além de eu próprio.  

Além de declarar tudo desprezível, eu nem mesmo sei se gosto do que eu acho que gosto. Meus amigos são perfeitos em redes sociais, assim como eu sou. Tenho uma namorada por quem estou apaixonado, mas ela fica tão linda em fotos, tem frases tão geniais, que não sei mais se sou apaixonado por ela ou pelo efeito que ela causa em outras pessoas. Só consigo apreciar o que é digno de apreciação dos outros. Melhor: só consigo gostar de pessoas que outras pessoas consideram que seriam as pessoas de quem eu deveria ou poderia gostar. Só gosto do que ou de quem atraia o número máximo de likes alheios. Fiquei tão absorto em obter likes de outros que esqueci de pensar do que eu mesmo gosto.

Às vezes, quando começo a gostar de algo, publico em alguma rede social e ela não tem a repercussão que seria necessária. Antes, eu a dispensaria sem hesitação. Agora, não consigo mais fazer isso. Sinto que estou abandonando algo que poderia ser aquilo de que eu gosto. Além disso, a própria busca está me cansando. Mas meu vício de ser “curtido” é mais forte. Não consigo parar, por mais que odeie tudo. Por mais que sinta agora um tédio enorme de tudo e de todos.

Agora está tudo preparado. Foi fácil fixar os aparelhos necessários na rua. Ninguém percebeu nada. Hoje em dia pode-se instalar uma bomba nuclear no meio da rua e passar despercebido. A comunicação de massa mudou a maneira de as pessoas andarem na rua. As calçadas parecem povoadas pelos zumbis das séries que você e eu acompanhamos, com seus fones de ouvidos e seus olhos fixos nos celulares. Andam em ziguezague, devagar, sem olhar para a frente. Trombam uns com os outros. Às vezes, até param, sem qualquer obstáculo no caminho. Quando era criança, tinha essa impressão em shopping centers. Agora é a regra absoluta de todos os lugares. Eu tampouco sou diferente. Só olhava o mundo para tirar fotografias no instagram. Estou me perdendo de novo e já não tenho mais tempo.

É por isso que não havia outra saída. Eu não podia mais continuar nem seria capaz de retirar-me sem a repercussão, que é a única coisa que dá sentido a tudo o que faço. Precisava sair pela porta da frente. A solução era óbvia. Sei que você me entende.

Estou consciente de que maneira pela qual resolvi despedir-me será chocante demais para contar com muitos “curtidas”. Mas os iniciados sabem que a variável mais importante entre todas não é o número de likes, e sim o de shares.

Se virar moda, lembre-se que eu terei feito isto antes de ser considerado legal.

Adeus.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ano Novo

Como prometido a D.


31.12.2011
Será hoje. Quando der meia-noite. Talvez pouco depois. Vou entrar no novo ano com estilo. Com roupas novas para a ocasião. Gastei um dinheiro que não poderia gastar, mas agora não importa. Há anos não me sentia tão bonito. E assim vou para o lugar perfeito, o lugar secreto que descobri. Finalmente estarei lá, e não poderia haver lugar melhor. Renovação completa. O sonho de todo ser humano. Tenho esta excelente sensação de antecipação, que sinceramente não esperava. Sou pessimista até no pessimismo. Já conversei com as pessoas que me importam: minha mãe, tio Anselmo, a Livia. Não há mais quase ninguém. Mas não tenho rancor. Disse que iria viajar no Réveillon. Fui sincero, afinal, realmente estava já quase tomando o ônibus quando pus o telefone no gancho. Já me sinto mais leve. Subo, subo, subo, vou flutuar. Esta noite será uma dança no ar. Flutuarei acelerando a 10 metros por segundo ao quadrado. É rápido. Estarei a 1500 quilômetros de onde moro. A 5000 km de onde nasci. Não trouxe absolutamente nada senão a roupa do corpo. Quase nenhum dinheiro. Vou para onde ninguém precisa de dinheiro. Não encontrarão meus pertences. Doei-os a pobres de outras cidades. Ah, o altruísmo de quem não tem nada a perder. Herança nunca foi doação. Não vale nada. Eu sei. Fui mesquinho. O resto joguei no lixo no meio do caminho. Sou livre. Agora sou livre. Nunca mais vão ouvir falar de mim. Sem tristeza. É impossível que achem meu corpo. Nunca vi lugar mais alto. Os peixes devoram o que sobra. Não haverá documentos, não haverá roupas reconhecíveis, minhas digitais estarão carcomidas pela água. Serei parte do mundo. Antes tarde que nunca. Me integrarei. Adeus, semanas inteiras sem pronunciar palavra. Adeus, coração partido e braços vazios. Adeus, lembranças dolorosas. Adeus, futuro perdido. Adeus. Ninguém sentirá minha falta. Muito menos eu.  Vou sair de mim.

03.01.2012
Não consigo parar de pensar nisso. Como pôde alguém ter exatamente a mesma ideia e resolver executá-la no mesmo lugar e na mesma hora? A imagem horrenda de um corpo em direção ao precipício, sumindo no nevoeiro. Sem ruído de queda. Ou talvez eu não estivesse em mim. Mas assisti a tudo. A tudo. Quando me aproximei, já era tarde demais. Talvez até tenha feito porque me viu. Não consegui ver seu rosto. Tinha o cabelo parecido ao meu. Tinha também roupas parecidas às minhas. Peças novas. Pulou antes de mim. E estragou meu próprio plano. Não consegui segui-lo. Preciso descobrir quem era. Não faz sentido, claro, não faz nenhum sentido. Eu também queria fugir anônimo. Mas as pessoas precisam saber. Eu preciso saber porque ele fez isso. Porque desistiu. Se se precipitou. Fui à delegacia e perguntei se havia registro de alguém desaparecido. Nada. Andei pela cidade, todos comemoravam o ano novo. E alguém havia morrido poucas horas antes. Andei atônito pela cidade. Um senhor me acolheu na casa dele quando me encontrou dormindo na praça. Não me lembro como fui parar lá. A noite mais longa e mais breve. Disse que iria pagar a estada. Fui fazer um bico num bar. Recebo em alguns dias. Enquanto isso, faço a investigação. Eu vou saber. Depois, aí sim, também me vou. Exatamente como ele.

12.03.2012
Ainda não consegui descobrir quem era. Lembrei-me que me olhou antes de pular. Me viu e, ainda assim (ou talvez por isso), se jogou. E riu. Acho que ele riu. Não sei dizer. Acho que sim. Talvez estivesse feliz por sua resolução. Talvez estivesse rindo de meu desconcerto. Agora é tarde demais. A Ângela me disse que registraram a ocorrência de um desaparecido. Não parece ser ele. Ela está desconfiando de eu puxar tanto papo perguntando se não há pessoas desaparecidas por aqui. Às vezes, pergunto também sobre objetos extraviados. Finjo que sou curioso. Um colecionador de coisas e pessoas perdidas. Mas ela já notou que tem algo por trás.

21.06.2012
Liguei para minha mãe. O Francisco acabou me convencendo. Esse negócio de ficar conversando toda noite a noite toda com o Francisco acaba me fazendo agir de maneiras muito inesperadas. No entanto, ele tinha razão. Uma coisa era eu ter morrido e minha mãe ter esperanças de eu estar vivo. Outra é eu estar vivo e minha mãe temer que eu esteja morto. Liguei. Ela chorou um pouco. Ficou tranquila quando eu disse que tinha refeito minha vida em outro lugar e que era melhor que ela não soubesse onde eu estava. Eu disse que ligaria de vez em quando. Pedi-lhe que avisasse ao tio Anselmo. Com a Lívia não falo mais. A Lívia foi a pior melhor coisa que podia ter acontecido. Agora é passado. Ângela me ligou. Vou encontrar-me com ela no bar onde trabalhava. Continuo sem descobrir nada sobre o suicida. Já viajei para todas as cidades vizinhas. Pelo menos há gente que me ajuda nisso na delegacia, além da Ângela. O Francisco e a Silvia sempre estão de olho nos jornais. Uma hora encontro algo.

31.08.2012
A Ângela me confirmou que está mesmo grávida. Disse que vai ter o filho. Eu não tive coragem de propor nada que contradissesse isso. Ela é minha melhor amiga. Hoje encontrei um anúncio de jornal promissor sobre a minha busca. Viajo amanhã. Depois penso em que fazer.

09.09.2012
Estou juntando dinheiro. Meu emprego está melhor, ganho mais do que ganhava antes de vir aqui. Tive que visitar minha mãe para pegar a segunda via do meu diploma universitário. Ela ficou contente. Francisco está feliz, Anselmo está feliz. Todos comemoram minha anunciada paternidade. Estou começando a gostar da ideia.

21.10.2012
Estou apaixonado pela Silvia. Não posso negar. O sol brilha mais no cabelo dela do que no de qualquer outra pessoa. Estou perdido. Preciso conversar com alguém sobre isso. Que estado lamentável. Estou perdido. Extasiado. Perdido para além ou aquém da razão.

11.11.2012
Onze meses e nada. Tenho andado muito ocupado juntando dinheiro para o nascimento da Gabriela. Ângela decidiu que estamos melhores como amigos. Podemos compartilhar a guarda, caso eu mude de ideia. Francisco me olha às vezes com medo, pensando que o Ano Novo está chegando.  Nunca contei nada à Ângela, quero preservá-la de qualquer desgosto, ainda mais neste momento importante. Ela está uma grávida linda. Espero que a Gabriela seja a cara dela. Bonita. Sempre me senti feio. Mas eu sou pouco importante aqui. Aliás, não importo mais. Importa apenas que a Gabriela seja feliz.


31.12.2012
Falta pouco para a meia-noite. Tento recordar o que aconteceu há exatamente um ano atrás. Meus sentidos me enganavam. Trêmulo como alguém prestes a morrer. Imaginação? Minha memória é de mim próprio caindo. Ou não. Não consigo me lembrar do rosto dele. Tentei descer ali, ninguém tem coragem de entrar na corredeira para procurar algo que nunca pude dizer o que era. Basta. Francisco parou de desconfiar de que eu possa fazer algo nesta passagem de ano. Sinto que 2013 será o meu ano. Um minuto para os fogos de artifício e as taças de champagne.

domingo, 26 de agosto de 2012

A conversão de Saulo


A bola passava de pé em pé para Saulo para Pedro para João para Lucas quando repentinamente toma uma pancada para fora do campo de terra improvisado e bate no parapeito ponteagudo do sobrado ao lado e, como que dissolvendo toda a agitação, explode. 

Desamparo.

Saulo não podia acreditar no que jurava não enxergar. Tinha feito três gols, caminhava para a artilharia do campeonato do bairro. Havia treinado exaustivamente com o dono da bola. Augusto, o dono da bola, deixava-o brincar com a dita cuja de quando em quando, desde que não saísse do seu quintal e desde que ele jogasse (e desde que ganhasse). A inutilização daquela bola era uma tragédia em todas as esferas da vida de Saulo. Depois de Augusto, que podia cismar com algo e partir, Saulo era quase sempre o primeiro a ser escolhido para integrar o time. Isso já era uma vitória pessoal. Existe uma hierarquia no futebol infantil de rua, e Saulo havia duramente ascendido nela, contra todos os prognósticos.

Afinal, é um menino rodeado pelo sexo feminino. A mãe criara-o sozinho e nunca mencionou, uma só vez sequer, algo sobre seu pai. Como família, tinha somente uma tia, que desempenhava o papel de segunda mãe. Era tímido de nascença e se refugiava em casa durante praticamente o dia todo. Acordava, ia para a escola, voltava para casa, almoçava, assistia desenhos animados, fazia as tarefas de casa, lia revistas no quarto, saía do quarto para comer, ficava com a mãe depois que ela chegava do trabalho, e ia dormir. Entre poucas surpresas, passava os fins-de-semana na casa da tia ou acompanhava sua mãe em compras ou visitas a parentes que moravam em outros bairros. Alguns deles caçoavam de seu cabelo liso e negro, com uma franja que o cabeleireiro insistia em cortar irregularmente. Estes passeios o perturbavam, além disso, porque ao andar de ônibus ou metrô achava que todos reparariam suas pernas finas e seu jeito desajeitado. Era um menino solitário, mas de maneira alguma melancólico.

O momento mais aterrorizante do seu dia era a hora do recreio do colégio. É o momento em que se torna patente quem pertence a cada grupo, quem transita entre vários, quem se destaca em algum esporte, quem é mais engraçados e até mesmo quem é mais caçoado. Neste instantâneo fotográfico, Saulo sairia desfocado, ou buscando aparecer no fundo, ou relegado a um canto imperceptível da composição. Não era especialmente popular nem impopular, não era engraçado ou tedioso, não era ridicularizado, não implicava com outros alunos. Sentava-se e observava, simplesmente. Saudava uns que passavam por perto, outros ignorava. Muitos não lhe davam bola. E assim os dias corriam.

Até que um episódio ínfimo, de que ninguém se deu conta (salvo, obviamente, Saulo), veio mudar sua vida. Um dia, voltando para casa, escutou seu nome. De início, pensou que tinha ouvido mal, até que o aumento do coro (eram agora três gritando) tornou impossível seguir a caminhada indiferente. Pedro, que morava a cinco casas dele, chamara-o porque precisava de alguém que completasse seu time. A mãe de um dos que participavam do jogo havia intimado-o para casa porque seu pai estava no hospital (“é um bebum”, esclarecera João) por ter sido atropelado. Saulo inventou uma desculpa e disse que tinha que voltar imediatamente para casa (declarou que sua mãe lhe daria uma surra). A insistência, contudo, foi enorme: seria impossível jogar sem três pessoas de cada lado, eles só tinham mais uma hora antes que dois deles tivessem que voltar para casa, era a primeira vez que conseguiam a bola emprestada do primo de Fulano, começaram a entoar frases como “bicha, bicha, bicha”... Saulo não teve escolha e aceitou.

O futebol não era estranho ao mundo de Saulo. Tinha um time para o qual torcia, o Botafogo, e costumava proclamar por aí que este era o time de futebol pelo qual seu pai torcia ardorosamente. Em certa ocasião, afirmara que seu pai havia desaparecido na multidão depois da brilhante partida do Botafogo contra o São Paulo, em 4 de março de 1998 (sabia a data de memória), quando o Botafogo conquistara o Torneio Rio-São Paulo. Neste dia marcado pela alegria, ocorrera algo na saída do Maracanã que impediu seu pai de voltar pra casa e presentear-lhe com uma camiseta do time de seu coração, como havia prometido. Saulo, no entanto, mantinha esperanças na volta do pai para casa, e com o uniforme do Botafogo nas mãos. Por isso, seguiria honrando a tradição familiar com fidelidade eterna à equipe. Muitas vezes, ele próprio acreditava nesta história, que supunha ser a única explicação plausível para não ter a presença nem recordações de seu pai.  

Sim, seus pés já haviam tocado uma bola de futebol. É muito simples: quando se nasce onde Saulo nasceu, é impossível que não tenha jogado bola na vida. Mas Saulo era este menino solitário e tímido diante de outras pessoas e não praticava e estava apavorado diante do convite feito naquele momento, tanto pelo temor de fracassar quanto pela consequente desaprovação do grupo. Havia cedido diante da pressão também por medo de ser rechaçado, caso se obstinasse em sua recusa inicial.

Encontrava-se num estado lamentável: uma mistura de coração acelerado, mãos suadas, pernas trêmulas, respiração ofegante, acompanhados de uma tentativa patética de ocultar tudo isto. Tudo tão novo: a infância é a época dos sustos, das surpresas, das primeiras vezes. Não era diferente com ele. Quando a bola começou a rolar, Saulo sentiu dificuldade em bloquear ataques adversários, em roubar a bola, em conferir a posição dos rivais e dos companheiros ao mesmo tempo, em driblar, em estar de olho nos dois gols. Mas foi em frente. Claro que perdeu a bola, que sofreu dribles, que errou passes, mas estava longe de jogar mal. Até fez um gol. E, graças a seu desempenho, conquistou uma vaga cativa no campinho e a estima, ainda que precária, dos demais jogadores. Depois do jogo, foi chamado para lanchar na casa de um deles e logo a brincar com eles na rua. Voltou para casa no início da noite. No caminho, não conseguia parar de rir, era impossível contê-lo.

Êxtase.

É bem provável que, se Saulo repensasse toda sua vida muitos anos depois, depois de paixões variadas, diversas conquistas, alegrias e sofrimentos, num estágio de maior experiência, talvez recordasse desse dia como o mais feliz de sua vida. Pelo contraste com o que sua vida fora até então, e pela descoberta de que existia outra, de que agora desfrutava muito intensamente.

Quando chegou, e era a primeira vez que chegava tarde em casa, não foi repreendido pela mãe. Foi até recebido com um sorriso cúmplice. Não entendeu nada. Estava tão agitado que narrou seu dia como se cada chute na bola, cada passo de uma corrida, cada detalhe mínimo daquele período curto e mágico, fosse único. E, de fato, era. Em seguida, saiu correndo para o quarto, para reviver tudo de novo sozinho.

A reação da mãe de Saulo realmente não condizia com sua tendência protetora. Entretanto, havia passado bem ao lado do campo improvisado enquanto ele jogava tímido, porém com convicção. Depois de anos observando seu filho taciturno dentro de casa, aquela visão encheu-a de contentamento. A solidão que sentia já era suficiente para todos os dois. Ela tinha medo de que seus hábitos cada vez mais reclusos, agravados pela necessidade de trabalhar muitas horas, pudessem de alguma maneira contagiar o filho. Não que fosse infeliz. Sua vida com o ex-marido era conflituosa, de modo que a vida solitária, embora difícil às vezes, era ao menos tranquila. Tinha plena consciência disso. Queria agora dedicar-se a Saulo, queria que ele fosse feliz, já que ela própria não pôde sê-lo. E a criança, com sua mania de solidão, trazia-lhe pensamentos cada vez mais inquietos. E eis que, do nada, lá estava ele, jogando bola. Que aquilo durasse o máximo possível. A infância é uma só.

Para Saulo, a infância não tinha nada de maravilhoso. Não podia entender como alguns adultos dissessem isso. Sofria, testemunhava outras crianças sendo vítimas das mais terríveis brincadeiras, das mais divertidas ofensas, e não compreendia como alguém podia considerar aquilo a era de ouro da vida. Só podia ser falta de memória ou, pior, o fato de que as fases posteriores seriam ainda piores. Como os adultos continuavam sorrindo, achava que era mesmo só falta de memória. Quanto a sua mãe, supunha que ela não tivesse essas fantasias pela expressão dos seus olhares em direção a ele. Achava que a mãe entendia que a infância em si não era fácil, e não que a sua infância não fosse fácil. Estava certo de que a conhecia perfeitamente. Vivia a tão comum ilusão de saber tudo sobre sua mãe. Por outro lado, tinha momentos em que era acometido pela sensação de que não sabia absolutamente nada sobre ela. Um claro enigma. A familiaridade e o estranhamento. Exatamente como o primeiro amor. Exatamente como todos os amores posteriores.

Na manhã seguinte, o mundo de Saulo adquiriu um significado completamente distinto. A escola passou a ser mero intervalo entre a aurora do acordar, seguido do almoço com a tia, e as tardes de companheirismo e de futebol. Seus primeiros amigos de verdade. Seu bairro adquiria sentido. A geografia só faz sentido pela via da intimidade. Só quer conhecer outro mundo quem não se sente bem neste, por não ter com ele a necessária intimidade, ou por talvez estar cansado de uma já antiga e aborrecida intimidade. Esses devaneios, porém, não faziam parte da cabeça de Saulo. Pois agora Saulo estava jogando bola, e ficando cada dia mais habilidoso.

E o caminho das pedras do futebol infatil foi sendo progressivamente percorrido. Com o tempo, começou a tomar a bola do adversário, a driblar em vez de sempre tocar para o companheiro de time quando confrontado com um zagueiro mais forte, a correr mais, a posicionar-se melhor, e a coroa de tudo isto: passou a marcar mais e mais gols. E, depois, passou a fazer gols bonitos. Sem falta modéstia e sem arrogância. Sabia que o esporte só funcionava em equipe. E, sobretudo, considerava que o futebol havia sido uma dádiva da amizade, não o contrário. Em suma, Saulo jogava apaixonadamente.

Assistia sempre aos jogos do seu Botafogo de Futebol e Regatas. Não lhe importavam derrotas ou vitórias, o importante era observar quão bonito jogavam os profissionais inspirados. Assistia vídeos no computador da escola e passou a idolatrar figuras como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Gérson, Jairzinho. Expandiu seus horizontes para outras equipes, brasileiras e de outros países. Gostava de mostrar como havia aprendido a escalação de times do presente e do passado, a história das Copas do Mundo, e passou a sentir-se digno de estima quando notava que alguns passaram a prestar atenção quando falava sobre o assunto.

Criou coragem e tornou-se candidato a jogar na quadra da escola. Passou a ter amigos no colégio que frequentava. Posteriormente, passou a não mais fazer parte do grupo de meninos que tiravam a sorte para escolher as equipes. Um esclarecimento: bons jogadores raramente tiram a sorte para escolher os integrantes de sua equipe. Eles devem, querem, exigem, e no fundo anseiam, ser escolhidos. E a ordem de escolha dos integrantes na infância é como a mercado dos passes dos jogadores no futebol profissional. Sendo esta bolsa de valores muito instável, necessita de constante reafirmação por meio da escolha diária dos que entrarão em campo. O time campeão, naturalmente, só sai de campo quando perde. Por isso, para quem é ruim de bola, convém escolher. Quem escolhe bem não sairá de campo jamais, e talvez melhore seu desempenho rapidamente por meio da prática constante. Saulo, no início, buscava escolher os integrantes da sua equipe. Quando não o fazia, costumava entrar em campo na segunda partida (porque não era selecionado por ninguém). Em seguida, passou a ser o quarto ou quinto integrante escolhido para algum dos lados, até entrar gloriosamente no seleto grupo daqueles que sempre são eleitos, e que, por consequência, jamais se preocupam em tirar a sorte.

Nas proximidades da sua casa, único lugar que sua mãe deixava frequentar enquanto estava no trabalho, havia somente um garoto da idade dele que possuía uma bola de couro. Os meninos mais velhos se recusavam a partilhar a deles e não permitiam a entrada de “pirralhos”. E eis que aquela única bola acessível a seus pés furava subitamente.

Depois de dias, de semanas de tédio, Saulo constata que nenhum amigo conseguirá dinheiro para comprar outra bola. Roubar de alguém parecia-lhe um sacrilégio. Ele próprio não tinha dinheiro para adquirir uma, nem sua mãe podia dar-lhe uma agora. Resolveu agir. Iniciou uma pesquisa de mercado para saber o preço de uma bola razoável, que não estourasse ou adquirisse calombos na primeira semana. Pedro, o mesmo garoto que o havia chamado naquela já longínqua tarde (na infância, tudo parece longínquo depois de alguns dias, um ano assemelha-se mais à eternidade, e a morte parece um devaneio absurdo), comoveu-se com a convicção e persistência do amigo e decidiu ajudá-lo em sua missão. Por ter maior liberdade de movimento pela cidade (sua mãe trabalhava tempo demais num lugar muito afastado para poder controlá-lo em suas andanças), foi Pedro quem encontrou, num bairro mais afastado, a loja que oferecia o menor preço para o modelo de bola escolhido pelos dois.

Fizeram as contas e urdiram artimanhas e atividades que pudessem ser lucrativas. Pediram contribuições de pessoas próximas ou mesmo de passantes ou clientes de estabelecimentos vizinhos. Como não podiam ser contratados por conta de sua idade, passaram a prestar pequenos serviços para donos de pequenas empresas e para particulares. Pagavam contas, faziam entregas, limpavam o chão, recolhiam garrafas de bares. Com a confiança de algumas pessoas plenamente adquirida, passaram a estabelecer acordos mais amplos e estáveis. Começaram a levar para reciclagem objetos que não tinham mais serventia para esses mesmos adultos, após o conselho de um deles. Pedro, às vezes, tinha seus dias de desânimo, mas Saulo seguiu com uma vontade inabalável em direção a sua grande meta e prioridade. Sempre contava o dinheiro já conquistado, e nunca trocava as bolas quando alguém eventualmente perguntava quanto faltava para juntar. Alguns amigos, preguiçosos mas confiantes, contavam ansiosamente os dias para que alcançassem a quantia necessária. Até que, no final de mais um dia, Saulo e Pedro foram contar o montante total e descobriram que tinham o que era preciso. Como já era tarde e a loja, distante, tiveram que esperar até o outro dia.

Saulo descobriu o que era ansiedade naquela noite. Não conseguia dormir. Até segundos demoravam a passar. Quando cochilava, tinha pesadelos. Acordava e pensava que tinham aumentado o preço da bola e que não era mais possível comprá-la com o que tinham. Refletia um tempo, ainda confuso, e concluía que sonhara aquilo. Depois, que todas as bolas já haviam sido vendidas. Acordava sobressaltado, pegava a lata de dinheiro no fundo do armário para contá-lo novamente. Pegava no sono, vivia a agoniante sensação de que não conseguia andar em direção à loja, embora não houvesse nada que o segurasse nem qualquer defeito físico visível. O chão como que fugia dos seus pés. Acordou em pânico. A manhã não foi menos penosa. Não conseguiu engolir o café da manhã, não conseguiu entender as lições ditadas pelos professores, sequer conseguiu entender o que era discutido pelos companheiros de sala. Envelheceu um ano naquele dia.
     
Quando soou o sinal, Saulo desembestou em direção ao ponto de encontro marcado com Pedro. Este também tinha a expressão fatigada. Tiveram que tomar um ônibus, depois um trem, e finalmente subir uma longuíssima ladeira. Fizeram tudo correndo como se estivessem fugindo de algo. É certo que crianças têm dificuldades para andar em ritmo normal. Não entendem porque adultos insistem em hábitos como andar, especialmente quando estão atrasados e e poderiam simplesmente correr em direção a seu destino. Não entendiam tantas coisas do absurdo mundo dos adultos, que tampouco estes compreendem. Na carreira, alcançaram seu destino em pouco tempo.

Chegou na loja, Saulo perguntou ao proprietário pela bola. Ela estava no estoque. Consultou o preço, exasperado. O preço seguia o mesmo. Então, numa fala ao mesmo tempo triunfante e tímida, afirmou que iria comprá-la. O dono indagou se eles tinham tanto dinheiro com eles. Saulo, ainda mais confiante, tirou o dinheiro do bolso e mostrou-lhe. O dono contou as notas sob os olhares atentos dos meninos e propôs embrulhar a bola. De imediato, Pedro e Saulo disseram que não era preciso. Agarraram-na e saíram para a rua.

É difícil descrever o que sentiram depois que saíram da loja: sensações totalmente desencontradas, corações em polvorosa, sangue acelerado, cabeça pulsando, pernas tremendo. Por inércia, pelo efeito da adrenalina ou - mais poeticamente - pela emoção, os corpos deles ainda tremiam. Depois, tudo foi adquirindo um aspecto de tranquilidade. Haviam travado uma dura batalha e vencido.

Paz.

A pressa da ida deu lugar à necessidade de saborear aquele momento em sua plenitude. Caminhavam devagar, acariciavam a bola, sorriam-se mutuamente. Admiravam tanto aquele objeto que fizeram o acordo tácito de ainda não fazê-lo tocar o chão. Parecia inconcebível que aquela coisa tão valiosa, tão frágil, tão delicada, pudesse ser manchada, muito menos chutada, por qualquer pessoa que fosse. Tinham pavor de deixá-la cair. Seguravam-na com força. Não conseguiam olhar para mais nada. O mundo havia desvanecido por completo.

Arrebatamento.

Os passos silenciosos dos dois foram subitamente interrompidos por alguns estalos secos, ouvidos após um breve lapso de tempo. Olharam ao redor, vários transeuntes corriam desordenadamente. Ficaram alguns segundos atônitos, tentando entender o que ocorria. Encararam-se e resolveram correr. Pedro saiu em disparada em direção ao muro de uma das casas com a intenção de transpô-lo. No meio do percurso, olhou para o lado e percebeu que Saulo não o acompanhava. Olhou para trás e viu a bola quicando no chão, descendo lentamente o asfalto. Divisou Saulo mais adiante, deitado no chão.

Um segundo pode passar lentamente.

Algumas coisas mudam completamente em um segundo.

Saulo havia sentido uma pancada na barriga, seguida de uma leve pontada. Devia ser o susto de começar a correr subitamente. Mas logo sentiu-se fraco, perdeu o equilíbrio e deixou a bola soltar-se. Quando quis sair em sua direção, caiu. Olhou para a camiseta e percebeu que ela tinha uma mancha vermelha na lateral. Quando Pedro retornava, ele estava levantando a peça para tentar entender como tinha se machucado. Havia sangue saindo de um ferimento pequeno. Sentiu o cheiro de carne queimada. Pedro levantou-o, ajudou-o a caminhar para fora da rua. Pouco a pouco, as pessoas foram reparecendo na via e aproximando-se para inteirar-se do que havia sucedido. Pedro percebeu que também havia outras duas pessoas caídas a certa distância, com mais curiosos ao redor.

Saulo sentia dificuldade para respirar. Começou a tossir. Uma tosse úmida insuportável, que se intensificava. Parecia que estava se afogando. Embora alguns gritassem e fizessem sinais, e outros tivessem saído em busca de ajuda, a primeira ambulância levou mais de uma hora para chegar no local. Era difícil saber, quando o colocaram na maca para dentro do veículo, se Saulo continuava respirando. Pedro tentou entrar com ele, mas foi impedido por um dos paramédicos. O carro branco saiu velozmente logo depois de o acomodarem com uma máscara de oxigênio em seu rosto umedecido.

Pedro olhou ao redor, estava perdido. Havia um tumulto de gente ao redor de policiais. Olhou para a mancha no chão, quis afastar-se de lá. Começou a caminhar pela ribanceira e lembrou-se da bola. Procurou-a brevemente e não a encontrou. Pensou em ir embora, depois mudou de ideia e saiu atrás do objeto. Embora não soubesse precisar o tempo, calculou que devia ter ficado mais ou menos duas horas inquirindo pessoas e verificando todos os caminhos possíveis por onde a bola poderia ter rolado. Procurou alguém jogando futebol nas redondezas. Concluiu que a bola havia desaparecido e resignou-se. Tomou o caminho de casa, completamente catatônico.

Quando chegou ao bairro, quis depois saber o que havia acontecido com o amigo. Caminhou em direção a sua casa. Não havia ninguém. Alguns vizinhos disseram que sua mãe, quando recebeu a ligação da polícia, insistiu que era um equívoco, argumentando que seu filho nunca estivera no local da ocorrência. Em seguida, quando ouviu a descrição exata do seu filho, inclusive com as roupas que vestia naquele dia, saiu desesperada para o hospital. Alguns demonstraram preocupação por sua tia, que tinha desaparecido.

Já escuro, Pedro viu a mãe de Saulo na televisão. Ela gritava, desarticuladamente e entre soluços, que a violência daquela cidade tinha chegado a um nivel insuportável. Que ninguém esclarecera quais eram os responsáveis por aquilo tudo. Que ninguém no hospital lhe dera qualquer notícia de Saulo. Quando perguntada, declarou que ele era seu único filho. Seus olhos eram o abismo da noite sem lua e sem estrelas.       

De madrugada, Pedro não conseguiu dormir. Amaldiçoava o dia em que contou ao amigo da loja onde compraram a bola. Depois, recordou também que fora ele que havia chamado Saulo para jogar bola na rua pela primeira vez. Começou a contorcer-se na cama. Sua mãe encontrou-o encharcado e gritando na cama, e passou toda a noite em claro tentando inutilmente acalmá-lo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Caleidoscópio

Era uma fila e eu rangia os dentes em silêncio. Não de frio mas de cólera, porque sua amiga havia furado a fila já duas vezes. Sua amiga era muito bonita e falava outra língua que não a de lá (os locais sempre gostam das línguas de países com moeda forte). Fazia frio na rua e eu, porém, fazia ainda mais frio e todos estavam devidamente com seus casacos e seus cachecóis perto de mim. E, então, subitamente, vocês foram impedidas de entrar para, quem sabe, evitar alguma revolta dos integrantes da fila (meu olhar ardia de desejo de derrubar todos as autoridades de todos os governos) e tiveram que voltar para trás de mim. Você era ainda mais bonita. Sua amiga disse "oi" (na verdade, um "hi" seguido de um "hola" naquela cidade babilônica), assim meio do nada, o que me surpreendeu e me desconcertou, com um sorriso que ela deve sempre usar e imediatamente derreter a resistência a qualquer coisa que ela tenha feito antes. Charme. E eu então dei "oi" de volta (na verdade, um "hola" seguido de um "hi", em defesa própria). Enquanto sua amiga sorria e continuava derretendo a neve ao redor da fila e dentro da minha cabeça (surgia uma brisa primaveril em meu córtex, eu podia sentir e tentava resistir, mas já era tarde), você me olhava com um ar curioso e um sorriso no canto dos lábios. Seus olhos transparentes penetravam lentamente, dolorosamente, prazerosamente, o canto dos meus olhos e o fundo da minha alma, e você nem havia dito palavra. Você é a dona da faca de Buñuel e Dalí. De que planeta você veio? Eu queria ser abduzido para nunca mais se ouvir falar de mim, salvo em jornais de quinta categoria com artigos sobre fenômenos sobrenaturais. Seus olhos pungentes, o sorriso da menina ao seu lado, aquilo tudo era uma avalanche de pedras jogadas contra mim. Eu ainda não tinha guarda-chuva. Mas já tinha sido feito prisioneiro. Você então fala. E você realmente não é daqui, assim como eu não sou daqui. Você nasceu em uma cidade que não está em mapa algum. Uma cidade que habitei em sonho nos últimos dez anos. Talvez. Depois, após algumas bebidas e alguns cigarros, no espaço agora aquecido, eu te encontro novamente e você me joga esse olhar que incendiou tudo dentro de mim enquanto eu caminho em sua direção para pegar algo no balcão. Eu quase encosto em você e seus olhos estão absolutamente fixos nos meus olhos. Até que chego perto, sorrio (charme), quase caio desacordado, mas te beijo no rosto, roço sua pele (casacos agora sobre cadeiras) e sinto a verdade do seu corpo inscrita em mim. Uma tatuagem.  Quem te deu os seus olhos, os seus cabelos desalinhados, os seus braços delicados? Caos.


O final da noite com você foi a manhã do dia seguinte. Aurora.

Seu desejo é minha prisão. Você me jogou com violência para fora de mim. Minha fortaleza, minha Helena, minha fortaleza teve o mesmo destino de Tróia. Faça o que tiver que ser feito. Eu o farei.  Sempre.

A felicidade é suja. Mundana. Me gaste e depois arraste os meus despojos sobre a terra. 

Há algo de incontrolável em você. Eu transbordo. Chove um pouco lá fora mas este apartamento está inundado, as paredes estão todas pegajosas e descascadas, o teto desabou, uma cachoeira sai da sala em direção às escadas contorcidas. Foi declarado estado de sítio em nossa quadra. Você é um rio. Toda vez que você chega, alguma coluna desmorona. Está tudo desconstruído. Nós moramos em ruínas fora do tempo. Há algo de incontrolável em mim. Você transborda.

Eu quero mais.

Você furou a fila que não existia e redesenhou os meus planos. Pane na Matrix. Houston, we. E depois... Mas nunca fui de ter medo. Sou tão forte e tão frágil.

Você me habita.

Agora não existe mais sapato em que caibam meus pés.

Não me lembro quando foi que decidimos não mais ter outras atividades e deixar de perder tempo. Eliminar a burocracia que existia na nossa vida. E houve uma paz tremenda, o silêncio do fundo da terra depois do terremoto. Nossa maneira de viver foi exatamente isto: à nossa maneira. Autêntica. Nosso ordenamento era caótico, nossa constituição não tinha artigos. Era só um caminhar juntos rumo a uma alegria tranquila, com nossas almas já esgotadas. Não falamos língua humana, logo nós que falávamos tantas fomos esquecê-las todas. A cena da lareira acesa, nós dois pesadamente nus embaixo do cobertor. Eras se passaram. Seu olhar, o seu olhar. Ah.

Que lástima a necessidade de explicar-se quando não há nada exprimível.

Se lembra quando você me perguntou sobre minha história e eu disse que minha história havia começado naquele dia? Hoje penso que estivemos fora do tempo, que tudo havia começado e também terminado ali. Naquele exato momento. Eu próprio não sei dizer se nossas ruínas têm séculos ou segundos. Aquela fila foi na festa de ontem, quando eu era jovem.  Dançamos músicas eternamente na moda. Estou cheio de marcas suas antigas que não cicatrizaram. Folheio nosso livro, todas as páginas estão em branco e vão se preenchendo à medida em que o leio.

Me recuso a contar sua história para as psiquiatras daqui. Você é meu segredo.

Revelei a fotografia que você tirou de mim. É um caleidoscópio.