domingo, 27 de abril de 2008

Filosofia, interrompida

Há mais ou menos treze anos atrás, eu ainda lia pouquíssimo. Eu deveria ter vergonha de dizer isso mas, como tenho considerado a sinceridade virtude muito importante, confesso que comecei a ler bastante quando, fazendo um simulado de inglês e terminando muito rapidamente (pois não me esforçava muito nas provas), um amigo passou-me um livro para ler enquanto esperava. Eu estava em San Diego, pela primeira vez no exterior para estudar outra língua (e até hoje não sei falar nenhuma). O amigo era um suíço que nunca mais vi, mas cujo nome não esqueço porque ainda o prezo muito por isso: Richard Bruder. O livro era “O mundo de Sofia”.
Esse livro do Jostein Gaarder foi best-seller durante muito tempo, tanto no Brasil quanto em vários países do exterior. Acho que esses romances que prometem ensinar tudo o que se deve saber sobre determinado assunto, vez por outra, são muito vendidos. Esse era um dos casos.
Embora eu tivesse gostado muito da história, o que realmente me interessava eram os capítulos em formas de cartas que explicavam resumidamente idéias de filósofos famosos. Desde então, eu nunca mais parei de ler. Logo, eu devo praticamente todo o meu interesse em livros, ao menos inicialmente, à filosofia.
Praticamente todo o tempo restante que tive nos Estados Unidos, passei-o lendo. Lendo o livro, que comprei no mesmo dia por não poder roubar o de meu amigo, lendo a poeta Dorothy Parker e Walt Whitman (do qual nunca tinha ouvido falar), lendo revistas sobre música. Até hoje, minha impressão mais nítida de San Diego é sobre o sofá da sala dos Maine, com livros na mãe. Da cidade, sinceramente, lembro muito pouco, com exceção da escola. Essa estada, de vez em quando, parece só um sonho.
Minha mãe, que não gostava nada desse meu péssimo hábito (ou não-hábito) de não ler, resolveu incentivar-me de diversas maneiras. Uma delas foi quando eu tive interesse na coleção “Os Pensadores”, que já foi lançada diversas vezes em bancas, em diferentes versões. A minha é aquela em capa dura verde. Minha mãe comprou-a toda para mim, cada um dos 30 volumes. E eu passei a ler todos, na ordem, para tentar aprender mais coisas sobre filosofia.
À época, eu cheguei mesmo a prestar o vestibular para filosofia em duas faculdades: Unicamp e UCG. Passei nas duas, matriculei-me na Unicamp, mas a vida acabou levando-me a fazer Direito na UnB. Seja como for, esse amor pela filosofia durou muito tempo. Cheguei a pensar em parar o curso de Direito para fazer Filosofia, tal como tinha planejado alguns anos antes. Acabei considerando que os argumentos de meu pai, de que eu não deveria gastar os anos de Direito que já havia cursado, eram mais ponderados do que meus impulsos de largar tudo e fazer algo do qual realmente gostava. A resposta para esse dilema, se deveria ou não ter-me dedicado a algo de que gostava tanto mas que provavelmente não daria retorno financeiro, até hoje não a tenho.
A paixão pela filosofia, pouco a pouco, foi sumindo. Eu parei de ler a coleção, lá pelo décimo volume, por volta de 1998. Desde então, pensei em fazer história (que cheguei a cursar por um período, após ter conseguido o diploma do primeiro curso), psicologia, sociologia, e por aí vai. A questão da minha indecisão daria milhões de páginas, e perpassa toda a minha vida, mas ficará para outra ocasião.
O fato é que resolvi retomar a leitura daquela velha coleção que minha mãe havia dado, tantos anos e tantas experiências depois. O volume que resolvi ler foi um que tinha deixado pela metade, e que sempre é citado por aí: são os “Ensaios”, de Montaigne.
Eu teria milhões de comentários a fazer sobre o livro e sobre Montaigne, e tenho feito por aí, em conversas esparsas. Mas, por escrito, eu só queria relembrar essa trajetória interrompida e dizer que este livro tem mudado minha vida e que eu não poderia estar mais feliz por tê-lo retomado, depois de mais de dez anos.
Eu voltei a morar na filosofia.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Fria Genebra...

Foto tirada há alguns dias atrás, em Genebra. Uma figura tentando desesperadamente expor-se, apesar do frio e apesar da indiferença.

Distinção

Há uma diferença
Entre omitir e contar.
Entre falar e conversar.
Entre sorrir e chorar.
Entre viver e durar.

Diferença entre
Nós e laços
Laços e casos
Casos e acasos.

Há uma diferença entre
Entre na minha vida
E aguarde na sala.

Uma divergência.
Uma insistência.
Há uma diferença

Entre eu
E você

meu amor.

sábado, 15 de março de 2008

It ain't etiquette

Ler livros de etiqueta, ou sequer saber algo sobre regras de “civilidade”, é algo fora de questão durante a adolescência. A modernidade destaca livros com idéias românticas, em que a individualidade e a autenticidade estão entre as coisas mais grandiosas de uma pessoa. O conceito de “regras de convivência” só pode ser seguido por pessoas sem interioridade, que precisam de guia para interagir com outras pessoas.


Como conciliar as idéias libertárias de Sartre e Rousseau, de Byron e Nietzsche, com a idéia de algo tão aprisionador quanto regras de convivência? A etiqueta era símbolo da hipocrisia, da necessidade absurda de imaginar-se parte de um grupo por partilhar modos semelhantes à mesa. Finalmente, a etiqueta é também um símbolo de exclusão e, portanto, era anti-democrática: não participavam do grupo os não-iniciados na arte de bem manejar talheres, de saber os vinhos apropriados a cada prato, das conversas agradáveis durante uma xícara de café ou enquanto tomavam um sorbet para melhor apreciar o requinte que se seguiria.

A etiqueta ainda é para muitos o símbolo dos ideais antigos de nobreza e de sua dissimulação nos palácios, é contrária à autenticidade e aceitação que marcam as sociedades democráticas. É a contraposição ao comportamento do artista, que busca manifestar o seu interior e não ser podado pelo dever-ser do outro.

O jovem esclarecido, com esses ideais, integra-se ao mercado de trabalho, integra-se a outras famílias (de namorados, de colegas). O jovem esclarecido tem necessidade de sentir-se aceito nesses novos círculos, que não conhecia. O jovem esclarecido quer que os outros o reconheçam como parte do grupo, independentemente de seus pais, e observa que existem regras que outras pessoas seguem e que ele não segue. Em sua infância, não havia jantares de gala, não havia convites indicando o tipo de roupa adequado à ocasião, nem convivência com pessoas com esse tipo de preocupação.

Sua infância havia sido muito feliz, na medida de possível, e talvez essa felicidade tenha a ver com o fato de não ter sido repreendido por falta de modos, e por ter convivido com pessoas extremamente espontâneas nas comemorações de que participou. A etiqueta não havia feito falta em sua vida e, sinceramente, deve ter sido melhor que ela não existisse naquele tempo.

Agora, nota que não se comportava como deveria, ou ao menos como esperavam dele em uma série de situações. Ele percebe que havia pessoas que correspondiam a tais ideais, que havia pessoas que se comportavam conforme esperava-se delas, e que tal comportamento agradava bastante, especialmente às pessoas mais velhas, com quem ele pouco convivia.

Ele observa, a contragosto, que sempre teve acesso a esse mundo e que nada o impediu de conhecê-lo, contrariamente aos despossuídos ao qual sempre se sentiu mais próximo. Não podia fingir que era absolutamente alheio a isso tudo. Ele era próximo dessas pessoas concretas que se vangloriavam de sua etiqueta para excluir os demais, para menosprezar aqueles não-iniciados. Ele era cúmplice disso, embora não fosse tão iniciado quanto alguns amigos.

O que o manteve alheio a esse saber foi sua arrogância. Diante da ignorância a respeito do assunto, ele preferiu dar de ombros, abominar toda a humanidade por saber algo que ele não podia admitir desconhecer. Por praticar algo do qual ele era incapaz. O seu orgulho próprio era encoberto pela arrogância suposta dos outros.

*

A pessoa acima, dissimulada em terceira pessoa, tem algo de mim. Talvez represente mais gente, mas não posso seguir a hipocrisia de fingir que seja alguém ideal. A etiqueta mais moderna, ou a pós-moderna, não permitiria. Por isso, passo a admitir minha precária condição usando a primeira pessoa.

Naturalmente, eu sabia algo sobre essas regras de convivência, porque convivo com outras pessoas. Com o tempo, deixei de agir exatamente de acordo com minha vontade tirânica. Eu passei a controlá-la para o bem geral, e essa contradição gerou meu mal-estar na civilização. Preciso expressá-lo. Mesmo que isso não siga as atuais regras de etiqueta.

*


Admitir ler manuais de etiqueta é como admitir ler livros de auto-ajuda: há algo de humilhante nisso. Os livros de etiqueta não estão destacados na estante da sala, não estão embaixo dos vidros das mesas de centro das salas de apartamentos de classe média. Esses novos livros eróticos (que agora são tão soberbamente exibidos como sinal de modernidade) estão nos recônditos dos armários. Sobretudo, não se fala sobre essa leitura. Por quê?

Em primeiro lugar, pela contradição colocada acima. A modernidade foi construída a partir da relevância do indivíduo e decorrentes ideais de espontaneidade, originalidade e criatividade. No entanto, a etiqueta representa o oposto desses ideais, por exigir um comportamento contido, regulado, uniforme. Algo semelhante à idéia de comunidade que exigia antes da ascensão do liberalismo. A etiqueta, nesse sentido, é reacionária. Ela lembra que, embora tenhamos enforcado o último nobre nas tripas do último padre, algo dessa sociedade ainda resta. Pior, ela permanece nos estratos mais favorecidos, na nobreza moderna. A etiqueta é um sinal de distinção.

O discurso sobre etiqueta, portanto, é contraditório. Tenta-se resolver essa contradição defendendo-se a “etiqueta natural”. Diz-se que não há nada mais belo do que ver alguém portar-se civilizadamente do modo mais natural. Assim, a etiqueta ideal é aquela que já nasce conosco, que já está presente no berço. Deseja-se que um dever-ser obviamente heteronômico seja visto como algo natural, ou seja, como autonômico. Não há naturalidade alguma em uma criança usando vários talheres durante as refeições. O absurdo desse discurso é tamanho que, na maioria das vezes, prefere-se o silêncio.

Outra maneira de tentar atenuar é oferecer regras dizendo que podem ser quebradas “segundo o bom senso”. Ora, há várias regras que não são ditadas pelo bom senso e que, no entanto, seria falta de bom senso infringi-las. Não há bom senso em não partir folhas depois dos talheres em aço inox. Não há bom senso em usar a mão com menos habilidade para manejar este ou aquele instrumento. Grande parte das normas construídas no processo civilizador decorre de aspectos alheios à racionalidade. Logo, infringir com bom senso é uma regra que não pode ser seguida. Além disso, o dever-ser perde o sentido quando se nega sua própria condição, dizendo-se que ele pode não ser. A etiqueta é espécie de direito, e exige uma comunhão minimamente cega às normas, para que possa ser eficaz. Como não se admite o caráter normativo da etiqueta, mais uma razão para preferir-se o silêncio.

Embora a etiqueta tenha função social, ela é apresentada tão contraditoriamente que não consegue perder a timidez por não saber o que é ou que papel tem no nosso tempo.

Enquanto isso, seguimos conversando durante as refeições, sem mencionar a satisfação de nos sentirmos iguais à mesa e nos distinguirmos de outras pessoas por pequenos detalhes de comportamento. Continuamos a vangloriar a nossa elegância natural, adquirida depois de longas lições e duradoura prática, quiçá reforçadas com a leitura de alguns livros escusos no vão da parede.

Ora, não falemos de política. Ah, sim, este vinho está maravilhoso. Não precisava ter se incomodado em trazer, querida. Há tempos não tinha uma noite tão agradável.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Novos provérbios, op. 1.

Se as paredes tivessem ouvidos,
seriam todas torturadas
até que dissessem não.

Se as paredes falassem,
seriam todas executadas
num grande paredão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Bolo de cenoura

Na frente do meu trabalho, descubro um rapaz que vende bolos e alguns outros quitutes, praticamente toda tarde. Eu nunca o havia notado. Subindo os degraus da escada, e dando um furtivo olhar nos doces (eu já estava com fome, pouco depois do almoço), descubro algo que não comia há tempos: bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Assim como o olhar havia sido furtivo, foi também a primeira mordiscada, entre alguns papéis aos quais eu deveria estar prestando mais atenção. O bolo de cenoura na minha boca, o chocolate derretendo no palato, pregando nos dentes, a massa pouco a pouco absorvida e revelando seu gosto. Meu deus, bolo de cenoura com cobertura de chocolate!

Foi um sabor que me lembrou bastante de outros tempos mais felizes e inocentes. Por que eu nunca mais comi, eu não sei. Mas que saudades daqueles velhos tempos! O bolo de cenoura, essa semana, foi o meu chá da Madeleine. Mas eu não me chamo Marcel. Ao invés de sete livros, escrevo essas linhas (ainda) furtivas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Vida e época de Michael K (Life and Times of Michael K), de J. M. Coetzee

O livro "Life and Times of Michael K", do sul-africano (depois naturalizado australiano) J. M. Coetzee, rendeu ao autor o Booker Prize, em 1983, e maior notoriedade no meio literário internacional. Estou buscando ler mais literatura contemporânea, algo que não fazia antes, e, agora, estou tentando ler mais livros em inglês, por dois motivos: aprimorar uma língua que não consigo aprender direito e ter mais contato com a vasta literatura que não conheço muito bem.

O livro conta a história de Michael K, uma pessoa simplória e de aspecto desagradável (possui lábio leporino) vivendo em meio à guerra civil na década de 1970. Em meio à violência vigente na cidade do Cabo, sua mãe enferma pede-lhe que a leve para uma fazenda em Prince Albert, que se torna, para ela, o Éden perdido e nostálgico que poderá reparar os estragos feitos pela guerra. Michael K improvisa um desajeitado riquixá, depois de perceber que não obterá permissões para deslocar pelo país, instala sua mãe no aparato e sai puxando-a por estradas secundárias, para evitar postos de controle. No meio do caminho, sua mãe piora, devido às condições precárias do transporte e do tempo, e morre em um hospital. Seu corpo é cremado sem autorização do filho, que resolve levar suas cinzas aonde sua mãe nasceu, tal como havia prometido.

K, entre vários contratempos, consegue chegar a Prince Albert, e encontra uma fazenda similar à descrita pela mãe. Lá, passa a viver precariamente - abatendo ovelhas, tentando retirar água de um açude, comendo larvas – até a chegada de um dos proprietários da terra, desertor de guerra, que tenta transformá-lo num servo pessoal. O protagonista, então, vive um tempo nas montanhas, até que é encontrado semi-vivo por funcionários do governo, que o levam a um campo de refugiados. Lá, tem de trabalhar para comer, em fazendas ou reparando estradas e ferrovias. Não satisfeito com a falta de liberdade, e após testemunhar diversos abusos depois da explosão de um prédio na cidade vizinha, K foge do campo e volta à fazenda, já abandonada. Tenta, novamente, viver da terra, plantando abóboras e melões, mas sua quase inexistente alimentação faz sua condição piorar, até que, novamente, é encontrado por pelotões do governo, que o tomam por ajudante dos conspiradores que vivem nas montanhas.

Michael segue, então, para um hospital em outro campo, e é tratado por um médico que, malgrado K recuse a alimentação, nega-se a deixá-lo morrer e dá-lhe tratamento especial. O protagonista continua a definhar, mas consegue, finalmente, fugir do hospital improvisado numa pista para corridas de cavalos, e volta ao lugar onde começou, a cidade do Cabo. Percebe a cidade ainda mais devastada pela guerra, conhece um bando de amigos e tem, provavelmente, sua primeira experiência sexual, com uma provável prostituta do grupo, que lhe faz sexo oral. O livro termina com a divagação de Michael K de que poderá voltar para algum lugar onde, novamente, tentará viver da terra, com recursos mínimos com os quais conseguirá sobreviver.

O livro é narrado em terceira pessoa. Porém, o narrador não é onisciente, e confunde-se com seu personagem principal, muito simplório, pois não apresenta reflexões além do que ele seria capaz de oferecer. Também há utilização do discurso indireto livre, assim como de diálogos, ao longo do texto. No entanto, a interiorização precária do protagonista e a falta de onisciência do narrador leva a um texto descritivo, frio e estéril como a guerra em meio à qual vivem os personagens. Enquanto ocorrem as piores violências e arbitrariedades, os maiores contratempos e tragédias, a proximidade da morte, não há uma reflexão de Michael K sobre a situação que vive, com raras exceções. A situação só muda no segundo capítulo, relativamente curto, cuja narração fica a cargo do médico que assiste K. Somente aí há uma tentativa de explicação da trajetória de Michael K, mas ainda essa tentativa de explicação é insuficiente, visto que o médico não consegue arrancar do protagonista mais do que algumas vagas palavras.

Então, o que se oferece ao leitor é um texto sem muitos adjetivos, com poucos diálogos e poucos reflexões. O livro é, em suma, uma grande descrição da viagem e das desventuras de Michael K, que parece não entender muito bem o que se passa, e busca viver alheio à guerra que o envolve. Coetzee, ganhador do Nobel de Literatura em 2003, tem grande força expressiva em todas as descrições: é extremamente preciso em cada ação e movimento, em cada substantivo e seus qualificativos. Para um leitor que, como eu, não domina o inglês, o desafio é imenso. São vários os tipos de ruído e de movimentos corporais, as alterações do tempo e da condição do protagonista, o detalhamento na descrição dos mecanismos com que se lida. Coetzee cria, realmente, um mundo vivaz. Algumas vezes, o leitor tem a impressão de que aprende a construir um carrinho de mão com rodas de bicicleta e um eixo roubado de um depósito, a consertar uma bomba d’água e, à medida que a fome se apodera, como o corpo transforma-se e o que se sente nesse processo.
A força descritiva é tão envolvente que cheguei a ler resenha afirmando que o segundo capítulo, o único com alguma reflexão, seria o maior defeito do livro. Diante da crueza da história de Michael K em si, não haveria necessidade de um narrador mais consciente, a dar um sentido à sua peregrinação. O ideal seria o próprio leitor buscar seu sentido, diante de tudo que lhe é exposto. Confesso que não sei se estou de acordo. A pessoa que busca dar sentido é um dos personagens, e muito mal informado, e não há razão para que o leitor aceite sua autoridade ou dê-lhe credibilidade. O que se tem é uma interpretação possível da aventura de K, e nada impede que o leitor discorde dela. Talvez, na falta total de impressões alheias, o livro ficasse com ausência de alguém com quem ter empatia. É como alguém com quem se possa conversar sobre o que, afinal, quer dizer toda a trajetória do livro. O livro, porém, não oferece sentido pronto. A fuga de K representa também sua discordância daquele que o mantém sob seu jugo, mesmo que supostamente benevolente.

As interpretações do livro, portanto, são várias. O fato de o personagem chamar-se Michael K foi lido como uma aproximação de Kafka, cujos personagens costumam encontrar-se num emaranhado de acontecimentos que não conseguem entender, e do qual não podem desvencilhar-se. É uma possibilidade, pois Michael K tem isso em comum com Joseph K, por exemplo. Outros vêem Michael K como alegoria do próprio escritor: seria abreviação aproximada de John Maxwell Coetzee. A leitura, a meu ver, fica mais rica ao fazer tais aproximações que, provavelmente, não são gratuitas, ao tratar-se de um escritor tão consciente do ofício e professor de literatura, com livros publicados e muito respeitados. Outra interpretação seria a de que o personagem principal seria uma alegoria de todos os negros da África do Sul, sendo o lábio leporino a marca visível de sua posição social, ou mesmo de toda a população devastada pela guerra, que não encontra sentido em meio a uma guerra cuja causa todos já esqueceram. Finalmente, sequer seria preciso localizar a guerra na África do Sul: os campos de concentração, a exploração mútua, a violência generalizada, as precárias condições de vida e a própria banalidade da morte podem ser situadas em qualquer conflito bélico.

A narração do livro também é bastante peculiar. Não é narrador externo, nem participante: trata-se, afinal, de uma mistura entre os dois. É um narrador que transita entre a consciência do protagonista e a terceira pessoa. Isso dá ainda mais margem à divagação. O narrador só é claro durante um breve período do texto, quando o médico assume a narração. Mas esse lapso logo é cortado, para que a narração siga como era inicialmente, até o fim do texto. Essa narrativa permite que o narrador utilize um vocabulário altamente preciso, que dificilmente seria dominado pelo protagonista, e que não faça divagações além do que a inteligência de K seria capaz.

No final, só me senti atordoado. E não soube dizer, afinal, que papel coube a Michael K com base na epígrafe do livro: "War is the father of all and king of all./ Some he shows as gods, others as men./ Some he makes slaves, and others free". Dependendo do ponto de vista, Michael K poderia ser deus ou homem, escravo ou homem livre. Cabe a cada um criar sua própria interpretação.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

De corpo e alma

Costelas espaçadas
Hélix curvada
Amputada enxertada
Será colocada
Prótese mini-texturizada
Jamais será rejeitada
Sua anatomia facilita a cirurgia
Deus te criou para intervenções
Em todas as regiões
À sua imagem e semelhança
Não consigo sair desse corpo
Não te pertence
A alma aprisionada
Merece músculos tonificados
Hoje se quer se parece
Eu pareço melhor que
O próximo me apóia me disse
Agora mais um corte
No meu pós-moderno
Culote.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Noturno n.º 9

As grades da varanda, onde se passava após subir uma íngreme rampa, que dificultava a entrada dos carros. Meu pai e sua mania de sempre ter Monza, e que me fazia pensar que o Monza era o melhor carro do mundo, e Chevrolet, a melhor marca. O asfalto da frente, o terreno baldio ao lado, onde inventávamos guerras com mamonas, onde imaginávamos um campo de futebol só pra gente, mas nunca concretizado. O terreno baldio era meu esconderijo secreto, mesmo estando à vista de todos. Eu me escondia dentro de um semi-arruinado suporte para caixas d’água, e lá me sentia um coronel de meu próprio mundo. Eu ruminava amores secretos, eu sonhava o dia em que seria o mais forte e o mais belo, quando meus amores platônicos se declarassem delicadamente a mim, e meus amigos reconhecessem que, afinal, eu teria algum valor.
O muro era alto do lado da minha casa, e baixo do lado daquele lote vago, e eu o pulava dos dois lados. Encontrávamos insetos, bichos, até cobra já vimos, e eu morria de medo de cobra, mas me recusava a arredar o pé daquele espaço, o meu espaço. Perto de lá, os prédios públicos, tão parte de minha vida mínima. Do lado oposto, uma rinha de briga de galos, que insistia em ficar ali, e que recebeu minha visita mais de uma vez. Aquele cheiro de granja, aquelas marcas de sangue, e as pessoas, suadas, gritando, animadas. Meu pai dizia que era errado, e que tinha de fechar aquilo. Então, eu achava que era errado, só era curioso.
As idas ao clube, os primeiros “melhor amigo”, as conversas ao meio-fio, até anoitecer. As histórias de perdas de virgindade, com meninas mais velhas. O meu sonho de perder e ganhar nova vida com aquelas que conhecia, da minha idade, que namoravam os mais velhos. A inveja dos meninos mais velhos, a ânsia de ser logo mais velho e alto e forte. A recusa em ser adulto, triste, usar calça ou, pior, terno. A idéia de que o mundo inteiro se resumia àquela cidade onde eu morava e que, portanto, eu não precisava sair de lá. Mas meu pai mudava, coisas de trabalho, a vida vai ser melhor, você vai ver. Eu não gostava de trabalho, nem de escola, que era, para mim, uma preparação para o pior. E não gostava de que meu pai fosse aquele que me fizesse ser “filho do juiz”, e torcia para que houvesse muitos juizes logo nesse mundo.
Jogar bola todo dia, dibrar todo mundo antes de chegar no gol, sem ninguém estrovando. Brigar de vez em quando, e ver o tremor imenso que vem depois, batendo ou apanhando. A vontade de ser menino, a vontade de entender o mundo das meninas e adivinhar o que pensam. Como será beijar aquela que eu adoro e nem imagina. Gostar de alguém só depois de todo mundo dizer que você gosta, e você inventa de gostar, morre de gostar, e começa a espalhar por aí que gosta. Os nomes estranhos. Meu nome estranho, sem xará na escola. Sem amigos com pais com idéias parecidas com as do meu pai. Lula vai roubar sua casa, ele vai colocar 10 pobres na sua, você vai ficar sem quarto. Piano é coisa de viado, já te disse. Ninguém gosta de ler, é chato.
Mas as revistas de cinema lá, após inúmeras revistas em quadrinhos. A primeira masturbação, achar aquilo estranho, ter medo, conversar com o pai, ele rir e dizer que todo mundo fazia, até o tio Ítalo, e que depois, sem dizer porquê, um dia, pára. Não era errado. Meu pai dizia masturbação, mas nas quadras de futebol, todo mundo batendo punheta pra lá e pra cá. Eu não xingava, não xingava quase nada. Era feio, mas ninguém gostava das idéias dos meus pais, e eu já estava era me desligando de muitas delas. Todo mundo entende nós vai, não precisa dizer vamos. Cara de decepção e raiva na mesa do almoço.
Coleção “para gostar de ler”, para meu filho, pelo amor de deus, gostar. Phantom System e Nintendo. Futebol. Pizzaria Gota de Mel. Bicicleta. Festas com refrigerante e salgados. Para sair, dinheiro somente para um refrigerante e um salgado. Edjane, Chadia e nomes diferentes. Todo mundo chamava Juliana, Mariana, Rodrigo e Pedro. Não entendia meu nome, veio da parte errada da Bíblia, veio na época errada para nomes. Não queria ter nome com “A”, pois vinha primeiro na chamada. Seria bom, talvez, Marcos, quem sabe.
Eu me lembro tendo aulas caseiras de teoria musical. Comprarem uma flauta doce para mim, fácil de tocar. Eu tocar umas musiquinhas que pareciam exercícios, e querer tocar mais. Quero tocar como minha tia, umas músicas difíceis. Daí, toco parte de Noturno n.º 9, do Chopin. Eu gostava de Beethoven e Chopin, além das músicas que tocavam nas boates que eu não conhecia e não poderia ir. Eu toco o Noturno n.º 9, só um pedaço, e penso que as coisas estão melhorando. Eu penso que já tinha um melhor amigo, que eu era apaixonado pela menina que diziam que era apaixonada pelo filho do juiz com cara de índio, que alguns me escolhiam antes na seleção dos times, que tinha vergonha de a professora dizer que eu era bom aluno mas gostava. Eu pensava que o Noturno n.º 9 resumia tudo, aquele pedaço, bastando alternar posições nos dedos e soprar como era devido. Ele estava esperando eu descobri-lo. Foi atrás das grades da varanda, a rua com carros e casas e meus pais, tudo à vista, com a coleção de livros e discos em capa branca. Era aquela minha tristeza e ansiedade, sorriso e contentamento. Esse Noturno segue tocando dentro de mim.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Cegos, surdo e mudo

Tô indo,
Ai!

Peraí,
ugh!

Vocês,
putz!

Hein?

(!)

Ócio criativo

Estou lendo
medianamente.
Novamente.

E toda vez que leio
É sempre a impressão
de que meu texto,
não sei a que veio.

Pensamento que,
levianamente,
não mente.

O que escrevo, sei,
é besteira.
Coisas sem eira
nem beira.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Invisível

Eu sou o vento, não tenho rumo definido: meu destino é lugar nenhum. A liberdade é transparente. Sinto o corpo das pessoas em quem toco, e algo delas fica em mim. Você não me olha e, se olhasse, não me veria. No entanto, eu participo das brisas e das tempestades da sua vida. Eu corro e me entranho nos seus recônditos mais secretos, eu imagino o que se passa dentro de você. Depois, vou embora. Eu chego ao Rio de Janeiro, passo a Santiago, parto a Genebra. Eu vou a praias, a cordilheiras, a campos. Eu sou frio, eu sou quente. Percebo tudo, e fico tem-po-ra-ria-men-te. Paro em lugares, para sentir algumas pessoas longamentshshshshsh... E vooooooou...

Deixo nelas um sentimento, uma sensação, um pensamento. Elas sentem que ganharam algo. Algo há de carnal no vento, há algo sensual em mim. O vento é o sexo que você tem ao passear pela rua. Eu arrombo a porta da sua casa. Algumas vezes, eu sinto vontade de voltar para você, e volto. Eu sou o vento. Pense em mim quando seu cabelo oscilar, quando sua pele tremer, quando seu pelo eriçar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Viagens, Alain de Botton, Paloma, Fernando Pessoa

Amanhã, começo uma viagem relativamente longa. Vou ver paisagens que nunca vi antes, fazer coisas que nunca antes havia feito, falar outras línguas, falar português, vou cantar, ficar silencioso em alguns caminhos. Vou me sentir tímido, vou me jogar em situações, misturar-me ao todo. Durante viagens, é assim. A gente aprende mais, lê mais (no meu caso), diverte-se mais. Enfim, é impressionante a viagem. Estou lendo, agora, um livro de Alain de Botton, em inglês, The Art of Travel, que fala coisas interessantíssimas, e que merece ser lido. Agora, depois de conversar com a Paloma, que pensa outras coisas interessantíssimas, posto aqui um poema a que sempre retorno, de um poeta a que sempre todos retornam: Fernando Pessoa. Quem não leu Fernando Pessoa está tendo defeito de formação, ainda mais porque ele se contradiz o tempo todo, e a formação precisa de contradições, negações, paradoxos. E, nesse tempo de tantas dúvidas, é melhor ter orgulho de nossos erros do que viver em culpa. Enfim, Lisbon Revisited.

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ¬
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância¬,

Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Pé rachado

O meu pai era goiano
Meu avô, também goiano
O meu bisavô, goiano
Meu tataravô, goiano
Meu maestro soberano
é - entrego - outro goiano.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Súbito

É um dia.
Melhor: é um momento.
A fantasia
(num momento!)
expira.

Você, aí,
(nesse exato momento)
é livre.